Atrás de um cenário escondem-se horas de pesquisa, viagens sem fim e fotografias de perder de vista. Nas telenovelas ‘Cabocla’ e ‘Senhora do Destino’, em exibição na SIC, a cenografia foi pensada com rigor. E executada com muita mestria. Tudo para dar credibilidade às histórias
O sucesso de uma novela não se mede só pela veracidade da história ou pela qualidade do elenco. Os cenários são cada vez mais importantes e o grau de precisão é tanto que, às vezes, a ficção ultrapassa mesmo a realidade.
As duas cidades cenográficas de ‘Cabocla’, num total de 10 mil metros quadrados, têm o cunho do mestre Mário Monteiro, o director de arte da novela, que há 36 anos foi o responsável pela construção da primeira cidade cenográfica da Central Globo de Produção.
Para acentuar o ar rústico, bucólico e colorido da cidadezinha de Vila da Mata, onde as ruas são de terra batida, foram plantados seis mil metros quadrados de relva. É aí, em casa do Coronel Boanerges (Tony Ramos), que Luís Gerónimo (Daniel de Oliveira) vai curar uma tuberculose.
Entendeu Mário Monteiro que toda a cenografia de ‘Cabocla’ deveria reflectir a atmosfera de encantamento que o jovem Luís Gerónimo descobre no ar puro e na singeleza das gentes do interior do Brasil. Daí o ar bucólico não só de Vila da Mata, mas também da pequena cidade de Pau D’Alho, que abriga a estação de comboios e o movimentado hotel do Zé da Estação (Otávio Augusto), o pai de Zuca (Vanessa Giácomo), a garota bonita e tímida por quem o boémio Luís Gerónimo se apaixona perdidamente.
TUDO FICÇÃO!
Mas atenção: nenhuma destas cidades existe, de facto, no Brasil. Tudo ‘nasce’ da imensa fábrica de novelas da Globo, no chamado Projac, os estúdios do Rio de Janeiro onde cada sucesso é construído.
Para fazer a cidade de Pau D’Alho, o director de cenografia inspirou-se em Lençóis, uma região da Baía, onde se desenvolveu um povoado primitivo e meio selvagem, cercado de currais e plantações, parecida com uma cidade do Oeste americano.
Para dar uma ideia de região ainda virgem, a equipa de cenografia teve de disfarçar os arredores da área onde a cidade foi erguida, de modo que as construções modernas ali existentes não fossem captadas pelas câmaras.
Na construção do sítio de Felício (Sebastião Vasconcelos), tão cobiçado pelo Coronel Justino (Mauro Mendonça), os cenógrafos recorreram a materiais típicos da região como o tronco real, taipa, madeira de treliça e o barro. Assim se ergueram a casa de madeira da família de Felício, a casa de banho no quintal, a capoeira, a pocilga e a horta. “Este realismo é importante porque é através disso que a história adquire verdade. A função da cenografia é criar um realismo que torne a história credível”, afirma o mestre cenógrafo Mário Monteiro.
As majestosas fazendas dos coronéis Boanerges e Justino aparecem envelhecidas pela acção do tempo, porque segundo a história de ‘Cabocla’, elas datam do século XVIII, período dominado pela arquitectura neo-clássica e o estilo ‘art-nouveau’.
CONSTRUIR O DESTINO
Na telenovela ‘A Senhora do Destino’, também em exibição na SIC, a equipa de cenografia criou a Vila de São Miguel, a Comunidade da Pedra Lascada, um bairro carenciado, e a casa do novo-rico Giovanni Improtta.
A construção da Vila de São Miguel, um bairro fictício da Baixa Fluminense, ocupa uma área de quase 11 mil metros quadrados e inclui a casa de Maria do Carmo (Suzana Vieira), um centro comercial com 12 lojas e o escritório do político Reginaldo (Eduardo Moscovis), dois prédios comerciais, uma igreja, uma escola, posto de gasolina com loja de conveniência e uma loja de vídeos.
No Bairro da Pedra Lascada, onde moram Rita (Adriana Lessa) e o quezilento Shao Lin (Leonardo Miggiorin), foram construídas as casas destas personagens e ainda estabelecimentos comerciais e o ginásio de Shao Lin, que ocupam uma área de 3.700 metros quadrados.
Sobre a casa de Giovanni Improtta (José Wilker), May Martins, que supervisiona a equipa de cenografia, explica que cada assoalhada foi decorada de maneira diferente. “Ele tem um bar com salão de jogos inglês, um quarto tipicamente francês, outro estilo oriental, outro estilo Miami... Ele acha chiquérrimo seguir temas de decoração.”
A Fazenda Boa Vista do Coronel Boanerges e a Fazenda Resgate do seu adversário político Coronel Justino são bem diferentes e reflectem a personalidade de cada um dos seus proprietários. Na imponente fazenda de Boanerges, os frescos reproduzem cenas rurais e a mansão reflecte um ambiente natural e sem formalismos. Pelo contrário, a fazenda do Coronel Justino é mais formal e sofisticada. O chão é tratado, os móveis brilhantes e as paredes estão cheias de quadros. “Como ele é um vilão, criamos um ambiente distanciado, para não permitir que se consiga chegar a um nível de intimidade com ele. Uma pessoa humilde sente-se ali totalmente intimidada”, explica Mário Monteiro.
“O realismo dos cenários é importante porque é através dele que a história adquire verdade. A função da cenografia é criar um realismo que torne a história credível”, explica Mário Monteiro, que é filho e neto de cenógrafos.
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