O ano que agora termina marca um novo rumo nos três canais generalistas: a RTP conquistou mais audiências, a SIC lançou o fenómeno ‘Floribella’, mas a TVI manteve a liderança, embora sem registar crescimento.
Antes mesmo de completar meio-século de emissões, a RTP está de parabéns. Em 2006, as audiências da televisão pública subiram e os críticos consultados pela Correio TV elegeram-na como a melhor do ano. Em contrapartida, a SIC perdeu telespectadores mas apresentou o fenómeno ‘Floribella’: a novela juvenil que conseguiu destronar ‘Morangos com Açúcar’ (TVI). No entanto, a rival de Queluz conseguiu manter o seu público, continuando a ser o canal preferido dos portugueses. Em nome da Quatro, Monteiro Coelho, relações públicas da estação, congratulou-se por 2006 ter representado para aquele canal “a consolidação de um projecto que se iniciou há seis anos, quando poucos acreditavam que a TVI se iria tornar, em tão pouco tempo, num verdadeiro ‘case study’ da televisão portuguesa e talvez europeia”.
Já Francisco Penim, director de Programas da SIC, disse à Correio TV que este “foi um ano de muito trabalho e de reconciliação das famílias com a SIC”. Para o director de Programas da estação pública, Nuno Santos, “2006 foi um ano de consolidação para a RTP”. Esta opinião parece ser compartilhada por alguns críticos de televisão, como é o caso de João Gobern, que salienta “a entrada da RTP na rota certa”, “nomeadamente no que diz respeito ao cumprimento do serviço público”. O professor universitário Francisco Rui Cádima elege mesmo Nuno Santos como a figura televisiva do ano, referindo que o director de Programas da RTP “tem tentado melhorar a grelha de programação da RTP 1”. Cádima ressalva, no entanto, que aquele responsável “tem ainda muito trabalho pela frente sob o ponto de vista da diversidade de géneros televisivos no horário nobre – antes e depois do ‘Telejornal’”.
O MELHOR PROGRAMA
No que diz respeito ao melhor programa do ano, os responsáveis pelas respectivas estações elegem o produto da casa: Nuno Santos escolhe ‘Dança Comigo’ e Francisco Penim não tem dúvidas em afirmar que “‘Floribella’ é o maior fenómeno televisivo do ano e de toda a história da SIC”. Monteiro Coelho prefere salientar genericamente o modelo da TVI como “uma televisão feita por portugueses, falada em português de Portugal e retratando a realidade portuguesa”, uma “fórmula” que actualmente “todas as estações parecem querer seguir”, refere aquele responsável. Para os críticos consultados pela Correio TV, os melhores programas do ano passaram na RTP. Francisco Rui Cádima elege o programa do provedor, ‘A Voz do Cidadão’, “dada a sua importância para se ir construindo uma televisão mais próxima das pessoas e das suas expectativas enquanto cidadãos. Já João Gobern, escolhe o ‘Gato Fedorento’ como “o melhor do ano”.
O PIOR PROGRAMA
O pior programa do ano televisivo é assunto que parece merecer algum consenso. Se os responsáveis pelas estações preferem não se pronunciar a este respeito, ambos os críticos contactados pela Correio TV referem em primeiro lugar ‘Fiel ou Infiel’, da TVI. João Gobern vai mais longe e salienta pela negativa mais três programas, todos do canal de Queluz de Baixo, a saber: os ‘reality shows’ ‘Circo das Celebridades’ e ‘Pedro, o Milionário’, para além de ‘Clube Morangos’, que o crítico considera “antipedagógico e antilinguagem”. Convidado a eleger o ‘flop’ do ano em matéria de televisão, Gobern destaca a novela da SIC ‘Jura’, argumentando que esta se apresentou “de forma pretensiosa e arrogante”, mas acabou por não ter audiências significativas. Ainda para aquele jornalista, “o ‘Exclusivo’ foi um desastre total e o ‘Pegar ou Largar’ nunca devia ter existido”. Gobern salienta ainda o formato ‘Entre Famílias’ como “a pior aposta da RTP” em 2006. Já Francisco Rui Cádima, disse à Correio TV: “Mais do que o ‘flop’, a grande tristeza que tenho quando olho para a programação da SIC e da TVI é ver um horário nobre infestado de telenovelas. É um caso grave de falta de diversidade na programação que deveria já ter merecido a condenação pública de quem de direito, mas que, ao fim de quase um ano de actividade do novo regulador, ainda aguarda intervenção da ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social]”. Curiosamente, Nuno Santos também refere a “falta de diversidade” na televisão portuguesa, indo ao ponto de fazer “um balanço negativo do ano” a esse respeito, referindo que o ‘flop’ do ano “não esteve na RTP”.
