Aos 75 anos, o actor admite gostar mais de fazer do que ver novelas. Lamenta que a televisão persiga mais o lucro do que a cultura e que a ficção imite a vida em vez de a recriar.
Está no teatro com ‘Os Reis da Comédia’, como está a correr?
Muito bem. Tenho uma relação muito próxima do Tivoli. Nos anos 60 e 70, fiz lá quatro espectáculos. A sala enchia às 18h30. E ia lá ao cinema com a minha avó, viúva de um actor, e a minha mãe. É sempre uma emoção o reencontro com o Tivoli.
Uma boa peça de teatro exibida na TV generalista teria público?
Talvez no começo não fosse um sucesso de audiências, mas tudo vai do hábito. É preciso é dar ao público estes formatos. Mas a nossa TV não tem o intuito de serviço público.
Protagonizou ‘A Viagem do Sr. Ulisses’ para a RTP. Gostou deste trabalho?
Muito. A ideia era interessante, a história bem contada. Tenho espreitado um ou outro telefime também na TVI e na SIC. Acho que a TV deveria apostar mais nas séries e nos telefimes do que nas novelas que enchem as grelhas.
Diz que raramente vê televisão…
Mas ouço rádio. Ligo-o quando acordo e estou todo o dia a ouvir. Na televisão não sigo nada. Leio os jornais, ouço rádio, sei o que se passa no País e no Mundo. Para que preciso de ligar a televisão?
Não vê a ficção nacional?
Tenho ideia do que se vai fazendo, mas não vejo.
Não gosta do que se faz?
Não há grande coisa…
É uma lacuna não haver teatro nas grelhas da TV?
Sim. O teatro é muito importante. As telenovelas têm o seu lugar, mas enganam o público. As pessoas vêem uma telenovela como quem espreita os vizinhos do lado. O que elas querem ver é a realidade das personagens que estão ali. A mim não me interessa rigorosamente nada a vida dos outros.
O público tornou-se muito voyeur?
Acho que sim, basta entrar num restaurante e se houver lá uma televisão, está toda a gente a olhar para ela. Mesmo quando está desligada.
Vê cinema?
O cinema foi muito importante. Hoje já não é. Há muitos filmes que se fazem hoje que não me interessam nada. O cinema teve a sua grande fase nos anos 70 e 80.
Que opinião tem do cinema português?
Nunca foi grande coisa! Nunca gostei das comédias dos anos 40, tirando ‘A Canção de Lisboa’ ou o ‘Pai Tirano’. Não gosto do resto, são filmes sem interesse.
Viu esses filmes na TV?
Nunca vi na televisão os filmes portugueses dos anos 40. Só no cinema. A televisão serve para espreitar. Não se consegue acompanhar uma coisa do princípio ao fim pela televisão sem se fazer interrupções.
Que papel deveria ter a televisão?
Poderia ser um óptimo meio de educação dos telespectadores, mas não é, infelizmente! Há um ou outro canal, mas poucas pessoas o vêem.
Qual a sua opinião acerca das novelas que hoje se produzem?
Nunca vi nenhuma!
Nunca viu?
Não, mas espreito só para ver o trabalho de um ou outro colega e como evoluem.
E produções brasileiras?
Não. Não vejo.
As novelas são um produto sem interesse?
São. São um produto muito massificado e sem interesse. Do meu ponto de vista, claro.
Integrou o elenco de ‘Anjo Meu’ (TVI). Não faz mais novela por falta de convites?
Sim. Mas vou fazendo outras coisas. Tenho tido sempre trabalho.
O Rui fez muita novela. Que melhorou na forma de a fazer?
Melhorou imenso do ponto de vista técnico. O saber fazer melhorou imenso. E a interpretação também. Os actores têm hoje mais naturalidade, estão mais próximos da vida real, que é aquilo que eu não gosto.
A novela não deve imitar o real?
Não, a ficção não é a imitação da vida. É a reconstrução do real. Os temas têm de ser os da vida real, mas recriados. As novelas escravizam o telespectador, obrigam-no a acompahar uma história durante oito meses quando ela podia ser contada em hora e meia.
É cansativo fazer novela?
É cansativo estar dez e 12 horas a gravar.
E que diz dos textos que dão corpo às novelas?
Têm melhorado, mas o objectivo é sempre o mesmo: escravizar o telespectador a uma história que se arrasta desnecessariamente. E isso não me diverte nada enquanto telespectador.
É melhor ir ao teatro do que ver novela?
Não faz mal existir novela. O problema é haver tanta. Há novela desde o fim da tarde até à meia-noite. É muita novela! Os canais privados têm por objectivo o lucro. Mesmo a RTP, que tem uns laivos de serviço público, sobretudo a RTP 2, vai um bocadinho atrás.
Se todos os anos recebesse um convite para fazer novela, aceitava?
Isso é diferente. Uma coisa é fazer novela, outra é ver.
