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A lógica do espectáculo

A sentença do caso Casa Pia foi um espectáculo televisivo, onde a informação se cruzou demasiadas vezes com o entretenimento. Não surpreende o rumo que os canais generalistas definiram para a sua programação diária.

10 de setembro de 2010 às 00:00

O dia da leitura da sentença sobre o caso Casa Pia mostrou definitivamente para onde correm as televisões portuguesas. Tudo é visto na lógica do espectáculo. Começou às sete da manhã a histeria, ainda os bons portugueses estavam entre uma torrada e um copo de leite e a acordarem do sono dos justos. Os meios colocados no Campus da Justiça eliminaram por completo qualquer outra notícia de âmbito nacional ou internacional nesse dia. Não é que o tema não seja importante: é. Mas ela mostra a esquizofrenia que afecta hoje os canais generalistas, e como balizam a sua programação: tudo é espectáculo. Ou melhor, como cantaria Liza Minelli, "a vida é um cabaret".

Num caso sério foi a emoção que comandou a emissão e não a seriedade que o momento requeria. Mais importante do que a opinião do colectivo de juízes era a do vulgar popular ou dos advogados, defensores dos direitos dos réus que defendiam. Nem faltou mesmo um advogado, falando muitos decibéis acima do bom senso, a atirar-se à qualidade da justiça, dos juízes e dos jornalistas, como se a única voz da verdade fosse a sua, sem ser confrontado com o que dizia. Houve momentos de bom senso, como o de Luís Filipe Carvalho, o especialista da SIC, ou as palavras lúcidas de Catalina Pestana, nos diferentes canais. Houve bons trabalhos de síntese de jornalistas destacados pela RTP, pela SIC e pela TVI. Mas, no geral, o que se fez foi a extensão do que hoje é a programação normal dos canais generalistas: histórias reais, concursos, telenovelas e reality shows. Tudo apresentado de forma estridente.

É por isso que quando se vê algumas ridículas comemorações de canais portugueses sobre séries que venceram os Emmy e que passam a horas inenarráveis, se sente que a televisão portuguesa está desfocada. Em vez de binóculos para ver o presente e o futuro, comprou um monóculo para só ver o que quer. É por isso que a cobertura da sentença do caso Casa Pia poderia ter sido um grande momento televisivo. E não foi.

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