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A TERAPIA DO HUMOR

De Vasco Santana a Bruno Nogueira, de Ivone Silva a Herman José, de Vítor Mendes a Aldo Lima, de Raul Solnado a Maria Rueff, de Camilo de Oliveira a Nicolau Breyner. O que têm em comum estes homens e mulheres de estilos e épocas diferentes? Num país tido como cinzento, eles dão cor às nossas fraquezas e provam que rir é (mesmo) o melhor remédio…

20 de março de 2004 às 00:00

O que faz rir um país que tem quase meio milhão de desempregados? Por que contamos anedotas de Bin Laden, quando o mundo está a ferro e fogo numa cruzada contra o terrorismo mundial? O que leva os portugueses a contarem piadas sobre alentejanos ou sobre o ‘tuga chico-esperto’ que engana tudo e todos? Camilo de Oliveira, um dos veteranos do humor em Portugal, já na casa dos 70 anos (a idade de Camilo é um segredo bem guardado pelo próprio…), afirma que “o humor é um escape”. “Uma piada bem dita faz sempre rir os portugueses”, assegura ao Correio TV, acrescentando que “o país só está em crise se os portugueses quiserem”. “Temos obrigação de suplantar tudo isto”, afirma.

O optimismo de Camilo de Oliveira contrapõe-se ao pessimismo de Guilherme Leite, que, apesar dos papéis cómicos que habitualmente representa, não se considera um humorista. “Portugal nunca esteve tão mal. Acho que estamos com o pior governo desde o tempo de Afonso Henriques. Com esta história do défice, com as fábricas a fechar, com o desemprego, é difícil ter vontade de rir”, afirma o actor.

No entanto, “há sempre bons motivos para tentar fazer rir, porque o riso é uma terapia”, sublinha, até porque “quando se perde a vontade de rir é porque se perdeu a vontade de viver”.

Para Herman José, por muitos considerado o maior dos humoristas portugueses, “Portugal não tem outro remédio que não seja rir”, porque essa é “a única forma de exorcizar as tristezas” do dia-a-dia. Nicolau Breyner, por seu turno, não tem dúvidas em afirmar que “ao contrário do que se diz, o português não é um povo nada alegre, é mesmo um bocadinho bisonho”. “Mas também não temos grandes razões para rir”, sublinha.

RIR A SÉRIO

Apesar do diagnóstico do estado do País, os portugueses sabem rir de si próprios. Nicolau nota que “o português é inteligente porque sabe rir de si próprio, das suas misérias, das suas fraquezas”. O grande humor, observa, “sempre foi assim”. E apresenta como exemplo “a grande comédia italiana das décadas de 60 e 70, que ria do seu atraso em relação aos outros”.

É por isso que o autor de ‘Eu Show Nico’, ‘Nicolau no País das Maravilhas’ ou ‘Uma Casa em Fanicos’, entre outros sucessos, considera que “o humor é uma das coisas mais sérias que podia existir.” Por alguma razão todas as ditaduras reprimem o humor”, adianta.

Guilherme Leite diz mesmo que “o humor tem de ser mordaz e incomoda mais que um discurso político, porque a rir passam-se mensagens muito sérias”. Já para Herman José, não se pode confundir o trigo do joio. “Depende muito do humor. Por exemplo, o descartável não deve ser levado a sério. Esse é de usar e deitar fora.” Quanto ao mais artístico, nota o comediante, “merece ser emoldurado e figurar na galeria das coisas que contam”.

O ‘verdadeiro artista’, autor de alguns dos momentos mais deliciosos da história da televisão (ver páginas dez e 11 desta revista), afirma, contudo, que o “humor não é universal”, considerando perigosa qualquer generalização.

“O que é divertido para uns pode ser chocante para outros”, afirma Herman José, sintetizando que “cada cabeça tem a sua sentença”. Pelo mesmo diapasão afina Nicolau Breyner, para quem “apesar das anedotas serem muitas vezes adaptadas, o humor não é universal, até porque há especificidades próprias, que variam de país para país”.

