“Na TVI não quiseram, declaradamente, renovar comigo” (COM VÍDEO)

“Muito triste” com o fim da ligação a Queluz, Manuel Cavaco rumou à SIC. “Não é melhor nem pior, é diferente”, diz sobre a estação de Carnaxide, onde vai interpretar um recém-reformado em ‘Rosa Fogo’, a novela que estreia em Setembro<br/><br/>

30 de junho de 2011 às 20:53
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O que podemos esperar desta personagem?

Não posso dizer, porque parto do princípio de que espero tudo e não espero nada. Já me aconteceu ter que virar o sentido que as coisas tinham, um pouco mais à esquerda ou à direita, ou até mesmo estacionar. A novela é o caminho.

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Isso agrada-lhe, ou preferia trabalhar uma personagem sabendo o seu percurso?

É muito mais interessante o inesperado! Nunca quero saber o que se passa na novela, é o que tenho por filosofia e maneira de ser. Só leio o que me diz respeito directamente. Tal como na vida do meu quotidiano, não me interessa rigorosamente nada a vida dos outros, e na novela não me interessa o que se passa nas outras vidas.

Mas esta personagem é alguém que se interessa muito pela vida dos outros...

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Sei que este homem tem um problema, tem uma mota e faz reparações no átrio do prédio. Tem um conflito com uma inquilina. Não sei mais nada, mas é a partir daqui que começa a nascer um personagem. Meto a carne no esqueleto à medida que os textos vão chegando. O esqueleto é o dado biográfico que me entregam e depois sou eu a trabalhar, ir à procura, embora tenha poucas coisas que alimentem a minha imaginação. Não conheço bem este género de gente, vai-me dar mais trabalho, porque tenho que acrescentar mais qualquer coisa, não é como alguns personagens que já fiz. Todos os dias me chegam as novidades daquilo que os autores estão a escrever, já devem ter a ideia deles, agora tenho que dar algum contributo de mim próprio, para alimentar aquelas situações.

Onde vai buscar a carne para alimentar o esqueleto?

Já sou um homem com alguma idade, logo, conheço muita gente. Poucos personagens tive que não pensasse em alguém que conheço de perto. É aí que me alimento, procurando nos exemplos que tenho na minha vida, vou vampirizar qualquer coisa de amigos meus. O Bicas era um amigo meu, um homem desprovido de uma série de coisas.

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E eles reconhecem-se?

Sim, claro.

E não levam a mal?

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Não, antes pelo contrário, ficam todos contentes.

Que personagens gosta de fazer?

Os à margem da vida. Gosto muito pouco do politicamente correcto. Gosto muito dos marginais, não no sentido da maldade, mas no sentido dos que não se enquadram nas balizas, no que está uniformizado, standarizado, gosto é desses.

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Têem-lhe faltado personagens dessas nos últimos tempos?

Acho que faltam sempre, mas essa é a minha opinião. Albarda-se o burro à ordem do dono e quem paga é que diz o que quer.

Passou pela RTP, TVI, agora está na SIC. Há diferenças na forma de fazer ficção?

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Tem que haver. Porque quem alimenta a televisão tem um gosto, e quem é dono da televisão tem que alimentar esse gosto.

E que diferenças encontra?

Na RTP há vontade de subir mais uns patamares. A TVI é mais pragmática, mais preto no branco. Na SIC ainda não tive oportunidade de me aperceber, mas não deve andar muito longe, se calhar está no meio.

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Tem curiosidade de assistir, como mero espectador, às novelas?

Não. Tenho mais coisas que fazer. Só vejo cinema e, muito raramente, um debate político.

Não tem a preocupação de acompanhar o que faz?

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Não, já deixei de criar ilusões. Gosto muito de contar histórias, gosto de trabalhar muito em casa, vou para o estúdio imbuído do espírito da coisa. Se, entre mim, o realizador e os colegas, o trabalho resulta, fico muito contente e não tenho dúvida de que é capaz de agradar. Depois, ver o meu trabalho, não me dá muito jeito.

Há actores que dizem não ser capazes de se observar. É isso?

Não. Não me dá jeito, porque tenho muito que estudar com os textos. Trabalho muito na hora a que a novela passa. Depois do jantar é quando vou para a minha secretária, onde começo a trabalhar para no dia seguinte ir dizer as coisas. Apenas isso.

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Se prefere personagens que não estão fechadas, dá sugestões e contributos ao autor sobre o que prefere?

