Pais do Amaral arrecada milhões

Nove anos foi o tempo que Miguel Pais do Amaral precisou para transformar uma empresa falida no negócio mais rentável da televisão portuguesa. Depois de, em 1998, ter adquirido o controlo da TVI, na altura em situação de falência, o empresário cedeu ao grupo espanhol Prisa os últimos 11,63% das participações que tinha na Media Capital, grupo detentor da estação de Queluz.

09 de fevereiro de 2007 às 00:00
Pais do Amaral arrecada milhões Foto: D.R.
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Pais do Amaral, que se tornou campeão de vendas dos media a investimentos espanhóis, e o seu sócio Nicolas Berggruen encaixaram 307,3 milhões de euros com esta operação. Valor que, apesar de não se traduzir totalmente em lucro, é suficiente para mais que duplicar a fortuna de Miguel Pais do Amaral, conde de Alferrarede e um dos cem mais ricos de Portugal.

MIGUEL PAIS DO AMARAL

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Empreendedor por natureza, Miguel Pais do Amaral é também conhecido pelo requinte do vestuário, que apurou quando trabalhou em Wall Street (Nova Iorque), e pela facilidade com que mantém relações profissionais com pessoas de quem não gosta. Ao adquirir os créditos da TVI à Sonae, conseguiu tirar o canal da falência e transformá-lo num projecto rentável e apetecível para investidores estrangeiros. Em 1998, a estação de Queluz de Baixo tinha uma imagem desgastada, funcionários desmotivados e mal pagos e um prejuízo anual estimado em quatro milhões de contos. Nas audiências, as coisas não corriam melhor. O share médio de 13% colocavam-na no terceiro lugar – o último – entre as televisões generalistas.

O objectivo de Miguel Pais do Amaral era, na altura, chegar aos 30% de share em cinco anos. Conseguiu-o muito antes, em Dezembro de 2000, depois de arriscar um milhão de contos (cinco milhões de euros) na aquisição do formato ‘Big Brother’. Mas para isso, Pais do Amaral cedeu e manteve José Eduardo Moniz no cargo de director-geral da estação, apesar de na altura da aquisição à Sonae ter manifestado vontade de rescindir contrato com o homem nomeado por Belmiro de Azevedo. A escolha acabou por se revelar proveitosa e Pais do Amaral reconheceu o mérito desta direcção. “A televisão é um negócio fácil. Tem custos fixos e é só ajustá-los às receitas. Só não é fácil conquistar share. A partir do momento em que se tem share, não é difícil ganhar dinheiro”, afirmou Pais do Amaral à revista ‘Sábado’ em 2006.

'TOQUE DE MATIAS'

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O toque de Midas – mito do rei grego que transformava em ouro tudo onde tocava – deste empresário não tarda a revelar-se. No primeiro trimestre de 2003, a TVI tinha proveitos operacionais superiores a 27 milhões de euros e no segundo trimestre de 2006 esse valor aproximava-se dos 50 milhões de euros. Uma duplicação do lucro que espelha o espírito empreendedor de Pais do Amaral. De acordo com fontes próximas do empresário, uma das fórmulas de sucesso é que, mesmo em fases de crescimento, nunca deixa de investir no engrandecimento dos projectos. Aconteceu assim com a Media Capital e a TVI. E uma das etapas mais importantes do progresso do grupo aconteceu em Novembro de 2002, quando adquiriu participações nas sociedades NBP, Fealmar e Multicena, produtoras de audiovisuais. Em resultado desta operação, a Media Capital passou a controlar, em exclusivo, o grupo NBP, neste momento o activo mais importante da Media Capital, considera a própria Prisa.

ESTRATÉGIA

De acordo com fonte ligada ao processo, “esta estratégia foi a mais relevante neste processo. Tratou-se de cimentar uma ideia que Pais do Amaral sempre defendeu, alterar o paradigma das audiências de conteúdos [telenovelas] brasileiros para portugueses”. Em 15 anos, a NBP – que quadruplicou as horas de produção de ficção em português e nos próximos três anos quer duplicá-la – aposta agora em força no mercado da América Latina, tendo já entrado na rede Bandeirantes, no Brasil. Curiosamente, o mesmo mercado onde a Prisa Internacional também estende os seus interesses. Aliás, foi a competitividade da programação da TVI, a popularidade da informação e a produção própria de telenovelas e séries assegurada pela NBP que permitiram ao canal de Queluz de Baixo consolidar o processo de recuperação da estação e ultrapassar a situação inicial de falência.

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PRESIDÊNCIA

Apesar de ter vendido toda a sua participação na Media Capital, Miguel Pais do Amaral mantém-se na presidência do conselho de administração do grupo até final do mandato, em Março de 2008. Conhecido por desenvolver projectos bastante lucrativos, Pais do Amaral rege-se pelo lema de que “para investir não é preciso ter dinheiro. É necessário ter um projecto e saber por onde ele [dinheiro] passa”. Aliás, o empresário reconhece que o actual negócio com a Prisa foi aquele em que mais lucrou. Alegando não fazer parte da sua educação falar de dinheiro ou revelar valores, mantém silêncio sobre quanto terá lucrado com estas movimentações financeiras. Todavia, sabe-se que quando cedeu 33% da Media Capital à Prisa, em Novembro de 2005, fê-lo por 189,6 milhões de euros. Meses depois, viu entrar mais 45 milhões de euros com a alienação de 24% da sua posição na Prisa Internacional.