Fernando Rocha, o actor que conta a anedotas picantes no programa ‘Levanta-te e Ri’ (SIC), está de acordo. “O humor não é universal. Costumo dizer que o público português é mais exigente que o brasileiro ou o francês. Eu comprei ‘n’ livros em França e pus-me a ler as suas piadas, traduzi-as, e algumas delas não funcionam. Se eu as contasse aqui, era apedrejado”, ironiza.

O PALAVRÃO É UMA ARMA

O nortenho Fernando Rocha é um dos expoentes da nova vaga de humoristas portugueses. O seu sotaque não engana: Fernando é do Porto e assume-o com orgulho. As caretas que faz quando actua e o recurso fácil ao palavrão e à brejeirice são a sua imagem de marca. Assumida, ainda por cima.

“Eu sou do Norte, onde o palavrão é perfeitamente normal. O humor não tem de ser brejeiro, mas a forma de eu fazer o meu humor é brejeira, eu assumo”, confessa, explicando que antes do sucesso mediático do ‘Ri-te, Ri-te’ e do ‘Levanta-te e Ri’, na SIC, já andava nesta vida. “Eu actuava em bares, já contava anedotas brejeiras, já tinha lançado o meu disco, antes da SIC me tornar conhecido do grande público”, revela, sublinhando que o seu registo “é muito definido e é aquele”. Consciente das críticas que a sua forma de actuar provoca, Fernando Rocha explica a sua filosofia de vida: “eu sei que não agrado a toda a gente, mas o que eu não quero é desiludir quem já gosta de mim”.

Camilo de Oliveira, apesar de se conter nas críticas, afirma que o “uso do palavrão está banalizado”. “Cada um faz o humor que lhe apetece, até porque estamos num país democrático e de livre expressão e, pelos vistos, o humor com palavrões está na moda”, afirma ao Correio TV. De qualquer forma, Camilo, acha quem tem havido alguns “exageros”, o que pode levar ao “cansaço do público”. “O problema é que quando não há assunto, há palavrão e as pessoas começam logo a rir”, sublinha.

Recusando falsos moralismos, Guilherme Leite aponta o dedo a esta nova forma de humor. “Eu também uso palavrões no dia-a-dia, não sou moralista e o palavrão não me choca se vier a propósito. O pior é que actualmente, mal pisam o palco, eles dizem logo uma asneira.”

Muito mais crítico é um homem há muito retirado da televisão e de quem o Portugal televisivo nunca mais ouviu falar, Badaró, presença habitual nos serões da RTP até ao início da década de 80. Aos 70 anos, Badaró não poupa críticas ao humor feito hoje em dia em Portugal. Elogiando nomes como António Feio, José Pedro Gomes e a escrita das Produções Fictícias, Badaró resume os outros “que ainda estão em pé” a “meras abstracções pornofónicas”.

“Então o tal Fernando Rocha não é em tudo igual ao Woody Allen? Então qualquer um dos outros que estão em pé (até quando?) não são iguais ao Seinfeld ou ao Billy Cristal?”, questiona.

O cómico brasileiro estende as críticas também aos espectadores portugueses. “Somos como as hienas: comemos o que as hienas comem e ainda nos rimos”, afirma, acrescentando que o que distingue o humor de hoje do que o que era feito há 20 anos “é o mesmo que separa Leonardo da Vinci de um vulgar pintor de paredes: ambos pintam”…

Imune às críticas, Fernando Rocha encolhe os ombros. “Não me incomodam”, garante ao Correio TV. “Sou a favor das críticas, percebo que não gostem do meu humor, desde que me respeitem. Se todos gostassem da mesma cor, o que seria do amarelo?”, questiona, acrescentando que actua em palco “como se estivesse à mesa com amigos de longa data a beber bejecas e a comer sandes de presunto”.

A NOVA GERAÇÃO

Nicolau Breyner diz-se confiante na nova vaga do humor português. “Há algumas coisas óptimas que me fazem rir bastante”, admite, confessando, contudo, que “há outras de uma falta de graça, de humor tão rasteiro e tão óbvio”, que o deprimem.

