Mulheres que entram em campo

Jornalistas e comentadoras apresentam a perspectiva feminina do futebol. A maior sensibilidade que dizem ter não compromete o amor e o conhecimento do jogo.

14 de janeiro de 2011 às 00:00
Mulheres que entram em campo Foto: d.r.
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O futebol já não é um universo de homens e nas bancadas dos estádios elas também reclamam um lugar de eleição. O mesmo verifica-se cá fora, nas redacções desportivas, onde surgem cada vez mais mulheres, e nos programas de comentário, que deixaram de ser um exclusivo masculino.

Inês Gonçalves (RTP) e Irene Palma (TVI) são o exemplo da nova geração de jornalistas desportivas, uma lista onde Cláudia Lopes e Cecília Carmo foram dos primeiros nomes a reter. Mas as adeptas Cinha Jardim, Marta Rebelo, Joana Lemos, Rita Moreira, Isabel Trigo de Mira ou Maria Borges Coutinho também não deixam em mãos alheias a paixão pelos seus clubes, o que as levou a experimentar o comentário desportivo.

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A sensibilidade feminina, até há poucos anos quase inxistente neste mundo, é o factor comum que todas destacam à Correio TV. Mesmo quando o trabalho pede racionalidade, como é o caso das jornalistas. "Temos uma visão mais sensível e descomplexada, e não sonhamos, como os homens, estar no lugar dos jogadores de futebol", diz Irene Palma.

A repórter da TVI acredita que ser mulher num mundo de homens até tem mais aspectos positivos do que se poderia pensar. "Podemos fazer perguntas incómodas que um colega não tem tanta coragem para fazer e receber uma resposta mais simpática", admite. E mesmo entre os adeptos a reacção à presença feminina "é a melhor possível".

Para Inês Gonçalves, "a visão um bocadinho menos romântica do futebol acaba por enriquecer o trabalho". A jornalista da RTP estende as vantagens da diferença de género à redacção, onde as poucas mulheres são "tratadas como princesas".

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O desporto não surgiu por acaso no percurso das duas jornalistas. "Foi sempre uma área que me fascinou e já ia aos estádios", conta Irene Palma, que não foi a primeira mulher a fazer esta escolha. "Quando cheguei à redacção, em 1997, já havia algumas, mas temos vindo a conquistar cada vez mais espaço", revela.

Prova disso, afirma, "foi o envio de duas mulheres numa equipa de três jornalistas para fazer a cobertura do Mundial e hoje há cada vez mais estagiárias que demonstram a vontade de ficar no jornalismo desportivo", um reflexo da sociedade em geral, defende.

Neste campo, Inês Gonçalves faz uma leitura diferente. "Não vejo muitas mulheres a fazerem questão de irem para o desporto", que na vida da jornalista surgiu "por acaso e por escolha". "Pratiquei desporto e acompanhava o meu pai e o meu irmão aos jogos". O convite profissional surgiu em 2001, primeiro na NTV e depois na RTP, onde continua.

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"Não tenho memória de não gostar de futebol. Sempre fui conhecida como ‘fanaticazinha’, era a mascote feminina nos grupos de homens". A ex--deputada Marta Rebelo explica assim a paixão pelo desporto que a levou a participar no programa ‘Zona VIP’, da Económico TV, como comentadora.

Ainda que seja "por crença e ideologia" uma apoiante da paridade, a benfiquista aceitou o desafio de defender as cores da Luz no único programa que senta três mulheres para discutir futebol, no Económico TV, com a moderação do jornalista Rui Tovar. Hoje, é Maria Borges Coutinho a adepta do Benfica no programa, um papel que cumpre desde que se lembra "de existir", ou não fosse filha de um histórico presidente do clube, Duarte Borges Coutinho. "Estou a gostar imenso, tenho de estudar mais, porque sempre fui uma adepta mais pela emoção do que pela razão", conta.

A colega de programa Isabel Trigo de Mira não sente as mesmas dificuldades. Sportinguista ferrenha, "já ia ao futebol quando ainda era ao domingo à tarde e as mulheres ficavam no carro à espera a fazer tricôt", recorda. Passou pela direcção do clube e nunca sentiu diferenças no tratamento por ser mulher, só "dos homens que gostariam de ocupar aquele lugar".

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Mas admite que eles e elas não opinam da mesma maneira. "Talvez tenhamos mais sensibilidade para algumas questões, somos mais compreensivas com a arbitragem", exemplifica. Maria Borges Coutinho concorda. "Defendo o Benfica até não poder mais, mas ali é uma conversa agradável e descontraída, sem agressividade".

No entanto, as diferenças ficam por aí, garante Isabel Trigo de Mira. "Pensar que o olhar feminino é diferente é um preconceito, porque as mulheres falam e sabem as regras do futebol tão bem como os homens, algumas até melhor".

ELAS SÃO MAIS ISENTAS

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"Não falta nada à opinião feminina, a abordagem é que é diferente, porque as mulheres têm uma apreciação mais racional na observação do jogo", diz Rui Moreira, que durante vários anos defendeu, enquanto comentador desportivo, as cores do FC do Porto, no programa da RTP N ‘Trio d’Ataque’. O empresário acredita que o Euro’2004 é um dos responsáveis pelo aumento de mulheres nos estádios, "hoje mais confortáveis", e da atenção que Scolari conseguiu atrair para a selecção nacional. "A paixão dos homens tira-nos a isenção", realça o portista, que passou à irmã, Rita Moreira, o papel de adepta/comentadora no programa ‘Zona VIP’. "A minha irmã sabe mais do que eu!", garante.

EXPERIÊNCIA

Cecília Carmo e Cláudia Lopes são dos rostos femininos mais conhecidos na informação desportiva. Apesar de muitos anos de experiência, a pivô da ‘Mais Futebol’, na TVI24, ainda sente algumas reservas da parte dos homens. "Não trato questões de arbitragem porque é um universo de paixão e não de racionalidade porque o argumento mais fácil para rebater é a questão do género".

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