Este valor cresceu esta semana com a venda dos últimos 11,6% das participações que detinha em conjunto com Nicolas Berggruen (5,58% de Pais do Amaral e 6,05% do sócio) no grupo por 72,7 milhões de euros. Feitas as contas, nas três fases de venda, Pais do Amaral e Berggruen arrecadaram um total de 307,3 milhões de euros. Fonte próxima do processo garante que com este negócio o empresário fica impossibilitado de investir numa televisão ‘free to air’ nos próximos dois anos. Mas todavia Pais do Amaral mantém o seu interesse nos media, nomeadamente na TV por cabo e na TDT (televisão digital terrestre), área que sempre considerou como “um negócio atraente”.

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CURRÍCULO

Licenciado em Engenharia Mecânica, pelo Instituto Superior Técnico, e com um MBA tirado em Paris, teve o seu primeiro emprego na área financeira na Goldman Sachs, em Wall Street (Nova Iorque), o quarto maior banco de investimentos do Mundo. De regresso a Portugal, investiu em diferentes sectores e estreou-se nos media com um investimento de 12 mil contos por dez por cento de ‘O Independente’. Apesar deste percurso de sucesso, Pais do Amaral também conta com alguns desaires na sua carreira empresarial. O investimento numa empresa de leilões imobiliários revelou-se um fracasso. E a sociedade no Burger King “foi um negócio ruinoso”, como o próprio admitiu. Mesmo sendo um homem rico, Miguel Pais do Amaral confessa que não compra 90% do que gostaria, nunca tem dinheiro para pagar nada e não usa livro de cheques. Diz ele que é o pessoal do seu escritório quem lhe paga as contas.

SAÍDA DA TVI

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Com a saída de Pais do Amaral da Media Capital, a TVI fica refém da vontade dos donos da Prisa – o maior grupo de meios de comunicação e editorial de Espanha, que detém, entre outros, o jornal ‘El País’, a rádio Cadena Ser e a televisão Cuatro. Mas quais serão as consequências deste negócio para o panorama televisivo nacional? De acordo com o economista João César das Neves, a OPA lançada pela Prisa “faz parte de um processo de restruturação dos media que está a acontecer não só na Península Ibérica mas também a nível europeu”. “É apenas mais um passo desse fenómeno. É um negócio normal a nível internacional. Em Portugal é que é novidade”, sustenta.

Mesmo em relação à passagem da TVI para mãos estrangeiras, César das Neves reitera que esta “não deverá ter influência nenhuma nos processos de decisão”. “A finalidade de um grupo como a Prisa é ter presença no mercado, não mais que isso. Não há razões para prever grandes alterações nesse sentido”, afirmou. João Van Zeller, que se demitiu da administração da TVI em 2005 por discordar das negociações entre a Prisa e a Media Capital, mantém a posição que expressou na altura. E acrescenta à Correio TV que esta entrada dos espanhóis pode ter consequências na linha editorial da estação, nomeadamente com a criação do cargo de director de Informação (exigida pelo anteprojecto da nova Lei da Televisão).

“À linha de aproximação política da Prisa, conotada com o PSOE espanhol, convém-lhe, obviamente, manter uma direcção de Informação ajustável aos parâmetros onde se move noutros meios, como por exemplo o jornal ‘El País’. Neste momento [na TVI], não tem meios para o fazer. Sou claramente contra isso porque sempre defendi a TVI como uma estação independente”, afirmou. A opinião é corroborada pelo crítico televisivo Eduardo Cintra Torres: “Tenho a certeza de que [com este negócio] haverá alterações na Informação da TVI. Aliás, já houve tentativas para incluir um director de Informação que obrigasse a separar José Eduardo Moniz da Informação.” Cintra Torres salienta ainda que o controlo de uma estação por estrangeiros, nomeadamente por espanhóis, pode ter repercursões “se o grupo for politicamente empenhado”. “Há orientações políticas na Prisa, que está conotada com o PSOE, e isso pode trazer uma inibição de fazer determinada informação sobre Espanha”, sustenta.

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MOMENTOS DO NEGÓCIO

PAIS DO AMARAL FICA NA PRESIDÊNCIA DA MC ATÉ 2008

– Em Novembro de 2005, Pais do Amaral encaixa 189,6 milhões de euros ao vender 33% da Media Capital à Prisa, que passa a controlar 46,32% do grupo português. A Prisa é proprietária do diário ‘El País’, entre outros títulos. Manuel Polanco assume então o cargo de administrador delegado da Media Capital.

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– Em 2006, o empresário português alienou 24% da divisão internacional da Prisa. O negócio rendeu a Pais do Amaral e ao sócio, Nicolas Berggruen, 45 milhões de euros.