Já me aconteceu muito isso com o Barqueta, na minha última novela [‘Meu Amor']. Houve um trabalho verdadeiramente notável do autor, em uníssono comigo, construímos um personagem. Também me aconteceu com o Tozé Martinho com o Bicas, com o Moita Flores, numa novela que adorei fazer, ‘Os Filhos do Vento', em que eu envelhecia 40 anos durante a narrativa, e foi um trabalho admirável. E, graças a uma mulher exraordinária que é a Ana Nave, consegui fazer um trabalho muitíssimo bom no ‘Mundo Meu', onde era um homem obcecado com o problema da guerra colonial, com a morte de um filho e da mulher, com cancro, um personagem riquíssimo. É disso que gosto, que os personagens tenham problemas. Porque se não, não são humanos, são bonecos, são tipos e eu não gosto, não quero e não me apetece. Os artistas americanos dizem que os personagens têem que ser maiores do que a própria vida, e acho que isso está correcto. Porque se não forem maiores do que a vida não dão luta, a gente não se entusiasma, não ama, não odeia, e isso é que é fundamental. O maniqueísmo é uma coisa que não existe.

São essas as personagens que o público recorda?

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Porque são os grandes personagens.

Quando o abordam na rua, tratam-no pelo nome de alguma personagem?

Não. Isso já aconteceu, mas já passei a outra fase, agora já sabem o meu nome. Acontece a todos, primeiro somos o nome da personagem, depois o nome da última personagem que fizémos e, a partir de certa altura, já dizem: olha, vai ali o Manuel Cavaco.

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Nem durante as produções?

Não. E isso é muito interessante porque, dizem os antigos, passámos a ser populares, porque nos conhecem pelo nome e não pelo personagem. É outro tipo de respeito. É positivo e grande, que bom que é.

Quantos anos tem de carreira?

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Profissionalmente tenho 52 anos, comecei muito novo. Sem contar com o teatro amador, porque comecei com 4 anos de idade.

O que mudou, na técnica e na forma de tratar os sentimentos?

Não mudaram as mentalidades, que é o mais importante. Mas mudou muita coisa. Se pensar que o seu computador tem mais capacidade do que o que foi à lua com o Neil Armstrong, quase não acredita, mas é rigorosamente verdade. A evolução é uma constante da vida. Se queremos trabalhar, em qualquer situação, temos que nos apetrechar para essa profissão. Na escola abrem-nos a cabeça, tentam mostrar-nos o que é que vamos encontrar no caminho e dão-nos teoria para aprender a aguentá-lo, e depois na prática é que vamos aprender a ser profissionais. É evidente que tudo isso evoluiu, como evoluiu a vida. Ai de nós, então ainda estávamos nas cavernas! A maneira de escrever é melhor, a iluminação é melhor, já quase nem é preciso iluminar por causa do HD. Na minha opinião, evoluiu tudo, menos o contar histórias, porque é um problema de mentalidades. Dói muito dizer isto, mas é verdade.

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No fundo, o que não mudou foi a essência da novela, que é contar uma história.

Exactamente.

Mas com o que ganhamos em técnica perdemos no factor humano?

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Não, espere lá! Ai de quem, para transmitir ao outro seja o que for, só utilize técnica e não utilize emoções, seja no que for! Para a transmissão de qualquer coisa, tem que haver emoção, se não existir, torna-se uma coisa fria, quase mêcanica e isso não vale a pena. Tem que haver o traço de união entre a técnica, o adquirir conhecimentos, e a emoção. Ás vezes, a emoção supera a parte técnica, ás vezes a técnica supera a emoção, mas isso depende de quem comanda a transmissão, o contar a história, o escrever, o iluminar, todos os aspectos de contar uma história para a transmitir. Até nos efeitos especiais tem que haver emoção, porque fazê-lo só pelo efeito especial não vale a pena. Utiliza-se para superar, quase, a emoção da narrativa. Transmitiu-se através da palavra, agora vamos para além disso. Há coisas que são quase tabus na sociedade. Não se procura a simplicidade da vida que, sem cair em lugares comuns, é uma coisa tão normal, tão simples... Ás vezes queremos complicar as coisas e tornamo-las aborrecidas.

O público destrinça a diferença?

Não tenho a menor dúvida! Tenho ouvido coisas acerca de alguns dos meus personagens que fico a olhar para as pessoas sem perceber como é que elas atingiram determinadas coisas. No Barqueta, tinha uma frase, em que dizia: "Isto no tempo do Zé da Beira..." Nunca ninguém explicou quem era o Zé da Beira. E houve uma pessoa, com o ar mais banal do mundo, que me disse: "Zé da Beira? extraordinária maneira de falar do Salazar na televisão." Vieram-me as lágrimas aos olhos. Porque pelo menos atingi um. Se calhar atingi mais, mas pelo menos um! E foi a maneira de falar do Salazar na televisão, porque toda a gente tem medo. A frase "se o Salazar estivesse cá..." parece mal. Mas porquê? as pessoas falam nisso. É o politicamente correcto. Não gosto de ser, não me apetece ser.

