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A FALAR É QUE A GENTE SE ENTENDE

Falar ‘à alentejano’ ou ‘axim’ é cada vez mais frequente nas novelas portuguesas. Argumentistas e actores acreditam que os sotaques dão mais autenticidade às histórias e mostram a diversidade de um Portugal plural do ponto de vista linguístico. A moda começou há muito no Brasil…

26 de junho de 2004 às 00:00

“Pobre para ser personagem de TV tem de falar baixaria e ter sotaque nordestino.” É assim que Eliza, brasileira de 27 anos empregada num restaurante lisboeta, retrata a caracterização que as telenovelas brasileiras fazem das suas gentes. O falar enrolado de Timóteo (o Jumento de ‘Chocolate com Pimenta’, em exibição na SIC) ou o acento italiano de Ana Paula Arósio (‘Terra Nostra’) são apenas dois exemplos de como a ficção brasileira usa e abusa das especificidades linguísticas do país.

Que o diga Carolina Dieckman, a actriz que integra o elenco de ‘Senhora do Destino’, a próxima novela das oito da Globo e que deverá ser lançada na SIC no Outono. Para interpretar Maria do Carmo, uma sertaneja que chega ao Rio de Janeiro, a actriz foi obrigada “a um trabalho muito rigoroso de aprendizagem”.

“Tive uma excelente professora pernambucana, que foi comigo aos lugares para pesquisa histórica e depois trabalhámos muito em cima do texto. Foi muito minucioso e, por isso, é que resulta tão bem”, afirma à Correio TV.

Por cá, o fenómeno tem raízes e alastra nas telenovelas de produção nacional. Quem vê ‘Baía das Mulheres’ (TVI) repara no sotaque alentejano da criada personificada por Ana Brito e Cunha. E quem seguiu ‘Anjo Selvagem’ (TVI) não esquece como durante dois anos o actor Pedro Giestas viveu com o falar dolente de Zeca. Os mais atentos lembram-se ainda de ‘Xailes Negros’, uma excelente produção da RTP Açores exibida em 1986, que recuperava o sotaque cerrado da Ilha de São Miguel, o que tornou esta série quase imperceptível aos ouvidos dos espectadores do continente.

Longe de afastar os ouvintes, o “sotaque permite um reforço de identidade”, refere o sociólogo Jorge de Sá. “Nós somos o resultado de matrizes culturais diferenciadas e, portanto, o sotaque afirma a união. As pessoas identificam-se mais facilmente com determinada personagem se ela usar o sotaque dessa mesma região, além de nos dar autenticidade”, garante. E isso funciona também na vida real.

Jorge de Sá recorda que “antes da ficção, já os deputados franceses que eram eleitos pela província, apesar de viverem em Paris, cultivavam o sotaque regional. Diz-se, em má-língua, que alguns até iam aprender o sotaque que tinham perdido”, conta. Portanto, “os sotaques são elementos identitários e de autenticidade e numa ficção reforçam, perante a audiência, a credibilidade das personagens”, conclui.

CREDIBILIDADE

Pedro Giestas, de 32 anos, queixa-se que “o sotaque fica de tal maneira enraizado na memória, que muitas pessoas ainda hoje ouvem sotaque”, quando na realidade não o faz.

De facto, assumir a fala de Zeca, em ‘Anjo Selvagem’, foi um papel penoso e marcante: “Pedi ajuda a uma pessoa amiga, alentejana, que me lia as frases, mas o mais difícil era não cair no exagero, ser subtil e ao mesmo tempo credível. O Zeca era uma personagem nascida no Alentejo e estava em Lisboa há algum tempo, por isso convinha suavizar um pouco.”

Curiosamente, para o actor nascido em Vouzela, o mais complicado foi “perder o sotaque alentejano”. “Como sou da Beira, falo um pouquinho ‘axim’, troco os ‘vês’ pelos ‘bês’. Mas, ao fim de dez anos em Lisboa, isso já não se notava, de modo que ficou tudo misturado. Foram dois anos de trabalho muito intenso”, sublinha o actor à nossa reportagem.

COERÊNCIA

“O sotaque é importante mas tem de ser usado para manter a narrativa num espaço e num tempo”, destaca Moita Flores, sociólogo e argumentista. “Se a ficção se passa no Alentejo é muito natural que tenha pronúncias alentejanas. Recordo que quando fiz ‘Raia dos Medos’, a acção decorria no Alentejo e por acaso os protagonistas, o Adriano Luz e o António Capelo, eram do Porto. No caso era precisa uma entoação e não foi difícil porque eles são excelentes actores e souberam trabalhar a voz”, adianta à Correio TV.

Mas nisto de sotaques, há uns melhores do que outros. Moita Flores admite que falar à moda do Norte é mais complicado e, nesse caso, usa actores da região. Foi o que aconteceu em ‘A Ferreirinha’, uma série de época que retrata a história do vinho do Porto, e que se estreia em Setembro na RTP. “Escolhemos um grupo de actores do Norte, como o António Reis e o António Capelo, que sabemos serem homens de talento, em que podemos apostar para nos dar uma entoação, ainda que suave”, diz.

