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As televisões só pensam em audiências

Já foi Lola Rocha, a ‘mulher do senhor ministro’, ou Pureza Teixeira da Cunha, a primeira super-tia, mas é com Sôdona Leide que deixou Portugal vermelho de tanto rir. Aos 52 anos, Ana Bola diz-se feliz com a vida. Mas não perde o sentido crítico e aponta o dedo à televisão que temos. Uma entrevista para ser levada… muito a sério!

18 de dezembro de 2004 às 00:00

Em quase 30 anos de profissão já deu vida a várias personagens, mas é a perfeita caricatura de Betty Grafstein que vai marcar a sua carreira. Como explica este fenómeno?

(risos) Não sei, é estranho não é? Este fenómeno deixou-me completamente surpreendida. Não estava nada à espera, mas hoje, cada vez que saio à rua, as pessoas felicitam-me pelo boneco. E o que a mim ainda me parece mais estranho é que o público nunca a tinha visto em televisão, nunca a tinha ouvido abrir a boca e, de repente, é este fenómeno…

E os elogios são consensuais…

Pois, parece que sim. Atenção, isto não é modéstia minha, estou mesma surpreendida.

E o mesmo aconteceu da sua caricatura da Ana Maria Lucas. Aliás, há muita gente a dizer que os dois melhores bonecos do ‘Quintal dos Ranhosos’ são os seus…

Estou a especializar-me em velhas… (risos). Mas o boneco da Ana Maria é muito mais difícil de fazer. Até porque a conheço bem, sou amiga dela. E estive muito tempo a observá-la na ‘Quinta’.

Sim, já. Nós somos amigas e ela divertiu--se muito com o boneco e achou muito fiel.

E com Betty Grafstein?

Não, com ela não falei ainda.

E é curioso ela apareceu publicamente com uma maquilhagem muito menos carregada, depois do seu boneco ter feito o sucesso que fez…

(risos) Pois é. E como toda a gente viu, esta pintura mais suave fica-lhe muito melhor. Espero que o Zé Castelo Branco quando sair da ‘Quinta’ não volte a maquilhar a senhora como um travesti. Ela assim parece muito mais nova…

OS ‘CROMOS’ ZÉ E BETTY

Mas do conhecimento que tem dela, com que ideia ficou?

Ela é uma pessoa muito engraçada e culta. E depois é um cromo que tem um grande sentido de humor. Aliás, só uma pessoa com um grande sentido de humor é que consegue estar casada dez anos com um cromo daqueles…

Acha que ela está a gostar da sua caricatura?

Espero que se divirta, porque acho que ela tem ‘fair-play’ e capacidade de encaixe, embora eu reconheça que, por vezes, as coisas que se dizem não são sejam muito agradáveis…

Tem consciência disso? Apercebe-se que os textos, por vezes, ultrapassam certos limites?

Tenho. É assim: estes textos não são meus, são do Herman. Se há alguma coisa que me choca, eu normalmente digo ao Herman: “OIha, isto aqui faz-me muita confusão. Posso dizer de outra maneira? Posso tirar?”

E quais são as respostas dele?

Na maior parte dos casos, diz: “Não, dizes tal e qual como está aí” (risos). E eu digo, porque ele é que é o autor.

É mais difícil para si quando as ‘vítimas’ são pessoas das suas relações?

É mais complicado, reconheço que sim, mas eu gosto do humor mais pesadão. Mas a maior parte das pessoas tem capacidade de encaixe…

“O CASTELO BRANCO VAI VENCER!”

É curioso que o ‘Quintal dos Ranhosos’ se tornou um fenómeno televisivo, embora corresponda à fase em que o ‘Herman SIC’ tem menos audiências, por causa da ‘Quinta das Celebridades’…

Sim, é verdade, mas eu creio que as pessoas ‘picam’ muito, fazem ‘zapping’ e aproveitam os tempos mortos da TVI para dar uma saltada à SIC e verem o ‘Quintal dos Ranhosos’.

A ‘Quinta’ é imbatível?

Claro que sim, a ‘Quinta das Celebridades’ é imbatível, todos nós sabemos, até porque é um combate desigual: o Herman está no ar todos os domingos há quatro anos, enquanto a ‘Quinta’ está há dois meses. E depois, a TVI teve a sorte de contar com o José Castelo Branco, que é um verdadeiro cromo.

Qual é o segredo do sucesso de Castelo Branco?

Ele é ímpar. É um cromo inimitável, uma espécie de palhaço. Até porque o Castelo Branco faz uma coisa muito difícil de fazer, que é humor involuntário. As pessoas, de repente, conheceram esta criatura, que não se parece com mais ninguém. Provavelmente, é uma das personalidades mais conhecidas do País.

