A morte… ali tão perto!
A morte e o sofrimento das populações, o calor, o ar putrefacto, a escassez de alimentos e o desfasamento horário que lhes dificultou os directos foram os maiores problemas sentidos pelos jornalistas das televisões portuguesas enviados ao sudeste asiático. Apesar de tudo, esta missão foi para todos uma experiência única. Que deixou marcas para sempre…
“Cada dia que passa, as recordações parecem mais difíceis de suportar. Não consigo desligar-me do que vi.” A frase é de António Cancela, enviado especial ao sudeste asiático, e um experimentado jornalista com 21 anos de profissão que pertence ao grupo fundador da SIC.
A voz e o olhar do editor de Desporto do canal de Carnaxide provam que, muitos dias depois de ter deixado a Indonésia, um dos países mais atingidos pelo tsunami de 26 de Dezembro, ele continua a conviver diariamente com as imagens de dor e morte que ali encontrou. Apesar dos muitos anos de profissão, das muitas deslocações feitas como enviado a zonas de conflito, da experiência sofrida na Albânia, quando os kosovares foram expulsos a ferro e fogo do Kosovo.
António Cancela, de 44 anos, e o operador de imagem Renato de Freitas, chegaram à Indonésia a 31 de Dezembro e “apesar das piores expectativas e da preparação psicológica durante a viagem” a realidade “superou” tudo. “Foi um choque tremendo. Principalmente o primeiro dia passado a ver corpos a serem lançados em valas comuns e dezenas de sacos com cadáveres de novos, velhos, crianças... Foi terrível! A dimensão da tragédia era apocalíptica”, desabafa António Cancela, que em Banda Aceh, um dos locais mais atingidos pelo tsunami, tentou compreender o incompreensível.
POR QUE NÃO CHORAM?
A missão de relatar a tragédia para a SIC deixou marcas no quotidiano de Cancela. Mesmo depois de já estar em Lisboa. “Está a ser pior do que quando lá estava. A preocupação de estabelecer um contacto, enviar a peça, tratar de uma viagem, procurar o que comer ocupava-nos o tempo e a cabeça. Agora, regressados a Lisboa e despidos das exigências da reportagem, vejo, de novo, todas aquelas imagens”, conta, emocionado, o jornalista.
Porém, mais do que a morte dos que sucumbiram à força do maremoto, o que mais abalou António Cancela foi a tentativa insistente, mas infrutífera, de compreender a dor e o vazio do olhar dos vivos.
“Consumiu-me o tentar perceber por que não choravam, não gritavam, não reclamavam os sobreviventes que perderam família, amigos, casa, haveres... Só vi uma mulher chorar porque tinha perdido 25 familiares. Os outros calavam a dor, aceitavam o que a vida lhes tinha destinado e olhavam para a frente tentando reerguer a sua própria vida. Um homem perde cinco filhos e não chora? Não tem sequer a voz embargada? Nos sobreviventes havia uma morte no olhar, um distanciamento face ao sofrimento que me chocou... Eu e o Renato não conseguimos captar a essência desse olhar”, explica António Cancela à Correio TV.
Os dois repórteres da SIC chegaram a Banda Aceh sem ter onde se alojar porque “todos os hotéis estavam destruídos”. “Nos dois primeiros dias não dormimos e passámos a noite num restaurante semidestruído. No terceiro dia, instalámo-nos numa entrada de casa de uns familiares do nosso motorista. Eu dormia num meio sofá. O Renato no chão, ao lado do material de reportagem”, relata o jornalista.
Biscoitos e atum, comprados em Jacarta e guardados no fundo das mochilas, foram quase o único sustento dos dois repórteres. “Racionávamos a comida e só nos alimentávamos uma vez por dia”, lembra António Cancela. A água, comprada no mercado negro a “preços especulativos”, era proveniente da ajuda internacional.