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Dos autores com quem trabalhou, qual foi o mais politicamente incorrecto?

Moita Flores. Extraordinário. Extraordinário. A vida tal e qual como ela é, sem lamechice, sem maniqueísmos, porque não há bem nem mal, há as duas coisas, tudo se mistura. As pessoas são tudo, não são boazinhas nem maus. Os maus, às vezes, são muito bons.

Passou pelo teatro, pelo cinema, pela televisão. A novela é o parente pobre da ficção?

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Não devia ser, mas é. Até as novelas brasileiras, que tinham textos absolutamente gloriosos. ‘O Casarão', ‘Dancing Days', que era uma coisa do fait divers, do quotidiano. Mas eram textos fantásticos e histórias maravilhosas. Mas é a vida, e a vida já não dá. Hoje, se a ‘Gabriela' passasse na televisão, ninguém queria ver.

Mas o homem continua a amar, a desejar, a sofrer. Se não mudou nada, porque é que já não queremos ver a vida como ela é?

Se eu soubesse isso, era o rei, era milionário, porque escrevia argumentos fabulosos.

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A escrita de argumentos foi uma opção que ponderou?

Não. E para teatro ainda é mais complicado. É preciso, conciso, objectivo. A novela entretém, é o folhetim, que se vendia de porta a porta aos fascículos, é algo que está enraízado na cultura sul americana, latina. Lembro-me muitíssimo bem, ainda muito criança, de me irem levar mais um folhetim a casa.

Para além da função de entretenimento, a novela tem características pedagógicas?

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Sim, então não! Aqui há uns anos, no Perú, houve um golpe militar e a primeira coisa que os militares decidiram foi que o povo precisava de saber ler e escrever. Chamaram o director de programas da tv do Perú e pediram uma novela em que o ponto central fosse gente a aprender a ler e escrever. Fizeram uma história maravilhosa, em que o desenrolar, o fascínio da trama, eram os miúdos e os velhos que não sabiam ler. Resultado: quando acabou a novela, havia mais não sei quantas pessoas a querer aprender e o analfabetismo tinha baixado. Pode fazer-se tudo, campanhas de prevenção de saúde, tem é que haver vontade.

Na novela, temos sempre que vender a ilusão de que tudo acaba bem?

Não quero fazer teorias sobre isso.

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Mas essa é a ideia que passamos, que o bom vence sempre, o mau é castigado.

Mas isto é a sociedade maniqueísta que vivemos, não há nada a fazer. A velha questão de quem rouba um milhão tem cem anos de perdão, quem rouba um tostão vai cem anos para a prisão, é verdade. A vida é assim. Há um grande livro de argumentos, que é a bíblia. Tem tanta história, é só agarrar e já tem ali um ponto de partida para pensar.

E como se transforma a vida comum numa história que cative?

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Isso é a imaginação. Conforme os gostos das pessoas. Como o cómico. Na  minha leitura não é o riso alarve, para mim só é risível o que é ridículo, mas para a pessoa ao meu lado já não será assim.

Depois de tantos anos na TVI é agora um actor exclusivo da SIC. O que motivou a mudança?

Na TVI não quiseram, declaradamente, renovar o contrato comigo. Disse: ‘Ok, tudo bem'. E havia de facto uma vontade muito grande de trabalhar com as pessoas que saíram da NBP e da Plural, gente muito boa, de quem gostava muito e com quem queria muito de voltar a trabalhar. Estava descansado em casa quando me ligaram da SIC para conversarmos e fizeram o convite.

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Quando?

No Verão passado, em Agosto. Andámos a namorar durante um mês e no final de Setembro assinei o contrato.

Tinha contrato de excluvisdade da TVI?

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Sim, então não?

Deram-lhe algum motivo para não renovar?

Não sei, estavam interessados em outras coisas. O que é verdade é que, depois do Barqueta, em nenhuma estação do mundo me deixariam sair. Em parte nenhuma deixam sair um bom quadro.

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Sentiu-se triste?

Muito triste, tenho que o dizer. Muito triste, porque foi muito tempo, dei muito, até dei um enfarte. Dei uma operação de peito aberto, by passes, mas já passou.

Na altura já tinha saido o Moniz.

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Já, o Moniz jamais me deixaria sair.

Quem sai da TVI diz que falta a sensibilidade de Moniz. Sentiu isso?