Porque ele é assim. Não é peixe nem carne, não é homem nem mulher, não é rico nem pobre. E tem uma lata descomunal: conseguiu fazer acreditar a maior parte dos portugueses que é de uma classe social que não é, que tem uma vida de lorde em Nova Iorque, quando nem sequer sabe falar bem inglês… enfim. Até sobre a sua sexualidade…

Há imensa gente que acha que ele é uma ‘grande bichona’, mas depois pensa: “bem, mas se ele é casado com o ‘sôdona’ Lady e tem um filho… se calhar, até nem é”… Acho que a TVI teve muita sorte com ele.

Ele vai ser o vencedor da ‘Quinta’?

Só pode. O mais possível. Não estou a ver como pode ele não ser o vencedor. Ele foi aquele programa. Ninguém tem dúvidas que a ‘Quinta’ já teria morrido se o Zé Castelo Branco tivesse saído.

“O HERMAN É GENIAL”

O ‘Quintal dos Ranhosos’ tem rendido muito boas críticas a Herman. Há mesmo quem diga que está de volta o ‘verdadeiro artista’ e que é pena que o Herman não seja sempre assim…

Pois, mas é nestes terrenos, no humor puro, que o Herman é realmente genial. Eu acho que, em determinado momento, ele cansou-se um bocadinho. São muitos anos a escrever textos, a inventar personagens, a vestir a pele de personagens, com a obrigatoriedade de fazer rir…

O ‘Herman SIC’ acaba por ser uma espécie de sofá onde Herman pode repousar um pouco, é isso?

Pois, é um formato que, tendo humor, lhe permite abrandar um pouco. Mas aquele não é o formato indicado para o seu enorme talento.

Ele tem consciência disso?

Tem, eu acho que tem. Nós não falamos sobre isso, mas isso parece-me óbvio. Mas é preciso perceber que é impossível uma pessoa estar sempre em alta e o Herman está há 20 anos a fazer rir. Umas vezes consegue agradar a mais gente, outras vezes a menos, mas isso é inevitável.

A crítica não lhe perdoa…

Sim, e não há semana em que ele não apanhe. Isso só acontece quando há talento e é bom não esquecer que o ‘Herman SIC’ está no ar há quatro anos, todos os domingos e mesmo assim consegue sempre, em média, cerca de 800 mil espectadores.

O ‘Herman SIC’ é um bom colo para si? Ou melhor, não tem saudades de voar sozinha?

Não, não tenho. De outra forma, tenho saudades se conseguir acumular com o Herman. Não me apetece nada deixar de trabalhar com ele. Nós divertimo-nos muito, somos de facto uma família.

“PORTUGAL NA BANCARROTA”

Esta explosão da comédia e do humor em Portugal é uma vontade de rir ou uma necessidade de rir, para exorcizar o fantasma da crise?

São as duas coisas, mas há uma grande necessidade de rir, porque o se passa neste País não dá vontade nenhuma de rir, não é?

Sim, muito preocupada. Chegámos a um ponto inimaginável. O facto deste ser um país pequeno limita muito as coisas, sobretudo nas artes, como o teatro, o cinema, o bailado. Somos um mercado minúsculo e temos um país na bancarrota.

E a actual situação política preocupa-a?

Claro que me preocupa, embora eu não perceba rigorosamente nada de política, nem goste de política. Mas chegámos a uma situação muito complicada, a avaliar pelos números que são conhecidos do desemprego, por exemplo. Há problemas sociais gravíssimos e não me parece que gente se saia do buraco assim com tanta facilidade.

A política é sempre uma óptima fonte de inspiração para quem faz humor em Portugal?

É óptimo, porque a política é sempre uma grande maluqueira. Se fizesse ‘A Mulher do Senhor Ministro’ actualmente, tinha material para um episódio diário.

Tenho muitas saudades, devo confessar. Acho uma pena que não se tenha voltado a fazer aquela série, porque, muito francamente, estes dois últimos anos tinham sido gloriosos. Porque matéria, de facto, não faltou. Mas, enfim, não foi possível.

Porque não a convidaram ou porque não lhe apeteceu?

Porque não me convidaram. Ocorreu-me isso, mas depois não houve seguimento.

Mas ‘A Mulher do Senhor Ministro’ foi exibida na RTP, portanto a sequela teria de ser lá e você está na SIC. Ou não?

Não necessariamente. Isso era um acordo a que eu tinha de chegar com o José Eduardo Moniz, porque ele é o autor da ideia. Mas também ninguém se mostrou interessado no regresso da série. Nem aqui na SIC.

Mas chegou a propor alguma coisa formalmente?

Não, não propus. Falei de algumas coisas, mas não propus. Eles sabem. Toda a gente sabe que eu fiz uma série dessas há não sei quantos anos. Caramba, eu também não tenho de andar a mendigar e a bater às portas das capelinhas…

“NÃO HÁ DINHEIRO, NÃO HÁ PALHAÇOS!”

Acha que uma série como aquelas caberia no tipo de programação actualmente existente em Portugal?

Não sei. Hoje em dia, a programação televisiva tem um único objectivo, que é fazer ‘share’. E dá-me ideia também que as pessoas que estão a mandar nas televisões acham que este tipo de programas que estão no ar é que dão audiências. Eu, por acaso, discordo. Acho que haveria outras coisas que teriam cabimento. Sempre que faço este tipo de propostas, a resposta que ouço é que não há dinheiro.

