<p align="justify" class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt"><span lang="ES-TRAD">A Carminho de ‘Dancin' Days' (SIC) acredita que o formato telenovela se vai esgotar e fala das vantagens e desvantagens dos contratos de exclusividade em televisão.</span><font size="2" color="#ffffff"><font size="2" color="#ffffff"></font></font>
Como explica o sucesso de ‘Dancin' Days', novela líder de audiências?
É um conjunto de fatores: tem um elenco fantástico, a SIC tem vindo a melhorar e as coproduções com a Globo têm ajudado a criar mais dinamismo e naturalidade. Devemos aprender com os melhores...
Sente o dedo da Globo?
Sim. Principalmente na forma como a escrita tem sido acompanhada. Ainda nos falta subir alguns degraus para apanhar as novelas brasileiras mas temos vindo a melhorar muito. Faço ficção há mais de dez anos e consigo sentir uma evolução enorme. Mas é preciso melhorar. Tem de se apostar mais nos bons argumentos e existe um erro, que é estar-se sempre a esticar a novela. Isso faz perder qualidade em algumas cenas...
Fica-se a enrolar...
Exato. Enrola-se só para encher os episódios dessa semana. Tem de se começar a apostar em novos formatos, tipo série. Apesar de esta novela estar a ter grande sucesso, é um modelo que começa a ser um bocadinho ultrapassado. As pessoas começam a olhar para a TV de maneira diferente.
Tem tendência a acabar?
Acho que sim... a novela é um modelo que, mais cedo ou mais tarde, vai acabar por ser ultrapassado. Aliás, existem países onde isso já aconteceu. Em Portugal, ainda temos algum caminho pela frente.
Tem sentido na rua o sucesso de ‘Dancin' Days'?
Têm-me calhado sempre personagens queridas do público e por isso as pessoas são carinhosas. Ainda não fiz nenhuma má da fita, o que é pena (risos)... também gosto. Claro que me sinto bastante mais observada, com menos privacidade, mas temos de aprender a viver com isso.
Sente-se desconfortável com a falta de privacidade?
É uma forma de estar que temos de aprender...
Mas é algo que dispensava?
Largamente. Tenho sempre imensa vontade de ir de férias para fora de Portugal porque aí sou anónima e posso estar descansada. Não é que o público seja invasivo, mas sinto-me sempre observada. Mas isso também parte de nós. Temos de ter cuidado na forma como damos entrevistas, como nos expomos, e construir uma relação equilibrada com a imprensa e o público.
Que balanço faz da sua participação nesta novela?
A Carminho foi uma personagem muito simpática, querida do público. Começou com um papel muito forte dentro da família, mas isso foi sendo resolvido, o que significou que a luta dela foi dando resultado. A mensagem que passou foi que não se deve desistir mesmo quando as pessoas parecem muito casmurras. E adorei os atores com quem trabalhei... dávamo--nos muito bem e havia um excelente ambiente. Foi fácil de gravar, havia uma grande química e energia. Foi uma novela que me deu imenso prazer fazer.
Gostou do final ?
Imenso. Foi divertidíssimo Não posso desvendar muito... é um final feliz mas, ao mesmo tempo, inesperado. Os espectadores vão ficar surpreendidos e vão divertir-se. Acaba em festa.
Gravou mais de um ano. Já estava cansada?
Não... chegamos sempre ao fim das gravações com vontade de acabar porque queremos mudar, entrar em novos projetos. Mas foi um prazer. Não me chateava ir trabalhar, gostava de todos os atores e da equipa. Não foi um projeto em que sentisse o tempo a passar devagar, pelo contrário.
Foi exclusiva SIC até ao ano passado. Entretanto, o contrato acabou...
Infelizmente.
Está preocupada com a possibilidade de ficar longos períodos sem trabalho?
Tudo tem um tempo e tudo faz sentido dentro de um certo contexto. Quando começaram os contratos de exclusividade, os canais sentiram necessidade de criar núcleos próprios. Hoje, cada um já formou a sua imagem... até para nós, os contratos de exclusividade têm o reverso da medalha.
De que forma?
Por um lado, é muito bom, porque nos dão estabilidade, mas depois não podemos aceitar trabalhos noutros canais e, em termos de diversidade de personagens, torna-se restrito. Claro que cada ator se encaixa melhor em determinados papéis, mas a diversidade é importante para a nossa construção e capacidade de agarrar vários desafios. Quanto a mim, vou voltar a habituar-me à não exclusividade. Claro que me assusta um pouco mas não estou em pânico. Estou calma e tranquila.