Herman José sintetiza o estado do humor que se faz em Portugal: “É o espelho do País. Rudimentar, imediato, pobre e esforçado”, remata.

Camilo de Oliveira, que mantém o seu humor “bem vivo há 60 anos e sem recurso ao palavrão”, reconhece “valor” aos rapazes do ‘Levante-te e Ri’. “É uma nova geração com uma linha de humor completamente diferente”, que, às vezes, lhe provocam uma gargalhada.

Apesar dos excessos, Guilherme Leite também reconhece mérito à nova geração, apesar de afirmar que “o melhor deles todos não está na televisão, é o Pedro Tochas”. Leite contesta, no entanto, que Tochas, Bruno Nogueira, Marco Horácio ou Aldo Lima sejam os inventores em Portugal do estilo ‘stand-up comedy’.

“Quem trouxe para o nosso país esse género de humor foi o Solnado, o grande Solnado, quando, de pé no palco, em frente à plateia, fazia rir toda a gente. Ainda hoje me comovo com ele”, admite.

Fernando Rocha está de acordo. “O Solnado é o pai de todos nós, é ainda hoje a nossa grande referência”, afirma, revelando que se tivesse “muita confiança com ele” não hesitaria em “lhe telefonar para lhe pedir conselhos”.

Apesar das diferenças, Rocha acredita que há espaço para todos. “O importante é o prazer que retiramos de cada momento. Quando entro em palco eu quero é divertir-me”, conclui.

O OPTIMISMO DE SOLNADO

Raul Solnado é, ainda hoje, considerado um dos maiores vultos portugueses da arte de fazer rir. Os seus olhos bem abertos, as suas caretas e gaguez desconcertantes são a imagem de marca de uma carreira com 52 anos.

O actor diz ter uma “fé imensa” na nova geração e rejeita qualquer comparação com o seu tempo. “As pessoas só riem do que sabem e os portugueses hoje sabem infinitamente mais do que sabiam quando eu comecei. Hoje existem muito mais referências internacionais, portanto o público é muito mais esclarecido”, sublinha. Por essa razão, Raul Solnado assume ficar “enfurecido” quando “o público vai atrás da brejeirice e da asneira”. “Pobre gente que não consegue rir de nada mais inteligente do que um palavrão”, afirma ao Correio TV. A utilização do palavrão é, porém, uma falsa questão. “Há momentos em que um palavrão pode ser importante. Um pedreiro, quando dá uma martelada no dedo, não diz ‘Uff!’ Aí, o palavrão faz todo o sentido”, exemplifica.

Quanto ao seu recurso sistematizado, o comediante acredita que seja uma muleta passageira. “Muitos deles vão acabar por abolir o palavrão, porque vão perceber que ele é completamente acessório.” Entre os novos talentos que se perfilam, o veterano afirma que “há gente com muito valor”. “Há alguns que vão ter de trabalhar muito mas que podem ir muito longe, se conseguirem criar o seu próprio estilo”, acredita, citando os exemplos de Bruno Nogueira, Aldo Lima e Maria Rueff.

O MANÁ DAS ESTAÇÕES

O humor rende audiências. Esta é a conclusão a que terão chegado os responsáveis da televisão portuguesa. À divisa “SIC, a estação do humor” respondem RTP e TVI com a mesma moeda. Depois do sucesso de ‘Levanta-te e Ri’ na estação de Carnaxide, o seu director de Programas aposta em novas fórmulas: ‘K7 Pirata’, com Nilton, e ‘Maré Alta’, com Fernando Rocha, Jorge Mourato, entre outros.

José Eduardo Moniz já veio, entretanto, anunciar que a TVI deverá arrancar ainda este ano com dois novos projectos na área do humor, para acompanhar ‘O Homem que Mordeu o Cão’, de Nuno Markl e companhia. Na RTP, Luís Aleluia e Guilherme Leite, que têm sido autores de participações humorísticas no ‘Portugal no Coração’ aguardam luz verde da direcção de Programas da estação para arrancar com o projecto ‘aleuia@leite.com’. Não há fome que não dê em fartura.

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