SETE MINUTOS... E LEVEI UM TIRO
Faltava-lhe um cenário de guerra no currículo. Aos 33 anos, Maria João Ruela cumpriu o objectivo. Mas... durou pouco. Minutos depois de entrar no Iraque, a jornalista foi baleada e teve de regressar a Portugal. Agora, depois de deixar o hospital, mantém o espírito positivo que tão bem ‘vende’ no ecrã, como pivô da SIC.
Correio da Manhã – Como é que tem sido a sua recuperação?
Maria João Ruela – Comecei a fazer fisioterapia há duas semanas, com uma fisioterapeuta no Hospital Curry Cabral. Agora continuo aqui em casa. Foi ela que me ajudou a levantar da cama e a andar pela primeira vez e agora tenho ainda a ajuda de uma canadiana.
– Que tratamentos está a fazer?
– Estou a fazer exercícios de reforço porque os músculos, do joelho para baixo, ainda funcionam mal e têm de ser tonificados. Não mexo o pé mas o nervo já está suturado e, em princípio, vai começar a regenerar. Mas convém estimular o pé para acelerar o processo.
– Tenho uma ferida no local por onde entrou a bala, na nádega esquerda, que ainda não está cicatrizada. Não me dói – nem sequer tomo nada para as dores – mas, como é uma zona de apoio, quando estou sentada é desconfortável.
– Tem dificuldades de mobilidade?
– Não, nem por isso. Já consigo andar apesar de saber que não posso fazer muito esforço. Tenho que ter alguns cuidados mas nada que me impeça de fazer a minha vida. Ainda hoje [ontem], estive a manhã toda a arrumar a cozinha e a fazer as coisas normais de casa.
– E quando foi baleada, sentiu dor?
– Não. No momento até disse ao Rui do Ó [repórter de imagem da SIC] e ao Carlos Raleiras [jornalista da TSF]: “Acho que fui atingida”. O que depois me fez perceber que tinha mesmo sido atingida, foi que o meu pé ficou pendente, porque a bala cortou-me o nervo.
– Conseguiu manter o sangue frio?
– Consegui. Nunca tinha passado por uma situação destas e acho que até reagi com muito sangue frio. Durante todo o tempo não fiquei nem com a sensação de desmaio, nem de estar a perder forças, o que me fez acreditar que não era nada de muito grave. Deu-me ânimo para aguentar aquele tempo – não sei se foram horas, se minutos – até chegar ao hospital, lá no Iraque, e depois ser resgatada pelos ingleses. Mantive sempre a calma e o espírito positivo.
– Mas as dores iam aumentando...
– Sim, muito. E estava a perder muito sangue.
– Isso não a assustou?
– Logo que soube que os ingleses me iam buscar ao centro de saúde iraquiano para me levar para um hospital inglês – onde sabia que existiam outros meios – descansei.
- Já tinha estado em guerras?
– Assim como o Iraque, não. Já estive na Bósnia, no Brasil, em favelas – que são sempre perigosas – mas achava que esta era uma das coisas que me faltava na minha carreira jornalística... Estive sete minutos... e levei um tiro...
– E acabou por se tornar na notícia. Qual é a sensação?
– É estranho. Tenho que agradecer a todos. Recebi imensas cartas, de pessoas que não conheço, um desenho lindo dos meninos de uma escola, os funcionários de uma pizzaria onde costumo ir em Lisboa mandaram-me uma pizza para o hospital... [risos] Fiquei muito contente por perceber a preocupação das pessoas. Não é hábito eu ser a notícia, nem eu quero ser. Ser alvejada, as razões e a situação que se gerou (com o Raleiras raptado), isso é que era a notícia.
– Nesses sete minutos (ou antes) antecipou que poderia acontecer algo tão grave?
– Não. Entrámos no Iraque, tirámos logo a matrícula dos carros para não chamar a atenção, e íamos tranquilos. Aquela é uma estrada com muito movimento. O carro perseguia-nos aos tiros e havia pessoas na berma e passavam carros na estrada...
– Voltaria ao Iraque?
– Ao Iraque, agora, claro que não. É muito perigosa a situação actual e não me apetece arriscar a vida novamente. Mas sou jornalista e, se houver controle e garantias, por que não? Mas nem é uma questão que me coloque agora.
– Quando regressa ao trabalho?
– Depende da recuperação. A ferida tem que fechar, para eu ter mais conforto. Talvez fim de Janeiro mas tenho que falar com os médicos primeiro.
– Quando os colegas da SIC foram dar sangue ao Curry Cabral, numa atitude solidária, o que sentiu?
– Tive de levar três transfusões porque, quando cheguei, os níveis de hemoglobina estavam muito baixos. Perdi muito sangue. E achámos simpático da parte da SIC pedir aos colegas para darem sangue. Também porque falta nos bancos dos hospitais. Agradeço aos meus colegas, mas o sangue não era para mim, enquanto Maria João.
– Os médicos prevêem que possa ficar com alguma sequela?
– O nervo que controla o pé esquerdo, os músculos dos gémeos e da tíbia foi cortado e suturado. Neste tipo de recuperação não há uma cartilha, cada caso é um caso. Mas os médicos acreditam que recupere grande parte, mas não podem garantir a 100%. Conseguirei melhorar o movimento do pé. Mas se será possível recuperar a sua mobilidade total é uma incógnita... Mas, mesmo que ficasse como estou agora, já não é assim tão grave. Consigo fazer uma vida mais ou menos normal. Mas conto recuperar mais...
– Trouxe a bala que a atingiu como recordação?
– Não como recordação. Era para fazer uma ressonância magnética mas, como tenho estilhaços da bala dentro do corpo, a bala serviu para perceber que não posso fazer a ressonância senão os estilhaços podem deslocar-se internamente.
– A bala não é então um troféu de guerra?
– Não. Trouxe-a pela curiosidade de a mostrar. Já foi uma grande ajuda.
– O que pediria agora ao Pai Natal?
– Sou muito activa, gosto muito de fazer desporto. Quero voltar a fazer tudo isso o mais rapidamente possível, já que também me ajuda a equilibrar psicologicamente. Esse é o meu objectivo. Mas já tenho o que queria que foi safar-me com vida e, no meio de tudo, até tive sorte. Tenho cinco furos de bala no meu corpo. Ela entrou, saiu, voltou a entrar, a sair... Mas não atingiu nenhum órgão vital. Poderia ter sido mais complicado e com consequências mais graves para o futuro. Em quatro semanas já consegui recuperar o andar e a minha autonomia. Tudo o que vier a mais agradeço.
Maria João Ruela é um rosto bem conhecido dos espectadores. Jornalista da SIC desde o seu arranque, é pivô de informação há cerca de cinco anos. Começou como ‘copy writer’ numa agência de publicidade mas logo passou a colaborar com várias publicações, como o jornal ‘Público’ e o ‘Independente’.
Ainda trabalhou durante um ano na revista ‘Marketing e Publicidade’ mas, em 1992, ‘saltou’ para a nova SIC, como estagiária. E por lá ficou dando o seu contributo a programas como ‘Casos de Polícia’ e ‘Praça Pública’. Do ecrã rumou ao Iraque para ‘completar’ o seu currículo...
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