Sentiu-se limitada quando era exclusiva?
Não. Sentia apenas que entre as personagens que fazia podia ter feito outros trabalhos noutros canais. E poder usufruir de uma maior diversidade de personagens é bom, ajuda-nos a evoluir. O contrato de exclusividade torna as coisas mais previsíveis. Mas também nos dá imensa segurança. Por exemplo, nestes últimos quatro anos pude viajar imenso e aproveitar o tempo livre entre personagens. Vou ter saudades desses períodos...
Faz televisão por gosto ou por obrigação?
Gosto de fazer. Mas nenhum ator deve ter vergonha de dizer que a televisão serve para nos pagar as contas. Se não fosse a televisão, uma grande percentagem de atores vivia em dificuldades. Agora, o facto de nos ajudar a pagar as contas não significa que não tenhamos prazer a trabalhar. Há projetos e personagens mais interessantes que outros, mas diverti-me sempre a fazer televisão.
Nunca saiu desanimada de nenhum projeto?
No final, não. Houve dias em que saí frustrada, mas isso foi porque alguma cena não correu bem.
Se o teatro e o cinema pagassem as contas, faria televisão?
Sim. Provavelmente, faria era menos e teria uma conta mais equilibrada entre as três áreas. A televisão também faz parte do nosso trabalho e é uma técnica específica - tem um ritmo que é engraçado, e o improviso é aliciante.
Licenciou-se em teatro. É fundamental ter formação para se ser ator?
É. A formação não tem de ser necessariamente uma licenciatura. Podem ser workshops, porque há pessoas que nascem já naturalmente com um dom e não precisam de passar por um processo tão exaustivo. Mas para mim foi fundamental, foi aí que comecei a perceber que esta era uma área em que podia trabalhar. E é importante, mesmo para quem já está a trabalhar, parar durante um mês ou dois e fazer formação. É importante um ator ter a experiência de conhecer o seu corpo, saber como deve respirar, como se deve mexer, como tudo funciona dentro de si e como pode comunicar isso para fora.
Conheceu pessoas que entraram para a profissão pelos motivos errados?
Felizmente, não conheci muitos casos. Geralmente, essas não são as que perduram. Claro que há pessoas mais deslumbradas do que outras mas o telespectador percebe quando um ator é sério e aplicado no seu trabalho. Fazer televisão, ao contrário do que as pessoas pensam, é muito difícil.
Nunca se deslumbrou?
O meu processo foi gradual. Deslumbrei-me mais quando entrei para o conservatório do que quando fiz o meu primeiro trabalho em TV. Nunca me deslumbrei com o facto de aparecer na televisão, nas revistas e ser conhecida. Sempre tive o medo do excesso de exposição se poder virar contra mim. Tento ser equilibrada na forma como vou gerindo a minha exposição pública porque gosto muito da minha vida privada. Percebi desde cedo que a televisão podia roubar uma quota-parte de privacidade.
Como é que percebeu isso?
Tem a ver com educação, os meus pais sempre me puseram os pés bem assentes na terra, e também tem a ver com ter tido uma formação sólida. O facto de ter estado quatro anos no conservatório fez-me perceber que o trabalho depende do meu empenho, do meu profissionalismo e do meu rigor.
São esses valores que tenta passar ao seu filho [com o também ator João Reis]?
Ele não é nada deslumbrado... finge até que não me conhece à porta da escola. Tentei sempre passar-lhe os valores que os meus pais me passaram e sempre fiz questão de o preservar deste mundo. Uma coisa é o meu trabalho, outra é a minha vida pessoal.
Gostava que ele seguisse a carreira de ator?
Não faço nada para o incentivar. Agora, se vier a ser ator, será sempre uma opção dele. Nunca vou intervir nisso. Mas, para já, não sinto que ele vá para esta área.
PERFIL
Nasceu em Lisboa, em 1976 (tem 36 anos). Fez bailado, ginástica acrobática e integrou o grupo Onda Choc. Licenciou-se em teatro em 1999. Desde então, participou em séries e novelas, como ‘O Fura-Vidas', ‘O Último Beijo', ‘Laços de Sangue', entre outras. Fez ainda vários trabalhos no cinema e no teatro.
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