Não é por aí. O que se sentiu não foi na TVI, porque nunca trabalhei na TVI, mas sim na NBP, que passou a Plurale senti que um homem chamado António Parente saiu da NBP e da Plural. Isso é que foi importante. O homem sonha e a obra nasce. O homem que sonhou foi o Nicolau Breyner, o homem que fez nascer foi o  António Parente, e o homem que mexeu foi o Moniz. E quem esquecer esta trilogia está a ser ingrato, e não podemos ser ingratos. Não é só o Moniz. É o Nicolau, com a vontade que teve há 20 e tal anos de querer fazer ficção em Portugal, o Parente, que deu força a esse querer, e sem ele não havia nada, porque criou uma estrutura e uma indústria em Portugal, e depois temos o Moniz que deu chama a isso.

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Na mesma altura, o Nicolau também perdeu a exclusividade com a TVI, apesar de manter alguma ligação. Mas assistimos a contratos de exclusividade com novos valores.

Não sei responder. Não quero saber. Neste momento estou na SIC. Quando acabar o meu contrato, se me pedirem para ficar vou pensar, se me pedirem para sair vou para casa, e daqui a bocadinho toca o telefone. Mas não se pode deixar sair, de lado nenhum, os melhores.

Na SIC sente-se acarinhado?

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Não sinto. Mas há outra maneira de acompanhar, dar importância às pessoas, de ser gentil, simpático, de seduzir, é realmente diferente. A SIC não é melhor nem pior, é diferente. Neste caso a SP. No fundo, está a ganhar-se elan, e isso é fundamental. Se for para uma empresa, quer mostrar que podem confiar em si e começa a mostrar atributos, mas isso só se nota passado alguns anos. Acho que a SP está a ganhar qualquer coisa, que já teve a NBP/Plural. E, diga-se o que se disser, a NBP/Plural/TVI vive do passado. E era bom que começassem a viver para o futuro.

Que mimos recebeu na SIC?

Não penso nisso. Mas sei que quem está à frente das coisas tem muito a ver com o que as coisas são. Há quatro ou cinco pessoas à frente da SP que são muito boas e isso, para mim, é muito importante. Do sentido do aconchego, do carinho, da atenção, da ajuda que lhe prestam, da maneira como conversam consigo, como o envolvem. Na NBP/Plural/TVI, isso não existia. Nunca tinha falado com a Gabriela Sobral [directora de produção da SIC, que saíu da TVI], e a primeira vez que falámos, fiquei a pensar: esta mulher existe? Porque me disse coisas muito interessantes, dos dez anos em que ela dominou a situação das novelas na TVI, em que eu pensava, mas como é que ela se lembra? Porque a Gabriela lidava com as pessoas que vêm as novelas da TVI e lhe transmitiam opiniões. Nunca ninguém, em tanto tempo de NBP/Plural, me disse 10% do que ela me disse na hora. Foi muito interessante.

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O desemprego assusta-o?

Não tenho medo nenhum! Tenho tanto que fazer. Não é nada o meu género. Sou de outra linhagem.

Mas esta preocupação é tranversal a todas as idades.

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Mas eu sou de outros tempos, do tempo do sofrimento. Agora sofre-se um bocadinho. Mas para se ser actor tem que se sofrer muito. Aliás, o espírito de sacrifício é sine qua non para se ser actor. Não é esperar, é ir à luta e fazer.

E o que é que o Manuel Cavaco mais sacrificou?

Passei fome, por exemplo. Muita fome. Vinha a pé de Cascais para Lisboa, porque não havia dinheiro para o comboio e se havia para o comboio não havia para o jantar. E muitas outras coisas

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Tinha que idade?

20 anos.

Quando fazia teatro era muito diferente?

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Era, mas os jovens que fazem hoje teatro também fazem grandes sacrifícios. Sai-se da faculdade ou do conservatório e conseguir trabalho, no teatro não falamos de emprego, falamos de trabalho, é complicado, porque não há papéis só para novos, ou só para velhos. Somos muitos, e  há que contemplar todos. E também temos patrões, os directores de companhia, que gostam mais deste que daquele, e têm todo o direito de querem trabalhar só com aqueles que se aproximam da sua definição estética e artística. Há grandes dificuldades, mas há que ter força de vontade, espírito de sacrifício, porque vão-se obter resultados, se as pessoas tiverem valor.

Tem saudades do teatro?

Muitas. Não me fale nisso!

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BI

Manuel Cavaco nasceu em Lisboa em 1944 e pisou o palco, pela primeira vez, aos cinco anos. Depois de uma vasta experiência no teatro, dedica-se principalmente à televisão na década de 90, onde se destacam novelas como ‘Olhos de Água', ‘Os Filhos do Vento' e ‘Meu Amor'.

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