Vemos poucos actores da sua faixa etária na nossa ficção. A televisão esquece os mais velhos?
Porque se há-de lembrar? Os operadores acham que a qualidade média e baixa é que tem público.
Os canais preferem os rostos jovens, mesmo inexperientes?
São o embrulho ideal para o bombom…
Quem da sua geração deveria estar a fazer TV neste momento e não está?
Não sei. Conheço muitos actores sem trabalho na TV e no teatro… Uns vão fazendo dobragens e outros vivem com reformas muito pequeninas… Sei que há reformas à volta dos cem euros. Não conheço ninguém com boas reformas.
O Rui acautelou-se? Não se queixa?
Fui professor no Conservatório e sempre descontei. Não me posso queixar.
Como vê os sucessivos cortes das reformas?
Mal. Acho que estamos a ser dominados pela Finança internacional. A culpa não é deste Governo, porque se este caísse vinha outro e faria a mesma coisa. As pessoas que têm poder estão a esquecer valores como a solidariedade e a generosidade.
A cultura precisa de subsídio?
Todas as formas de cultura têm de ser apoiadas. Não gosto da palavra subsídio. Mas os poderes públicos tinham a obrigação de investir na cultura. Sob pena de um povo se estupidificar, porque vai perdendo o contacto com certas formas de arte. Um cidadão civilizado e culto é melhor do que um cidadão que não tem culpa nenhuma de não ser culto, mas que é pior pessoa de certeza absoluta.
O ‘Duarte & Companhia’ (RTP) é uma referência na sua carreira. Que teve de inovador o formato?
O trunfo era a simplicidade. E a série foi feita com alguma inteligência. O Rogério Ceitil foi o grande responsável pelo sucesso. Escreveu o texto, realizou a série, montou, sonorizou… até ia comprar as sandes para comermos à hora de almoço. A série era tão simples, tão acessível e tão adequada ao País. Era a tentativa, um bocadinho falhada, de fazer um policial à portuguesa. O País retratava-se um bocadinho naquilo.
Que recorda mais?
Fiz uma data de novelas. Fui convidado para a ‘Vila Faia’, mas não pude aceitar porque estava ocupado no teatro. Entrei na segunda novela portuguesa, ‘Origens’.
Gosta de fazer novela?
É engraçado. É um desafio manter durante meses e meses uma personagem. E cansativo. Acho que é mais divertido fazer do que ver. Além de que é mais bem pago.
Foi feliz a dar aulas?
Muito. A única coisa que me entristecia era saber que entre todos aqueles alunos, candidatos a actores, haveria muitos que iam ficar sem trabalho. Não havia mercado profissional para os absorver a todos. Não há e cada vez há menos.
Que diferença encontra entre os seus primeiros e últimos alunos?
Quando comecei a dar aulas os jovens não diziam aos pais que estavam a estudar no Conservatório. Mentiam-lhes, diziam que estavam em Agronomia. Vinte anos depois apareciam--me jovens nos exames de admissão que quando lhes perguntava se gostavam de teatro, hesitavam e, a muito custo, lá diziam ‘gosto’. Perguntava-lhes porque estavam então ali e eles respondiam: "A minha mãe quer que eu seja actriz/actor!"
De quem é a culpa?
Das novelas! E das revistas! As pessoas acham que a profissão dá fama, dinheiro e visibilidade. E não estão muito preparadas, acham que ser actor é uma coisa simples. Somos muito abordados por gente que nos pergunta o que devem fazer os filhos para entrar nas novelas porque "têm muito jeito"...
É actor, encenador, há algo importante ainda por fazer?
Gostava muito de ter realizado um filme. Já falo sem esperança de algum dia o vir a fazer. Tinha várias ideias, alguns guiões escritos para começar a realizar. Encenei umas 15 peças de teatro, mas gostava de ter realizado.
Porque desistiu?
Vejo as dificuldades que os realizadores de cinema têm. Alguns até já desapareceram. Estive há dias com o António Macedo, com quem gostei muito de trabalhar, e ele desistiu. Nem concorre aos subsídios. O António Pedro Vasconcelos e o Fonseca e Costa têm tantas dificuldade para fazer um filme...
Qual a melhor recordação que guarda da infância?
Nasci e vivi em Coimbra até aos dez anos. Recordo as chegadas da Volta a Portugal, em frente à minha casa, na avenida Navarro, em frente ao Parque da Cidade.
PERFIL
Filho único de um empregado bancário, nasceu em Coimbra e cresceu em Lisboa. O actor, encenador e ex-professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, durante duas décadas, estreou-se em 1956, no Teatro da Trindade. Foi um dos fundadores do Grupo 4/ Teatro Aberto. Em 1971, recusou um prémio de teatro protestando assim contra a censura e a falta de apoios ao teatro. Interrompeu o curso de Arquitectura para cumprir o serviço militar em Angola, onde foi colega de Manuel Alegre. Tem dois filhos: Bruno, engenheiro informático, e Catarina, produtora teatral.
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