“NUNCA VI COISA IGUAL”
Daniela Santiago, de 30 anos, e José Carlos Ramalho, de 38, constituem a dupla de enviados especiais que a RTP mandou ao Sri Lanka, outro dos países afectado pela força incrível das ondas gigantes. “Fomos os primeiros jornalistas a chegar ao local e os últimos a sair”, sublinha Daniela Santiago, que tem oito anos de RTP e 15 de carreira.
À semelhança da sua jovem colega, também José Carlos Ramalho, calejado noutros cenários de guerra, não hesitou em aceitar mais esta missão. E ele que já tinha estado na Jugoslávia, no Paquistão e duas vezes no Iraque denuncia a brutalidade da tragédia que testemunhou: “Nunca vi coisa igual. Bomba nenhuma causaria uma destruição daquelas”.
Daniela Santiago explica as reportagens não transmitiram “o cheiro nauseabundo da morte ou a voz desesperada dos sobreviventes”. “Só quem lá esteve pode ter a noção”, diz. Recordando um dos momentos mais dramáticos da sua viagem ao Sri Lanka, a jornalista aponta como exemplo o comboio atingido pelo tsunami com 1500 passageiros a bordo. “Estivemos no local oito dias depois da tragédia. O comboio ainda guardava 200 cadáveres. Pense-se nas altas temperaturas e humidade daquele país e imagine-se o cheiro no local... Mesmo com máscaras improvisadas era impossível não sentir o vómito.”
A crueldade da tragédia obrigou José Carlos Ramalho a ter “alguns cuidados na recolha de imagens”. “Evitei a imagem violenta, gratuita”, explica.
EMAGRECER À FORÇA…
Também os dois repórteres da RTP recordam os condicionalismos logísticos: “Tivemos muita dificuldade em arranjar o que comer por causa da diferença horária. Quando a noite começava, já estava na hora de fazer os directos para Portugal. E quando acabávamos o nosso trabalho era já de madrugada”, conta o repórter de imagem.
Daniela Santiago sublinha: “Trabalhávamos 21 horas por dia. Tomávamos o pequeno-almoço no hotel e só voltávamos a comer 13 horas depois quando regressávamos depois de alguma viagem para recolher imagens e relatos pelos arredores”.
Por causa do calor, do stress, do cheiro nauseabundo e também pela escassez de alimentos, Daniela Santiago perdeu cinco quilos, Carlos Ramalho, três quilos. “Ainda levei umas barritas de cereais de Lisboa, mas rapidamente se esgotaram”, conta a repórter. Os toalhetes húmidos, também adquiridos em Portugal, ajudaram a garantir a higiene pessoal dos dois repórteres durante o tempo que permaneceram no Sri Lanka.
Apesar de instalados num hotel, o alojamento deixava muito a desejar. José Carlos Ramalho conta porquê: “Uma noite, dirigi--me ao meu quarto cambaleando de sono quando me deparo com um rato. Asseguro--vos que o gato que tenho em casa é mais pequeno do que aquele rato...” Daniela Santiago acrescenta: “E ainda havia as iguanas, os mosquitos...”.
NO CENTRO DO MUNDO
Um dos muitos repórteres portugueses que esteve em Puket, no Sul da Tailândia, foi Vítor Pinto, repórter da delegação do Porto da TVI. Com 41 anos, e 15 de jornalismo, este profissional conta no seu currículo com deslocações a Angola, Brasil e Turquia, de onde tentou entrar, em vão, no Iraque para aí fazer a cobertura da guerra.
Ter estado “no centro do Mundo”, como se tornou o sudeste asiático por causa do tsnunami, “foi uma oportunidade única em termos profissionais, muito rara para um português”.
Face à destruição e à morte, Vítor Pinto explica ter “reduzido tudo à esfera profissional”. Todavia, diz que foi “a dimensão” da tragédia que mais o impressionou. “Só lá estando, calcorreando os locais que a água invadiu se percebe a potência da tragédia”, assegura, deixando claro que “os relatos e as imagens dos jornalistas não dão a real dimensão”. “Não foi possível reduzir ao formato televisivo a dimensão daquela tragédia”, admite inconformado.