OS SENHORES DA TELEVISÃO
Mas nem só de programas são feitas as televisões portuguesas. Estas vivem também dos seus apresentadores, jornalistas e actores exclusivos. Curiosamente, Rui Cádima elege como revelação do ano o próprio director de Programas da estação pública, Nuno Santos, a quem deseja que no próximo ano “consiga aproximar claramente a oferta da RTP 1 de um mais autêntico conceito de ‘serviço público de televisão’”. Para o professor universitário, a confirmação de 2006 é o “sempiterno Herman, o nosso ‘Senhor Televisão’, que tem um direito próprio e inalienável a um ‘talk show’ até à reforma (pelo menos até aos 80 anos)”. Cádima salienta que o humorista “precisa de um director de Programas à sua altura, enquanto ‘entertainer’, para se tirar dele o melhor que tem”, figura essa que, no entender do crítico, “provavelmente, não haverá em Portugal”. O jornalista João Gobern não salienta nenhuma figura televisiva como revelação de 2006, mas escolhe duas apresentadoras da RTP como confirmações do ano: são elas as caras do formato ‘Dança Comigo’, Catarina Furtado e Sílvia Alberto.
O PRÓXIMO ANO
No final do ano, para além de analisar aquilo que fica para trás, é inevitável lançar um olhar para o futuro. Nuno Santos acredita que “2007 é um ano de viragem”, mas julga ser “ainda cedo para dizer onde estaremos em Dezembro do próximo ano”. Para Francisco Penim, “teme-se o pior em 2007, pois, se tudo correr como o Governo deseja, a censura vai regressar”. Já a TVI, nas palavras de Monteiro Coelho, “tem todos os motivos para encerrar o ano com optimismo”. Francisco Rui Cádima considera que “não há grande coisa a esperar” das televisões generalistas durante o próximo ano, excepto por parte da RTP, que comemora 50 anos em 2007 e que deverá oferecer “alguns bons programas de televisão à custa da efeméride”. Também João Gobern acredita que “os 50 anos da RTP vão marcar 2007”. O jornalista salienta ainda o regresso da TVI aos ‘reality shows’ e aguarda com expectativa “a ‘Hora H’ de Herman José, na SIC, e com curiosidade o formato ‘Aqui há Talento”, da RTP 1. A ver vamos.
OS MOMENTOS TELEVISIVOS QUE MARCARAM O ANO DE 2006
JANEIRO
- ‘FEBRE DE SÁBADO – 25 ANOS’: Exibido pela RTP 1 no dia 28, o programa apresentado por Júlio Isidro contou com a participação de músicos que marcaram os anos 80. A emissão prolongou-se por três horas e meia.
FEVEREIRO
- ‘DANÇA COMIGO’: Estreou no dia 11, na RTP 1. Apresentado por Catarina Furtado, que, por se encontrar grávida, viria a ceder em Março o lugar a Sílvia Alberto, o primeiro programa do concurso de danças obteve 10,15% de audiência e 29% de ‘share’.
MARÇO
- ‘FLORIBELLA’: A SIC estreou a novela juvenil no dia 31. O objectivo de concorrer com ‘Morangos com Açúcar’ (TVI), exibida na mesma faixa horária e destinada ao mesmo público, foi conquistado.
