Apesar dos tempos difíceis, a directora-geral da Mandala não abranda o ritmo e produz, pela primeira vez, uma série de ficção, ao mesmo tempo que prepara outros dois projectos para a RTP.<br/>
- A Mandala vai fazer a sua estreia na ficção com a série de humor ‘Sagrada Família’, para a RTP 1. Como está a correr o projecto?
Está a correr muito bem. Estamos a gravar os primeiros 13 episódios e sinto-me muito contente com o resultado. No fundo, tentámos marcar a diferença com a participação de figuras da sociedade civil dentro da ficção. Tivemos o Joe Berardo e o Fernando Póvoas. A ideia correu tão bem que decidimos repetir.
- Porquê esta aposta na ficção, sobretudo agora?
A produção é a última etapa para uma produtora. A Mandala tem 21 anos, já fez de tudo. Esta aposta na ficção é, simplesmente, resultado de um caminho que temos vindo a percorrer. Provavelmente, o caminho mais importante que podemos fazer, sem tirar qualquer espécie de brio a todos os outros projectos. A verdade é que era uma etapa à qual queríamos chegar e a RTP deu-nos essa oportunidade.
- Um projecto destes acarreta um investimento maior?
Muito maior. E então numa altura como esta... Mas temos de acreditar que, apesar de tudo o que está a acontecer, caminha-se para melhor. Temos que acreditar que o futuro vai ser melhor. E eu acredito nisso. Acho que temos que arriscar e ir para a frente.
- Mantém-se fiel à RTP...
Há muitos anos que trabalhamos juntos, mas não há qualquer acordo de exclusividade. Acontece que, com a crise, as outras televisões começaram a fechar-se e a produzir cada vez mais internamente. E a tendência é para assim continuar, de forma a rentabilizar os custos. A RTP é a única estação que permite um leque maior de produção independente.
- Como analisa o mercado actual?
Dos três principais canais, apenas a RTP dá oportunidade à produção externa, mas em condições cada vez mais exigentes e difíceis, porque os preços tendem a baixar cada vez mais. Por isso é fundamental a Mandala manter o seu trabalho em publicidade, para aguentar a empresa e permitir certos projectos televisivos. Por exemplo, há projectos que fazemos para a RTP, todos os anos, que têm resultados negativos. Fazemo-lo porque é um parceiro importante e com o qual gostamos de trabalhar. No fundo, hoje em dia, trabalha-se para manter a empresa. E isso já é fantástico.
- Isso só acontece agora?
Não é só de agora, mas a situação tem vindo a piorar. No início, quando criei a Mandala fi-lo para ganhar algum dinheiro. Agora se der para manter a empresa é fantástico. Felizmente que todas as pessoas que trabalham connosco adoram o que fazem.
- Mas, apesar da crise, vêm aí mais projectos...
Estamos a preparar mais uma série de ‘Salvador’ e uma série de programas sobre chefs (ver caixa).
- Que balanço faz destes 21 anos da Mandala?
Estamos muito contentes por aguentar tanto tempo, sobretudo neste mercado, que é muito difícil. Acho que tive muita sorte com um produto chamado ‘Contra Informação’. Foi quase como um ‘tapete’ que nos tem permitido experimentar outras coisas.
- Houve momentos difíceis?
Sim, mas nunca desisti. Às vezes sinto que tenho uma estrelinha que me protege, porque acontecem coisas que me vão permitindo continuar.
- Tem de haver um segredo...
A persistência, a vontade de continuar, o grande amor pela televisão, a vontade de querer fazer sempre melhor e, sobretudo, a equipa que nos rodeia.
- E manter ideias originais.
Quis fazer da Mandala uma produtora genuinamente portuguesa, com ideias originais. Acredito que hoje em dia seja difícil apostar em ideias originais, quando existem tantos formatos que já foram testados lá fora, mas não somos menos que os outros e temos a mesma capacidade. Devia haver um maior apoio à criação de formatos portugueses e à sua representação lá fora.
- O ‘Contra Informação’ continua a ser a imagem de marca da produtora?
É um tipo de humor que tem uma grande qualidade e um enorme respeito pelas pessoas, nunca passamos os limites.
- Este ano, a Mandala esteve no festival de conteúdos audiovisuais MIP TV, numa parceria com a BeActive. Qual foi o resultado?
Neste momento temos três países interessados no ‘Contra-Informação’ e três países interessados no ‘Salvador’. Isto só com uma presença em Cannes.
- O ‘Contra-Informação’ continua a ser a imagem de marca da produtora?
É um tipo de humor que tem uma grande qualidade e um enorme respeito pelas pessoas, nunca passamos os limites.
- No início, como é que as pessoas reagiram aos bonecos?
Nunca tivemos muitas queixas, apenas algumas reacções menos favoráveis. Nunca estive receosa e acabei por desenvolver uma posição de diplomata na empresa, pois tinha de lidar com algumas queixas. E resultou, pois nunca tivemos qualquer processo em tribunal. Além disso, acho que o ‘Contra’ aproximou as pessoas da política.
- Daí incidentes como o que sucedeu durante o lançamento da nova estratégia para a energia, em que José Sócrates foi apresentado como José Trocas-te...
O Paulo Gomes faz a voz do José Alberto Carvalho no ‘Contra’ e estava especialmente abalado nesse dia pois tinha perdido a mãe. Saiu do velório para ir para o encontro, onde fazia a voz off, e disse aquilo que dizia quase todos os dias. Mas acho que ninguém levou a mal.
- Para quando uma novela da Mandala?
Não sei. Temos estado a trabalhar mais com a RTP e, neste momento, o serviço público aposta mais em séries. Acho que é uma medida de segurança: mediante o sucesso da produção esta avança ou não.
- Antes de fundar a Mandala foi fotógrafa, assistente de realização, operadora de câmara. Como é viver sempre num mundo de homens?
Já estou habituada a ser a única mulher num universo de homens. Nunca me senti prejudicada por isso, mas já tive que lidar com situações complicadas. Nestes últimos 21 anos muita coisa mudou, mas continuamos a ser uma sociedade muito machista. Nesse aspecto não evoluimos muito.
PARA A RTP 1: CULINÁRIA
Para a nova grelha da RTP 1 a Mandala prepara o formato ‘Os Dez Melhores Chefs de Portugal’, com Vítor Sobral, José Avillez, Luís Baena e Fausto Airoldi, entre outros. Cada programa conta a história de um destes profissionais através da cozinha. “O objectivo é realçar os produtos portugueses, e todos eles são unânimes em escolher o peixe como o melhor produto nacional”, diz Mafalda Mendes de Almeida. Também para a estação pública, a produtora prepara mais uma série de ‘Salvador’. Desta vez, o herói enfrenta obstáculos do dia-a-dia. “Gosto muito desta segunda série, pois ele vai estar mais interveniente”, adianta a responsável.
PERFIL: A IMAGEM
Mafalda Mendes de Almeida nasceu a 17 de Julho de 1954, em Lisboa. Apaixonada pela imagem desde pequena, foi fotógrafa, assistente de realização – estagiou na TV Globo ao lado de Jô Soares e Jayme Monjardim – e operadora de câmara antes de fundar a Mandala, em 1989. “Nunca me senti prejudicada por ser mulher”, revela a directora-geral da produtora.
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