“Chocou-me colocarem-me rótulos”

A actriz, que interpreta ‘Manuela’ em ‘Doce Tentação’ (TVI), fala dos desafios da sua carreira e do doutoramento em Psicologia

11 de maio de 2012 às 15:00
“Chocou-me colocarem-me rótulos” Foto: Jorge Paula
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Depois de ‘Espírito Indomável’, ‘Doce Tentação’… o que se segue?

Segue-se a vida… O universo sabe aquilo que quero. E tem-me dado ao longo destes anos todos. Hoje estou de corpo e alma a fazer ‘Doce Tentação’.

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Não há novos projectos?

Na TV não. Mas como estou no segundo ano do doutoramento [Psicologia da Educação], tenho sempre imenso trabalho.

E como tem sido gerir gravações e um doutoramento?

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Acho que uma das coisas que faço melhor na vida é a gestão do tempo. Só não tenho tempo é para perder tempo. Apesar de que quando se grava seja intenso, porque são 12 horas. Mas não gravo todos os dias.

Tem participado em novelas, mas durante muito tempo foi um rosto da comédia. Qual é o registo de eleição?

Esta é a minha quarta novela. De facto estive muitos anos ligada à comédia. ‘Os Malucos do Riso’ talvez tenha sido o mais marcante porque teve várias temporadas e muitas repetições. Gosto de comédia, mas também gostei de fazer a minha ‘Josefa’ (‘Espírito Indomável’, TVI)... Gosto de dar a alma nos projectos aos quais me entrego. Desde que faça sentido e seja verdade. Somos nós que fazemos os personagens, por isso é fundamental que acredite e goste deles.

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Fez algum que não gostou?

Mesmo os que à partida não gostava, como é o caso da Manuela, tornou-se um dos maiores desafios enquanto actriz. Há personagens com que às vezes nos identificamos aqui e ali, mas na Manuela não via nada. O viver de ilusões, de mentiras... Nada disto tem a ver comigo e pensei: Meu Deus, que mulher! Mas tenho de gostar dos personagens, como diz a minha amiga Eunice Muñoz. E tive de gostar dela.

É difícil fazer humor?

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É. Quando as pessoas dizem que tenho muita graça, às vezes fico a pensar como é que consegui, porque não é fácil. E ter uma graça que chega aos outros e que os faz rir e sorrir... Não sei, mas parece que tem resultado.

Nunca foi criticada por interpretar papéis pautados por alguma sensualidade...

Não. Nasci em África e o facto de ter sido bailarina... tenho uma relação pacífica com o meu corpo e com a sensualidade. Se era preciso levar as coisas ao exagero, não me chocava. Chocou-me mais colocarem-me rótulos. Incomodou-me. Já não incomoda.

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Mas no meio artístico?

É no meio que estas coisas acontecem. Entre os pares. "É muito gira, muito boa actriz, mas está ligada à comédia!" Como se um actor não fosse, por definição, alguém munido de capacidade para representar vários papéis. Acontece não só com os que fazem comédia, como também com os do drama. Ou ainda os vilões e as vítimas. É pena que as pessoas ainda pensem que a comédia é uma arte menor.

E o público?

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O público não está fechado e elogia os diferentes registos. São os pares, os produtores e realizadores que colocam etiquetas.

Fechou-lhe portas no teatro, cinema…

Tive a sorte de isso não me acontecer.

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Não é uma profissão fácil?...

Mas hoje em dia há alguma fácil? É uma profissão de alta competição, como a vida.

É muito competitivo?

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Eu sou fanática por desporto porque é o tudo ou nada, no momento. Há pouca margem para erros! Vivo o momento, de alma e coração, e isso é alta competição.

Qual o papel com que mais se identificou? E menos?

Menos não há. E mais… Pelo feedback do público a Lu [‘A Outra’] e a D. Tânia [‘Os Batanetes’].

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Já foi incomodada ou assediada na rua?

Não. Se me apetecer ir despejar o lixo e varrer a rua com a minha empregada, faço-o. Não deixo de fazer nada por ser actriz. Antes de tudo sou a Carla, mãe e dona de casa.

Há actores que preferem outros registos, mas a TV dá visibilidade e mais segurança...

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Segurança? Como? Se trabalho a recibos verdes?! Não sou exclusiva de nenhuma TV. Quanto à visibilidade, claro que dá, mas não ando à procura disso. Não é para ser ‘a protagonista’ que trabalho. Até porque acredito que o verdadeiro protagonista, nem sempre é aquele que o guionista escreve, mas aquele que o público elege.

