O vilão que desaparece na terra
Simular a morte do vilão José da Maia valeu ao actor Rogério Samora uma manhã agitada em que tudo aconteceu. Foi ‘baleado’, coberto de terra e regado
O José da Maia tem de morrer! Cá se fazem, cá se pagam!". A sentença, ditada por Patrícia Müller, a autora de ‘Rosa Fogo’, na SIC, cumpriu-se em Alenquer. Rogério Samora, no papel do vilão, tinha um dia de gravações longo e duro pela frente.
Rodeado por elementos da produção, o actor enfia um colete armadilhado por baixo da camisola e prepara-se para gravar o rapto de Matilde, interpretada por Matilde Miguel. Quando foge com a menina surgem em cena Gilda (Irene Cruz), Agostinho ( Joaquim Nicolau) e Xavier (Tomás Alves) que, armados, a tentam salvar. Subitamente ouve-se um disparo de espingarda e José da Maia, atingido nas costas, cai ensanguentado.
Num curto intervalo, Rogério Samora pede um "cafezinho", "mesmo frio", e volta a entrar em cena. "Está a gravar. Silêncio! 3, 2,1. Acção." Ao grito do realizador, José da Maia, com Matilde ao colo, sente a terra tremer e, subitamente, começa a ser engolido por um buraco que se abre no solo.
Nova pausa nas gravações. É tempo de preparar Rogério Samora para a sua última aparição no enredo de ‘Rosa Fogo’. Elementos da produção, munidos de uma pá, despejam terra à volta do actor. Depois, com um regador, molham a cabeça e o tronco do protagonista. Em segundos, Rogério Samora está coberto por um manto de lama.
Para simular o tremor de terra que faz desaparecer José da Maia foi montada uma estrutura em madeira que à superfície está escondida por um tapete de relva. À palavra "acção", José da Maia está prestes a arrastar Matilde com ele. Gilda grita desesperada ao perceber que vai perder a neta. No último momento, José da Maia arrepende-se e tenta soltar Matilde para lhe salvar a vida. Mas a menina, percebendo que quem a prende é o seu pai, resiste. Antes de ser engolido pela terra, José da Maia faz um último esforço e solta a filha, empurrando-a para longe de si e salvando-a. "Perdoa-me, Matilde!", diz antes de morrer.
Rogério Samora termina as gravações enrolado numa toalha e com dificuldades em abrir os olhos enlameados. Levado até ao carro da produção, o actor toma um duche e trata dos olhos com a ajuda de um colírio. "Já tive cenas mais duras do que esta. Hoje foi mais um dia técnico. A cena foi muito preparada. O Xavier, coordenador do nosso projecto, é extraordinário e muito criativo. Numa reunião que tivemos ele explicou-me o que ia passar-se", afirma Rogério Samora à Correio TV.
Sobre o inusitado desfecho de José da Maia, o actor "tira o chapéu" a Patrícia Müller e ao grupo de guionistas da SP Televisão, que "conseguiram sempre surpreender o elenco. Quando achávamos que a novela ia tomar um rumo, ela acabava por seguir por outro".
Depois de ter trocado a Casa da Criação, da Plural, pela SIC e a SP Televisão, a autora de ‘Rosa Fogo’ mostra-se entusiasmada com o "desafio fantástico" que está a ser "trabalhar numa nova estação, numa nova produtora e com uma equipa nova". Sobre o final que engendrou para o seu vilão José da Maia, Patrícia Müller explica à Correio TV que "ele tinha mesmo de morrer". "A novela tem um final moral, mas não moralista. E quem tudo quer, tudo perde. O José da Maia é a personificação do mal. Logo, não podia ter um final feliz. Permitir-lhe a fuga? Não, isso seria para um pequeno vilão. O José da Maia não pode ficar impune!".
Patrícia Müller revela que o desejo de escrever um final que pudesse provocar diferentes sentimentos e leituras a levou a forjar um desfecho insólito para a personagem de Rogério Samora. "Todos os conflitos da novela vão ser resolvidos no final, mas nem todos de forma óbvia. Gosto de abrir vários caminhos para a interpretação, que é mais desafiante para o telespectador. Com o José da Maia é isso que acontecerá", explica a autora, dando a entender que apesar do desaparecimento físico da personagem ela poderá reaparecer no enredo, mesmo após a sua morte, surpreendendo assim o público.
Joaquim Nicolau, que interpretou o motorista e amigo da família Mayer, fala dos oito meses de trabalho e da despedida de ‘Rosa Fogo’. "Hoje [último dia de gravações, ao qual a Correio TV assistiu em exclusivo] sinto um misto de vazio e alegria. Vazio porque vou ficar privado da companhia das pessoas com quem trabalhei durante oito meses e porque vou abandonar uma personagem. E ao mesmo tempo alegria porque se finaliza um projecto com a sensação de missão cumprida". Satisfeito com a "personagem equilibrada e positiva" que interpretou na novela da SIC, o actor esclarece: "Acho que se podia ter ido ainda mais longe na aposta no fantástico, porque a ficção serve para extrapolar. E na cena final essa vertente está bem presente." No dia seguinte, o actor começou os ensaios da personagem que vai interpretar na série ‘Depois do Adeus’, na RTP 1, onde fará o papel de Carlos Costa, um operário e sindicalista.
Irene Cruz, que foi Gilda, a matriarca Mayer, em ‘Rosa Fogo’, dona de uma empresa farmacêutica, aproveita o curto intervalo entre duas cenas para tirar os sapatos altos e descansar os pés. "Depois de oito meses de trabalho já estou cheia de saudades das pessoas do elenco e da produção, que foram incansáveis comigo. Levo saudades e alegrias, e o sentimento de dever cumprido. Fiz o melhor que pude e sabia", afirma à Correio TV. Com ‘Rosa Fogo’ a actriz regressou à televisão depois de um afastamento de três anos em que se dedicou ao teatro.
Os últimos episódios de ‘Rosa Fogo’ deverão ser emitidos em Maio. A nova aposta da SIC é ‘Dancin’ Days’ (ver caixa), que conta com Soraia Chaves e Joana Santos nos papéis principais.
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