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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

“Compor a Emília foi um processo muito criativo”

A actriz tem a noção de que as pessoas parecem divertir-se com a sua personagem em ‘Perfeito Coração’. Diz que nunca fizera uma tia com sotaque e teve de mudar a maneira de falar.<br/>

09 de abril de 2010 às 00:00

Sofia Sá da Bandeira é uma autêntica ‘tia’ de Cascais na novela da SIC. “Foi uma grande transformação”, confessa a actriz, que gostaria de voltar a apresentar.

- A Emília de ‘Perfeito Coração’ tem muita graça. Diverte-se a interpretá-la?

Muito. É sempre interessante descobrir outras formas de vida, sobretudo, uma personagem como esta Emília, que acaba por tocar o absurdo pela superficialidade, pelo vazio, pelo delírio em que vive. Foi um processo muito criativo; tive de mudar tudo, a minha maneira de falar, a minha gestualidade, a minha expressão, tive de imaginar o que seria viver assim, o que teria sido a infância e adolescência daquela mulher, os seus pensamentos, os seus gostos e preocupações. Foi uma grande transformação, e esse é um dos grandes gozos para um actor.

- Já tinha feito antes uma tia com sotaque?

Nunca.

- A Emília é ingénua. Ela vai descobrir a traição do marido ou continuar a viver na ilusão? E vai interessar-se por alguém?

Sobre isso, não posso desvendar nada. Seja como for, aconteça o que acontecer, pelo seu ser, pela forma como é e como está na vida, em ilusão viverá sempre.

- Como têm sido os comentários da família, dos amigos e do público?

As pessoas parecem divertir-se com a personagem, pela sua espontaneidade, pela inacreditável arrogância, por dizer tudo o que pensa, como se não tivesse censura no cérebro. Ela representa o lado medíocre do ser humano, um tipo de gente que sempre existiu e existirá e que vive mergulhada numa espécie de estupidez triunfante.

- Inspirou-se em casais conhecidos para compor a Emília?

Inspiração não me faltou. São pessoas com quem nos cruzamos na rua, pessoas que podemos encontrar quando estamos num café, na fila do supermercado, ou numa memória, algures. Acaba por ser criativo. São pessoas reais, pessoas que parecem viver muito auto-centradas e ao mesmo tempo distanciadas de si próprias e dos outros, que vivem alienadas numa relação pobre, não só consigo mesmas, mas, com a própria vida em sentido lato.

- Acha ‘Perfeito Coração’ um produto diferente? Acha que há uma evolução na ficção em Portugal?

Acho que foi uma novela cuidada aos mais variados níveis. Houve um grande cuidado ao nível do texto, com a construção psicológica e dos conflitos. Houve um enorme cuidado com a direcção artística, a iluminação e a realização. Os próprios planos são diferentes. Toda a gente trabalhou muito, as pessoas estavam empenhadas, envolvidas, existia uma equipa no verdadeiro sentido do termo e isso sente-se no resultado final, claro.

- Esta novela dá um papel de destaque à música. A Sofia é neta de um musicólogo e bisneta de um compositor. Tem queda para a música? Canta na novela?

Cantar na novela? Não! Seria o cúmulo, a Emília a cantar. Se eles se tivessem lembrado!...

- Quando não pode ver os episódios, grava-os?

Nunca gravo nada. Nem tenho gravador.

- Faz muita autocrítica?

No sentido construtivo. Sim.

- Estudou Filosofia. Isso deu-lhe uma base importante para a sua profissão? Gostaria de fazer, ou já fez, personagens filosóficas?

Personagens que pensam, que se interrogam para lá do neurótico? Sim, é sempre mais interessante. E mais raro, claro.

- Cuida muito da imagem? Do que não abdica?

Tenho algum cuidado com o  que me faz sentir bem. Não tem a ver com a imagem, mas, com o sentir-me bem. Gosto de andar a pé, das endorfinas de algum exercício físico, gosto do sono, dos sonhos, gosto de respirar. E entrego os cuidados com o cabelo e a maquilhagem a Samuel Rocher.

- Que novos trabalhos tem previstos?

Um livro de contos. Uma peça. E todo o inesperado.

- Que idade têm os seus filhos actualmente?

São crescidos.

- Vê-lhes talento para representar? Algum já o fez?

Nunca se interessaram por esta área. Seguiram outros caminhos, ligados às artes, também, mas, outros caminhos.

ACTRIZ JÁ PARTICIPOU EM NOVE FILMES: O CINEMA

Sofia Sá da Bandeira fez nove filmes, o primeiro ‘Non, ou a Vã Glória de Mandar’, de Manoel de Oliveira, do qual recorda: “Tive uma curtíssima aparição, penso que ainda estava no Conservatório”. E revela: “Gostava de voltar a fazer cinema. Gosto dos tempos, da linguagem, da potencialidade poética que pode ter um filme”. A actriz gostaria ainda de voltar à apresentação. Interessam-me as pessoas. As motivações, as vivências”.

PERFIL

Sofia de Freitas Branco de Sá da Bandeira tem 45 anos e nasceu em Lisboa a 22 de Junho de 1964. Estudou Filosofia na Universidade Católica e tem o Curso de Formação de Actores da Escola Superior de Teatro e Cinema. O avô é o musicólogo João de Freitas Branco e o bisavô o compositor Luís de Freitas Branco. Tem dois filhos. Foi casada com Nicolau Breyner. Na TV faz ficção desde 1990, como ‘Nico D’Obra’, ‘Polícias’, ‘Médico de Família’, ‘Roseira Brava’ ‘Vila Faia’, ‘Liberdade 21’. Apresentou ‘Jet Set’, ‘Vitaminas’ e ‘Ruas Vivas’.

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