Não é exclusiva de nenhuma TV porque...

Nunca surgiu nenhum convite. Embora me sinta muito livre assim. Já trabalhei para todas as televisões, e trabalho para quem me trata bem. Mas o facto de não ser exclusiva permitiu-me, por exemplo, ter aquela experiência no Brasil, na TV Globo [‘Negócio da China’].

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Dessa experiência no Brasil o que mais a marcou?

É uma experiência diferente, é outra cultura, outra realidade. A minha família foi comigo – a felicidade faz mais sentido quando partilhada – e tivemos um ano absolutamente fantástico no Rio de Janeiro.

O que difere a nível de trabalho?

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É uma estrutura que tem anos de experiência. As condições de trabalho dos actores e técnicos é completamente diferente. Têm contrato de trabalho, só trabalham 8 horas diárias, os lucros da empresa são partilhados, de 6 em 6 meses, por todos os funcionários, os feriados são pagos a dobrar. Mas tudo isso é possível porque é uma máquina muito bem montada e tem anos. Agora em termos de profissionais, há tão bons aqui como lá.

Alguma vez esteve sem trabalho enquanto actriz?

Não.

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Sente o reconhecimento do público?

É bom saber que o nosso trabalho é visto e que as pessoas gostam de nós. É inegável que andamos aqui todos para amar e ser amados. Mas tenho outras fontes para me alimentar de amor, como a minha família e os meus amigos, por exemplo.

Um actor/actriz precisa desse reconhecimento?

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Claro que gosto do carinho do público. Digamos que se a vida fosse uma refeição, esse carinho é o doce, a cereja no topo do bolo.

Nunca se ‘deslumbrou’ com a fama?

Nunca. Nem sei o que é isso da fama. A única diferença entre a minha profissão e a dos outros, é que a minha é vista por milhões e a do sapateiro apenas por pessoas do bairro.

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Representar era um sonho? Uma paixão? Quando sentiu esse apelo?

Acho que desde que nasci. Lembro-me que com cinco seis anos dizia à minha mãe que queria ser actriz.

Como é que a família reagiu?

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Muito bem. Apoiaram o mais possível.

Tem formação teatral?

Não, a minha formação é como bailarina, estudei no Conservatório, mas tive professores de teatro como o João Mota e a Agueda Sena. E fiz alguns workshops. Em termos de teatro a aprendizagem tem sido a experiência, a contracena, o trabalhar com outros actores.

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Mas sendo bailarina, como enveredou para a representação?

Como bailarina dançava muitas vezes em peças. A primeira peça foi com a Irene Cruz, minha madrinha, e com o Mário Viegas, em ‘O Suicidário’… por incrível que pareça comecei no teatro dito "sério"! E depois a Irene deve ter visto alguma coisa em mim e entrei numa outra peça a dizer umas falinhas. Posteriormente fui convidada pelo Mário Viegas para assistente do programa ‘Palavras Ditas’ onde ele lia poesia. E depois dali fui fazendo outras coisas e foi acontecendo.

E a Psicologia como surgiu?

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Com 16 anos senti que além de actriz, queria ser também psicóloga. São profissões da alma. Ser actriz é colocarmo-nos no lugar do outro. E psicóloga não? Ter a tal empatia para que a relação psicoterapêutica resulte, devolver o que nos foi dito dando estratégias para que quem nos procura possa ter uma vida mais harmoniosa? Não é a mesma coisa? Acho que sim!

Quando as pessoas entram no seu consultório como reagem?

Naturalmente! São pessoas que têm noção de que precisam de ajuda. Por norma vêm recomendados por outros que já fizeram psicoterapia comigo.

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Portugal vive momentos difíceis e diz-se que os casos de depressão se acentuam?

Da minha experiência não. Há mais gente consciente que precisa de ajuda e menos gente com tabus. Ou seja, ir ao psicólogo não é ir ao "médico dos malucos", não é sinal de fraqueza, de loucura… As pessoas querem viver ter uma vida em vez de uma vidinha!

Há uma desvaloriza-se a depressão? Ou sobrevaloriza-se?

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Há uma desvalorização mas da parte dos outros. As pessoas ainda olham para a depressão com algum desprezo.