– Pais do Amaral vendeu esta semana 11,6% à Prisa por 72,7 milhões de euros.

IDADE: 52 anos

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FORMAÇÃO: Engenheiro mecânico

PAIXÃO: Carros de competição

LEMA DE VIDA: A virtude vence tudo

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ESTADOS UNIDOS

1981 vai trabalhar para Wall Street, em Nova Iorque

O INDEPENDENTE

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A convite do amigo Luís Nobre Guedes, torna-se accionista do semanário

FUTURO

Quer investir no sector financeiro, imobiliário ou tecnologias de informação. No País e no estrangeiro

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307,3 MILHÕES DE EUROS

Valor que Pais do Amaral e o seu sócio, Nicolas Berggruen, encaixam com o negócio, deixando de ter participação como accionistas da Media Capital.

MOMENTOS GRANDES DA TVI

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CRISE COM MONIZ

Ao assumir a presidência da Media Capital, Pais do Amaral manteve o director-geral da TVI, José Eduardo Moniz, no cargo, apesar de ser público o facto de entre os dois existir um clima de tensão.

'BIG BROTHER'

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1 milhão de contos Foi o investimento no ‘BB’ em 2000, que marcou a entrada da TVI na liderança de audiências

NBP

2002 Aquisição da produtora e aposta nas telenovelas portuguesas

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ACCIONISTAS DA MEDIA CAPITAL

A Prisa passa a controlar o grupo português que detém a TVI, actual líder de audiências.

"ADIVINHAM-SE TEMPOS BONS E MOVIMENTADOS"

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Luís Mergulhão, administrador da Omnicom Media Group, realça as consequências do negócio entre a espanhola Prisa e a portuguesa Media Capital. Mesmo o controlo da TVI, a actual líder de audiências, por estrangeiros é visto como reflexo do interesse que o mercado português desperta actualmente nos grupos europeus.

- Que consequências poderá ter este negócio para o mercado televisivo português, nomeadamente no que se refere ao mercado publicitário?

- As consequências são bastante positivas. Antes de tudo porque com a venda da participação da RTL na Media Capital à Prisa fica clarificada de vez a estrutura de poder dentro daquele grupo. Indefinições sobre quem vai controlar um grande grupo com a Media Capital ou longos atrasos por parte das autoridades nos processos de autorização de OPA como a solicitada pela Prisa nunca são benéficos para qualquer empresa e os mercados onde elas desenvolvem a sua actividade: atrasam-se tomadas de decisão em projectos de desenvolvimento, parcerias e de investimentos, o que não é bom para as marcas e companhias anunciantes. O assunto está assim bem ultrapassado.

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A partir de agora haverá certamente outro ritmo ao nível dos media, nomeadamente em televisão, onde está gerada uma nova dinâmica proporcionada pela forte concorrência que actualmente existe ao nível dos canais de televisão broadcasting (que captam cerca de metade dos investimentos do mercado publicitário) ao terem níveis de audiência muito próximos uns dos outros. Por último, no limiar da entrada da televisão digital terrestre em Portugal, o grupo Media Capital tem agora novas oportunidades e capacidades de investimento para oferta de televisão noutros canais que não apenas o de broadcasting (lembro que a SIC e RTP são os únicos que têm tido a possibilidade de emissão através de diversos canais em cabo, o que não aconteceu até agora à TVI).

- A passagem do controlo da Media Capital para mãos estrangeiras é positiva ou negativa?

- É uma falsa questão, pois, tanto quanto é possível obter-se da informação existente no mercado financeiro, o grupo Media Capital já estava maioritariamente em mãos estrangeiras antes da entrada do grupo Prisa.

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- O que é bom neste movimento é um novo interesse pelos grupos de media em Portugal, bem patente na crescente capitalização bolsista que todos eles tiveram durante o ano 2006. Grupos de media fortes são fulcrais para o desenvolvimento do mercado publicitário, e este só se consegue com elevados investimentos em novos conteúdos e plataformas.

É positivo saber que, com a aquisição da Media Capital, o grupo Prisa consegue passar a ter uma valorização bolsista de cerca de um terço do líder europeu, precisamente aquele onde se integra a RTL. E é positivo saber que o grupo RTL, mesmo com a venda, considera Portugal como “um mercado aliciante” (Elmar Heggen, RTL CFO), onde continua a estar interessado.

Sinal positivo também vem do lado da Impresa, onde é referido que “as empresas de televisão estão com resultados muito positivos e vão querer começar a investir” (José Freire, Impresa Investor Relations).

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Por último, muito do interesse pelo futuro do controlo da Portugal Telecom (que será conhecido muito a breve prazo) tem também a ver com o panorama audiovisual e digital português.

Bons e movimentados tempos se advinham, pela maior oferta, maior concorrência e maior estabilidade, condição ‘sine qua non’ para investimentos de médio e longo prazo.

PERFIL

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Presidente da Tempo OMD, uma agência de meios integrada na rede OMD, é também membro da Associação Para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação.

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