A mesma dificuldade sentiu Renato de Freitas, repórter de imagem da SIC, quando, se virou para o seu colega António Cancela e lhe disse: “Preciso de deslocar-me de mota para fazer umas imagens, porque não tenho um ponto de referência e de comparação. A destruição é tão grande que não consigo captar a essência da tragédia”.
Vítor Pinto, da TVI, recorda as maiores dificuldades logísticas se prenderam com as diferenças de horários: “No Sul da Tailândia o mais difícil era cumprir os horários portugueses para o envio de material. O tempo de trabalho na Ásia correspondia ao tempo de descanso em Portugal. Dormimos pouquíssimas horas porque o último directo para Portugal era às três da manhã”.
A FORÇA ASIÁTICA
A forma como a população lidou com a ausência dos cadáveres dos familiares e a busca incessante de informações foram as situações que mais marcaram o jornalista da TVI, que nesta missão se fez acompanhar por Nelson Alves, operador de imagem.
“As consequências do tsunami surpreenderam, mas foram imediatas. Lancinante foi ver as pessoas sofrerem com a ausência dos corpos dos entes queridos, a falta da prova de morte quase certa... Todos os dias havia romarias de gente aos centros de informação, onde estavam afixadas as fotografias dos desaparecidos...Esta imagem é uma das mais fortes que guardo.”
E perante a grandiosidade dos balanços oficiosos, que apontam para a existência de quase 170 mil mortos, Vítor Pinto não tem dúvidas: “A Natureza tem sempre razão! Habituámo-nos à ideia de que a dominamos, mas, de vez em quando, ela coloca-nos no nosso devido lugar. Depois, tornou-se claro que é fundamental a cooperação internacional e a existência de sistemas de aviso prévio de catástrofes naturais. Finalmente, a força da comunicação ficou bem demonstrada através do autêntico tsunami de solidariedade que se criou depois da tragédia no sudeste asiático”.
AS IMAGENS NÃO MOSTRAM TUDO
Directamente de Évora para o Sri Lanka viajou também Amílcar Matos, de 36 anos, jornalista da TVI. “Foi uma experiência única”, afirma este profissional que se fez acompanhar por Ricardo Ferreira, repórter de imagem.
Confrontado com o cenário de destruição total, o jornalista da TVI confessa: “Foi difícil contar o que se via, mesmo com a ajuda das imagens, porque estas não reproduziam a realidade no terreno”.
As valas comuns e o funeral de uma criança de quatro anos, filho único de um casal, foram algumas das cenas que mais comoveram o repórter. O desfasamento horário de seis horas entre Portugal e o Sri Lanka e a dificuldade das deslocações em vias de comunicação congestionadas foram, de novo, alguns dos problemas mais sentidos pela dupla de repórteres.
FAMÍLIA DE JORNALISTAS
José Carlos Ramalho, operador de imagem da RTP, é casado com Rita Marrafa de Carvalho, jornalista também da televisão pública. Enquanto ele viajava pelo Sri Lanka, ela preparava-se para partir para a Indonésia. Antes de viajar, ainda lhe pediu uma opinião sobre a sua decisão. Ele respondeu: “Parte. Não olhes para trás. É a tua profissão”.
José Carlos Ramalho tem também um irmão, operador de imagem, na SIC. Conta que quando ele esteve na Jugoslávia, estava o irmão noutra zona de conflito, o Kosovo. “A minha mãe rezava todos os dias”, conta com um sorriso.
UMA QUESTÃO DE SENSATEZ
A imagem é fogo. Em tragédias desta natureza, onde a condição humana mostra toda a sua fragilidade, é fácil cair na tentação do sangue e dos mortos. António Cancela e Renato de Freitas (SIC) tem consciência do perigo do sensacionalismo. “Decidimo-nos pela sensatez. Não quisemos chocar por chocar, de forma gratuita, porque a destruição e a morte que nos rodeavam já chocavam qualquer um. Em vez de mostrar um rosto a apodrecer, optámos por filmar um pé ou uma mão. A parte valia pelo todo.