Há mais mulheres ou homens a procurar o psicólogo?

Pela minha experiência mais mulheres.

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Os homens retraem-se?

Talvez ainda por uma questão cultural, mas isso começa a cair. E a mulher não é porque é mais frágil é porque os homens reservam mais as suas emoções.

Se pudesse dar uma palavra de alento colectiva, o que diria?

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Diria: Ouse ser feliz! Acredite! O futuro é hoje!

Como olha para a actualidade? Há muitos actores sem trabalho…

Acho que a resposta é reinventarmo-nos. Não irmos atrás deste pessimismo. Não desvalorizando as dificuldades monetárias das pessoas verifico é muita crise de valores e aproveitamento da parte de quem contrata ou paga. Mas as crises podem ser grandes momentos de crescimento. Se não queremos ir para baixo, resta-nos vir para cima.

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Mais pessoal: Como é um dia da Carla Andrino?

É muto intenso. Ou gravo 12 horas por dia ou dou consultas às 3ª e sábados. Todos os dias, ao final do dia, estudo para o doutoramento. Mas nunca me esqueço de mim: de ver um filme, de fazer uma bela massagem, de tratar da minha pele... Há sempre tempo para tudo.

E gostava que fosse diferente?

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Não. Só se quisesse e não quero.

Tem de estar sempre ocupada?

Não. O sempre é patológico. É o que me fizer sentido.

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Quem é o seu pilar?

A minha família.

Considera-se uma mulher bonita?

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Tem dias. Acho que o bonito tem muito a ver com a forma como nos sentimos. O espelho não reflecte o rosto, mas a alma. Se me correu bem o dia sinto-me bem. Se me corre menos bem...

E sensual?

Vivo bem com o facto de ser feminina. Se isso se transforma em sensualidade…

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É mais fácil sentir-se sensual do que bonita?

Sim, porque o bonita vem da alma e a sensualidade é mais física.

É feliz?

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A felicidade não é uma coisa estática é dinâmica. Posso dizer que sou uma mulher realizada com muitos momentos de felicidade.

O que a tira do sério?

A falta de profissionalismo, a falta de pontualidade… Tenho dificuldade em lidar com a falta de respeito. Poucas coisas me tiram do sério porque o que realmente me perturba faço tudo para me manter longe.

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O que a encanta?

O sorriso nos olhos dos meus filhos.

Um defeito e uma qualidade?

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Um defeito, que é também uma qualidade, é amar muito. Mas eu não sei viver de outra forma!

A Carla não é a cómica, a palhaça de ‘Malucos’!?...

Não. Sou feliz quando tenho de ser! Não sou um robot ligado à ficha da felicidade, mas sim à das emoções.

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Tem muitos amigos actores?

Poucos. Os meus amigos não são desta área. Eu tenho uma vida (risos)…

A arte e o entretenimento são terapias?

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Podem ser. A mim as duas coisas esvaziam-me e preenchem-me. Dar uma consulta esvazia-me por ter de dar toda a minha atenção, e por outro lado preenche-me quando vejo os resultados do outro, o brilho nos seus olhos.

É feliz?

Posso dizer que sou, uma mulher realizada, com muitos momentos, de felicidade.

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O que a tira do sério?

A falta de profissionalismo e de pontualidade…

Um defeito ou qualidade?

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Amar muito. Mas não sei viver de outra forma!

Entretanto, tem uma filha actriz. Como reagiu?

Bem, mas surpreendeu-me. A Marta assistiu a centenas de espectáculos e ensaios... Mas dizia que não queria seguir nada ligado à representação, tanto que se licenciou em Marketing. Mas um dia foi fazer um casting para o ‘Aqui Não Há Quem Viva’ (SIC) e ficou. O bichinho entranhou-se e quis continuar. E como já percebeu que é por aqui que quer ir, está a tirar mestrado em Teatro. Só me espantou porque ela dizia que não queria. Ela estava tão determinada a não ser actriz. Foi uma surpresa agradável!

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PERFIL

Natural de Moçambique, onde nasceu a 7 de Agosto de 1966, a bailarina de formação e actriz é também psicóloga há 12 anos. Fez mestrado em Psicologia da Educação e está a fazer agora o doutoramento. Carla Andrino tem um vasto currículo, pelo que pediu a uma amiga para lhe criar uma página na Internet. Ali, encontra-se toda a informação actualizada sobre o seu percurso.

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