É a velha frase e dá para tudo: não há dinheiro! Portanto, se não há dinheiro, não há palhaços. Este programa nem sequer era caro, portanto é uma questão de opções. Eu acho estranho, mas enfim, são as regras do jogo.

Mas o humor tem sido, precisamente, uma grande aposta da SIC…

Sim, mas ainda ontem foram exibidas as ‘Manobras de Diversão’ à meia-noite e tal, portanto, também me dá ideia que não é para muita gente ver… É só para quem sabe que aquilo existe àquela hora e que, por acaso, está acordado e passa por lá.

A ‘XAROPADA’ DE NOVELAS

O horário nobre televisivo é hoje quase integralmente preenchido por novelas, no caso das estações privadas. Como analisa esse facto?

Pois, é o que lhe estava a dizer. É tudo muito estranho. Eu acho difícil é como é que há gente que consegue levar com aquela xaropada de novelas a noite inteira… (risos) Enfim, mas ao menos vêem novelas portuguesas, que já não é mau.

Acompanha as novelas portuguesas?

Sim, vejo de vez em quando.

E qual é a opinião que tem?

Muito francamente, penso que elas têm vindo a perder qualidade. Tem-se vindo a desistir de contratar actores e actrizes e têm sido substituídos por miúdos, alguns que farão carreira e outros que não. Valoriza-se muito pouco o facto de um candidato estar ou não no conservatório, de ter ou não experiência, etc. Hoje o facto de ser bonito, ter um bom corpo e poder, por isso, vender bem a novela, é decisivo.

Mas as novelas têm grande sucesso, medido pelas audiências elevadas que registam diariamente…

Sim, mas as pessoas não têm critério. Se lhe puserem ao lado melhores actores, as pessoas também vêem. O que acontece é que as televisões querem é ganhar dinheiro, mais nada. E se puderem ganhar dinheiro com um mínimo de investimento, melhor. É isso que interessa. A qualidade vem em último lugar no grau de prioridades. É o que menos interessa.

Isso é uma visão um bocadinho negra e pessimista da realidade…

Pois é, mas nem pode ser optimista. Eu até gosto de televisão, mas esta é a verdade. O que eu acho é que com o dinheiro que se gasta actualmente podia fazer--se muito melhor televisão. E, sobretudo, com muito mais bom gosto.

“SOU UMA MULHER FELIZ E REALIZADA!

É uma mulher feliz?

Sou, muito. E realizada. Tenho uma vida profissional que sempre quis ter e isso não há dinheiro que pague. Tenho uma vida afectiva estável, duradoura e harmoniosa. Tenho uma neta lindíssima, que é a minha menina dos meus olhos. Tenho mais dois netos por empréstimo, que são netos do Zé (Nabo). E tenho ainda uma coisa fantástica, que é pai e mãe vivos e cheios de saúde.

Está com 52 anos. Atormenta-a a velhice?

Não, não me atormenta, mas chateia-me ficar velhota.

A morte é que me chateia muito. Mas como eu acho que vou morrer já farta de estar viva, tipo aos 94 ou aos 95, acho que vai ser menos difícil. Mas envelhecer não é muito agradável, convivo bem com as rugas. Chateia-me mais a perda de faculdades. Essa ideia, sim, assusta-me um bocadinho.

O que é tem ainda para fazer?

Ai, tudo. Eu se fosse rica não trabalhava. Sabe, eu não gosto muito de trabalhar. Não devia estar a dizer isto, mas pronto, já está. Não gosto muito, não (risos). Tenho os livros todos para ler, tenho os filmes todos para ver, tenho as viagens todas para fazer…

POR QUE NÃO HÁ MULHERESA FAZER STAND-UP COMEDY’?

Como tem assistido ao nascimento desta nova geração de humoristas na área do ‘stand-up comedy’?

Com muita alegria, achando sempre que vai ser tudo muito peneirado e que só vão ficar

os que forem bons. O Bruno Nogueira é muito bom, o Marco Horácio, o Aldo Lima,

o Nilton, o Francisco Menezes… esses todos já existem, são bons e vão ficar. Além do Ricardo Araújo Pereira e do ‘Gato Fedorento’, que eu acho que é o futuro do humor

em Portugal.

E o curioso é que não há mulheres…

É verdade, é uma tristeza. Eles não deixam (risos). Eu tenho uma teoria que eles não deixam as mulheres entrar no grupo. Lá devem achar que é uma coisa de homens, tipo ‘gajas e piadolas’. Eu não acredito, recuso-me a acreditar que não existam três, quatro, cinco, seis raparigas com graça em Portugal. Não acredito. Deve estar lá um ‘gajo’ à porta, tipo porteiro de discoteca, a barrar-lhe o caminho. ‘Aqui menina não entra! Toca a andar! Girou!’

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