Não era preciso esgravatar na morte. Nunca mostrámos aquilo que não gostaríamos de ver, aquilo que não gostaríamos que os nossos filhos vissem”.
Quem devem ser os enviados-especiais das televisões às grandes tragédias mundiais?
Gente com tarimba, prestígio e cabelos brancos ou novos profissionais, aventureiros e com vontade de vencer? A discussão está lançada…
Qual o perfil ideal de um jornalista para cobrir um drama como o do tsunami asiático, que provocou cerca de 170 mil mortes?Em Portugal, apesar da experiência de alguns dos enviados-especiais (é o caso de António Cancela, editor de desporto da SIC), a maioria dos jornalistas destacados para a Ásia tem menos de 40 anos e não são figuras de proa dos canais.
Uma opção que contrasta com a realidade vivida lá por fora. Os canais internacionais perceberam que a catástrofe que atinge o sudeste asiático tem repercussões tão graves como as últimas guerras. Pelo que enviaram alguns dos melhores repórteres para o local, apesar dos custos adicionais que acarretam, referem responsáveis da CNN e ABC.
A CNN escolheu Anderson Cooper, a ABC recrutou a sempre mediática Diana Sawyer e a NBC optou por Brian Williams.
Na CNN desde 2001, Anderson Cooper estreou-se como correspondente de guerra no Channel One News e na ABC. A experiência levou-o ao Qatar após o 11 de Setembro, e ao Haiti pouco antes do golpe de Estado de 2004. Como jornalista, esteve também na guerra do Iraque, seguiu o atirador de Washington e a explosão do Space Shuttle Columbia. Várias vezes premiado, recebeu um Emmy pela cobertura do funeral da princesa Diana.
Diane Sawyer, da ABC, é conhecida pela frase “dormir não é prioritário”. Em Banda Aceh (Indonésia), passou várias noites acampada num estacionamento ao ar livre, tendo por comida pouco mais que pacotes de amendoins e enlatados.
A Apresentadora de ‘Good Morning America’ e ‘Prime-Time Live’, é uma das mulheres mais bem pagas da TV norte-americana. Passou pela CBS e, em 1989, assinou um contrato milionário com a ABC, graças à sua habilidade em arrancar boas histórias e fazer subir audiências.
Brian Williams, a vedeta enviada pelo canal NBC para a Indonésia, dormiu a primeira noite no chão do aeroporto, e só conseguiu duas horas de sono no dia seguinte, graças à generosidade de um nativo que perdera a irmã na tragédia.
Williams entrou para a NBC em 1993 e é um dos rostos mais populares da estação. Autor do directo ‘The News with Brain Williams’, assinou um género novo de jornalismo, que destaca a opinião e a crítica aberta. Em duas décadas de profissão, fez reportagens sobre o 11 de Setembro, a morte da Princesa Diana e do Presidente Kennedy. Foi distinguido com três Prémios Emmy e eleito pela revista ‘GQ’ o mais elegante da televisão actual.
E EM PORTUGAL?
Como determina um director de informação quem são os jornalistas que deve destacar? E se na cobertura do maremoto estivessem repórteres seniores, como em outras ocasiões ocorreu com Fino, Camacho ou Cândida Pinto?
O director de informação da SIC, Alcides Vieira, não foge ao desafio: “Sobre a primeira questão, a decisão é discutida pela Direcção e são pesados critérios como disponibilidade pessoal ou capacidade psicológica, para além do talento jornalístico”.
O responsável afirma, porém, que “para lá dos seniores, devem ser lançados outros jornalistas”. “Pelo que acompanhei nos canais concorrentes, RTP e TVI, o trabalho também foi de bom nível. O resultado é que conta, e o resultado foi óptimo. Os críticos devem discutir os resultados e não os nomes mais ou menos conhecidos”, sublinha Alcides Vieira.
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