Habituado ao trabalho de investigação linguística, o antigo inspector da Polícia Judiciária refere que em Portugal “há professores de voz que têm essas preocupações etnográficas”. Como autor, procura “sempre códigos de linguagem diferentes”, de que é exemplo ‘O Processo dos Távoras’, uma série histórica em que evitou o linguarejar barroco do século XVIII, mas em que teve o cuidado de usar expressões como “‘raios’ e ‘com a breca’, típicas de então.

“O mérito do meu trabalho é precisamente no recorte das personagens, que têm especificidades muito próprias”, sublinha. “Se o argumentista tem essa preocupação, cabe depois ao intérprete muito do trabalho, e isso só resulta se os actores o agarram bem. Nesse caso, é uma dádiva maior do actor do que do autor.”

DECORAÇÃO

Edite Estrela, uma das mais conceituadas linguistas portuguesas, e recentemente eleita deputada ao Parlamento Europeu, acredita que o “sotaque, nas telenovelas, não tem importância relevante.” “Surge mais como um elemento caracterizador das personagens, de inserir alguma cor local e temporal às histórias.”

Na sua opinião, “a influência das telenovelas no quotidiano tem sido recorrentemente proferida” e recorda a polémica suscitada com a ficção brasileira ‘O Bem Amado’. “Havia uma personagem, o Odorico Paraguaçú (interpretado pelo já falecido Paulo Gracindo), que usava uma linguagem popular muito especial, que recriava as palavras, trocava os sufixos e os prefixos na formação das palavras. Na altura, escrevi que a língua se encarregaria de reter aquilo que lhe fizesse falta e que excluiria o supérfluo. E, realmente, tudo isso foi excluído porque não fazia falta”, salienta Edite Estrela.

Agora quanto ao rigor, “depende dos autores e do conhecimento que eles têm, mas essa ideia de que os modismos vêm para ficar e mudar não é verdade”, diz. “As línguas são organismos vivos e os falantes podem assimilar determinado sotaque ou determinadas fórmulas, mas depois, quando a telenovela que deu azo a que determinados termos entrassem no quotidiano deixa de estar em exibição, isso é tudo rejeitado”, acrescenta.

TRABALHO

Autor e actor, Tozé Martinho tem uma visão própria sobre esta questão dos sotaques. “As novelas são obras naturais e obviamente que a pronúncia é obrigatória. Agora, também é preciso que os actores tenham condições para as fazer. Um sotaque nortenho, algarvio, alentejano ou açoriano não se constrói de um dia para o outro”, acentua. E o ideal, em sua opinião, era que os actores portugueses tivessem as mesmas condições que são dadas aos brasileiros. “Ir para o local e estar lá um mês, para se inteirarem e ganharem acentos que, mesmo que não fossem perfeitos, não caíssem no ridículo e não ofendessem os naturais.”

Tozé Martinho lembra uma situação “grave” quando fez ‘Roseira Brava’. “A princípio tentámos usar o sotaque com alguns actores e o resultado era perigosamente insultuoso para os alentejanos”, adianta. “A genuinidade do acento é algo que me agrada muito, seja do Porto, da Régua ou do Algarve, agora tem é de ser bem feito”, nota. E salienta ainda que tão ou mais importante que o sotaque é a atitude e a linguagem de determinada classe social. “Realizadores, encenadores e actores têm de perceber que aquilo tem uma lógica e que não podem pôr uma personagem popular a falar à Cascais”, conclui.

APRENDIZAGEM

Aos 28 anos, Ana Brito e Cunha está a dar nas vistas graças à Rosa de ‘Baía das Mulheres’, uma criada alentejana com atitude atrevida.

A actriz já tinha construído o sotaque da região no filme ‘Maria vai com as Outras’ e por isso quis fazer diferente: “Desta vez, não uso tanto os gerúndios mas faço as terminações em ‘em’, como ‘eles vão brincarem’. E também contei com a ajuda da escola de actores da NBP e do director de actores, Adriano Luz.”

Ana tem consciência do perigo dos acentos e reconhece que “convém evitar os estereótipos”, mas revela que sonha criar uma escola de sotaques.

“Sempre que vou à televisão apelo para professores de várias regiões de todo o País que estejam interessados em participar numa escola. Isso é muito importante e faz parte do trabalho de actores”, refere. Pela parte que lhe toca, mais difícil do que fazer um sotaque é… livrar-se dele.

Zeca Medeiros, realizador de ‘Xailes Negros’ (RTP, 1986), optou por usar o sotaque da ilha de São Miguel por “uma questão de verdade”. “O trabalho queria-se realista e não com actores a falar à moda do Teatro D. Maria”, mas houve “a preocupação de que a narrativa visual fosse suficientemente expressiva para não se perder o essencial”, explica, admitindo que alguns termos não eram perceptíveis em todo o País.

Músico de formação, entende que o “sotaque também funciona como toadas diferentes”. “E é importante porque uma das riquezas do nosso país é a sua diversidade, visual, mas também auditiva e sonora. Houve uma altura em que os sotaques eram usados para caricaturar, mas usados neste aspecto, da ficção, é saudável.” “Desde que as pessoas se consigam entender umas às outras é bom que mantenham as características da sua terra.”

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