ABRIL
- MORTE DE FRANCISCO ADAM: No dia 16, o actor da novela da TVI, de 22 anos, morreu num acidente de viação. No dia seguinte, ‘Morangos com Açúcar’ foi o programa mais visto do dia, seguido do ‘Jornal Nacional’.
MAIO
- ‘PRÓS E CONTRAS’: A participação de José Maria Carrilho, Emídio Rangel, Ricardo Costa e Pacheco Pereira tornou a edição de dia 22 a mais vista de sempre: com 6,6% de audiência e 30,0% de ‘share’.
JUNHO
- MUNDIAL 2006: Dia 9, a SIC iniciou a transmissão de 14 jogos, todos em directo, e a maioria depois das 19h00. O jogo Portugal-França foi visto por 3 522 500 espectadores e registou 82,3% de ‘share’.
JULHO
- RENOVAÇÃO DAS LICENÇAS DA SIC E TVI: Dia 17, a Anacom (Autoridade Nacional das Comunicações) anunciou a renovação das licenças das estações privadas em sistema analógico por mais 15 anos, desde que essas frequências lhe sejam devolvidas na data de substituição deste sistema pelo digital (TDT).
AGOSTO
- CENSURA: Dia 20, o crítico Eduardo Cintra Torres afirmou ter informações de que “o gabinete do primeiro-ministro deu instruções directas à RTP para se fazer censura à cobertura dos incêndios”. A ERC anunciou dia 24 que iria realizar um processo de averiguações dos factos.
SETEMBRO
- ‘A VOZ DO CIDADÃO’: Estreou no dia 16 na RTP 1. Apresentado pelo provedor do telespectador Paquete de Oliveira, o primeiro programa registou 9,2% de audiência média e 29,1% de ‘share’.
OUTUBRO
- ‘CANTA POR MIM’: Dia 8 (domingo), a TVI estreou o concurso que põe gente conhecida a cantar por solidariedade. O programa foi o mais visto do dia, tendo registado 13,9% de audiência e 42,3% de ‘share’.
NOVEMBRO
- NOVA LEI DA TELEVISÃO: Dia 16, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta de lei para reformular a Lei da Televisão e outra para reestruturar a concessionária de serviço público de rádio e de tv. O processo foi liderado pelo ministro Santos Silva.
DEZEMBRO
- FIM DO ‘HERMAN SIC’: A 17 foi exibido o último episódio do ‘talk show’ ‘Herman SIC’, na forma ‘Herman SIC Circo’. Nesse dia, o programa foi o mais visto na sua faixa horária com 11,4% de audiência e 35,5% de ‘share’.
O primeiro-ministro, José Sócrates, foi a figura mais mencionada nos noticiários regulares em 2006, tendo ficado à frente em 16 das 51 semanas já analisadas. No total, foi referido em 799 notícias.
NOTICIÁRIOS MAIS VISTOS
Os noticiários ganharam relevância neste ano. Em 51 semanas, os noticiários de horário nobre atingiram 25 vezes o topo da lista dos programas mais vistos. Este montante representa um aumento de 32% em relação à totalidade das 52 semanas de 2005. O ‘Jornal Nacional’, da TVI, registou a maior audiência em 2006 (11%), mas apenas por duas vezes conquistou o primeiro lugar na lista de audiências. O ‘Telejornal’ (RTP 1) registou uma audiência média de 10,6%, mas por 19 vezes foi o programa mais visto do dia. O ‘Jornal da Noite’ (SIC) teve 10,3% de audiência e ficou à frente em quatro dias.
TVI LIDERA AUDIÊNCIAS. SIC EM SEGUNDO, SEGUIDA DE PERTO PELA RTP1
A TVI continua a ser a televisão preferida dos portugueses, no entanto em 2006 não mostrou tendência de crescimento, tendo registado valores médios semelhantes aos alcançados em 2005. Em 2006, a SIC manteve o segundo lugar mas perdeu espectadores a favor da RTP1, que registou um crescimento (tal como a 2:). No horário nobre (das 20h00 às 24h00), também liderou a TVI com um share de 34,8% (uma subida em relação aos 34,1% registados em 2005). A SIC obteve 26,7% de share (contra 27,2% de 2005), a RTP1 manteve a média de 22,3% de share. E a 2:, com 4,9%, registou uma ligeira subida de duas décimas.
"QUERO MAIS PROGRAMAS DE TELEVISÃO E CINEMA"
LUCIANA ABREU ADMITE QUE GRAÇAS A 'FLORIBELLA' TUDO MUDOU NA SUA VIDA. AINDA ASSIM, PARA 2007 SÓ PEDE MAIS TRABALHO.
- Que deseja para o ano de 2007?
- Trabalho. Ainda mais trabalho.
- Isso vai acontecer já na passagem do ano. Está preparada para ser o rosto da SIC numa das noites mais importantes do ano?
- Nem quero pensar na responsabilidade. Prefiro pensar apenas que tenho de dar o meu melhor e fazer apenas o meu trabalho. E vai ser divertido, pois vou estar com a banda. Pois, para além de sermos colegas de trabalho, também somos amigos. Isso é fantástico. Dá-nos muito ânimo e alegria.
- Quer ainda mais trabalho. Não teme ficar esgotada?
- Não. Tenho cuidado comigo. Tento alimentar-me em condições e dormir o máximo possível. Trabalho 12 horas por dia e quase não folgo, mas tenho aquelas seis horinhas de sono das quais não posso abdicar. E como já estou mentalizada para isso, já não me custa tanto. Agora quero mais trabalho. Quero programas de televisão, quero cinema, quero mais novelas, quero séries, quero tudo.
- Agrada-lhe a ideia de vir a fazer cinema?
- Imenso, muito mesmo. Sei que se calhar estou a pedir de mais, mas são sonhos que eu tenho e dos quais não vou desistir nunca. Com muito trabalho, acho que consigo chegar lá.
- E onde fica aquela parte de viver a juventude, agora que tem 21 anos?
- Fica guardadinha para quando for velhinha. Temos de ser uns velhinhos jovens.
- Mas não sente falta de sair?
- Sim, sinto falta de ir jantar descansada, de ir ao cinema, onde já não vou há meses, ir a um barzinho ouvir música, ir a um karaoke... Mas a compensação é tanta que não posso lamentar. Estou a ter aquilo que mais queria.
- Para além do sucesso das audiências, é muito acarinhada pelo público. Recebe muitas cartas?
- Sim, recebo imensas. E ajudo sempre quem posso, não consigo é ajudar toda a gente. São muitas cartas.
- Ajuda em que aspecto?
- Ajudo monetariamente, mas por vezes também dou uma ajuda psicológica. Eu não sou ninguém, mas quando as pessoas me pedem uma palavra e dizem que essa palavra pode ajudar, porque não? Não nos custa nada. Só é preciso ter tempo para isso. Quem me ajuda muito nisso é a minha mãe.
- Quantas cartas recebe em média por semana?
- São muitas. A minha arrecadação está quase cheia de cartas. Nem consigo dar resposta a todas. Às vezes juntamos tudo e já nem sabemos quais chegaram primeiro.
MAIS NOVELA EM 2007
Descoberta no ‘casting’ para o concurso ‘Ídolos’, Luciana Abreu foi o coelho que a SIC tirou da cartola no ano 2006. Dotada de voz portentosa e de uma imagem de doce inocência, a actriz foi escolhida para protagonista de ‘Floribella’. O sucesso da novela juvenil foi tal que ofuscou os ‘Morangos’ da TVI e criou uma verdadeira moda, que ultrapassou o universo televisivo. Da moda aos CD, ‘Floribella’ é um dos negócios mais rentáveis da SIC e a estação de Carnaxide já prepara uma nova temporada de ‘Floribella’ para 2007, na qual vai integrar alguns dos actores da estação, como Jorge Corrula.
MÉDIA DE 2006
Audiência: 11,3%
‘Share’: 29,2%
N.º de espectadores: 1 067 400
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