Os 18 anos do ‘Oceano Pacífico’ celebram-se amanhã com uma festa de amigos no bar Stones. Na RFM, a voz que noite após noite tem acompanhado várias gerações recorda os primeiros anos e conta como os gostos musicais mudaram. João Chaves – Locutor.
Correio da Manhã - O que significa para si estar 18 anos à frente do mesmo programa? É quase uma vida...
João Chaves - É uma vida e é a maioridade (risos). Significa, acima de tudo, uma grande satisfação pessoal, porque não é fácil manter durante 18 anos um programa deste género. Para mais, quando a rádio é um meio que está sempre a mudar de projectos e de pessoas, isso ainda traz uma satisfação maior. Portanto, é só olhar em frente e tentar fazer sempre melhor para que isto continue durante mais alguns anos.
- Se disser que não estava a faltar à verdade, mas também não posso dizer que me canso. Acho é que o ânimo de saber que as pessoas estão a gostar é tão forte que não dá para pensar que estou a fazer isto há 18 anos. É quase um ritual, uma maneira natural de fazer as coisas. Eu próprio tento aperfeiçoar-me, o que faço hoje não é igual ao que fazia. São 18 anos muito frescos... e gosto muito de fazer isto.
- O que mudou nestes anos?
- Muita coisa, mas sobretudo a música. Apesar de continuarem a ser baladas, alterou-se ligeiramente. Neste momento incide mais na música moderna e da mais antiga ficaram apenas os êxitos. Talvez seja isso que faz com que as pessoas não se macem e continuem a gostar. Tenho ouvintes que me acompanham há 18 anos, outros deixaram e voltaram de novo. São aqueles temas que marcaram a nossa juventude, ‘I’m Not in Love’, ‘Everybody Got To Learn Sometime’... Esse tipo de músicas que se ouviam na época em que lançámos o programa e acabaram por nunca sair de moda.
- A concorrência é muito feroz?
- Já houve mais, já foi o programa mais copiado da rádio. Mas o original é sempre mais consistente. Mesmo que tenham curiosidade em ouvir o que se faz nas outras rádios, acabam por perceber que a versão original é melhor. Talvez tenha a ver com a voz que dou ao programa e que os outros não conseguem. Apesar de tentar falar o menos possível, sei que o pouco que digo tem a ver com o conteúdo do programa, é a tal ideia de tentar que as pessoas se sintam bem.
- Como surgiu este projecto e o nome ‘Oceano Pacífico’?
- O nome é do Jaime Fernandes, que era o director de programas da Rádio Renascença naquela altura. Aliás, vim com ele para cá. E escolheu esse nome para dar uma ideia de calma. O resto fui eu. Criámos um projecto tendo em conta a hora tardia em que era emitido e as várias situações em que era ouvido, uma roda de amigos, o estudo, até a ver televisão... e pensámos também naqueles sítios onde as pessoas se deslocam à noite, quando querem tranquilidade, paz... Entendemos que um programa assim seria o ideal para aquela hora e resultou.
- Alguma vez temeu pelo fim do programa?
- Não. Sempre tivemos audiências e as pessoas nunca se cansaram de ouvir. Houve uma altura em que baixou, mas isso era normal, porque apareceram novas televisões, outras rádios... Isso dispersou um pouco as pessoas, mas depois voltaram e hoje temos mais audiência do que quando começámos. Nas quatro horas, deve rondar 300 a 400 mil pessoas.
- Tem consciência que o ‘Oceano Pacífico’ marcou uma geração?
- Sim. Era uma geração mais exigente, porque tinha bom gosto musical e sabia o que estava a ouvir. Eram pessoas da minha idade, quando comecei na rádio tinha 27 anos. É por isso que não tenho qualquer dificuldade em escolher uma música porque sei quem são as pessoas que estão a ouvir. E portanto parto do princípio que se eu gosto quem está a ouvir também gostam.
- Tem ouvintes mais novos agora, isso cria-lhe alguma dificuldade?
- Não! Antes pelo contrário. Tenho filhos de antigos ouvintes que começaram agora a ouvir.
- Mas isso deturpa, de alguma forma, a ideia original do programa?
- A ideia original mantém-se, que é a calma, a tranquilidade e as baladas que fazem com que tudo isso resulte. Depois há as outras situações para que o programa é aproveitado, que é para estudar, para criar ambiente, para reunir os amigos... Tenho recebido cartas e telefonemas de pessoas que estão a ouvir o programa.
- Há alguma história especial que lhe tenham contado?
- Há várias (risos). Sei de ouvintes que me contaram que se apaixonaram ao som do programa. Pessoas que me telefonam e mandam ‘e-mails’ a pedir determinada música para um momento especial.
João Chaves, 47 anos, é a voz de ‘Oceano Pacífico’. Entrou para a rádio aos 27, por um acaso, e nunca se cansou. Caso contrário, podia estar hoje a tomar conta do negócio do pai, na área da hotelaria, que era o que fazia na época em que foi apanhado pelo bichinho.
Começou na Rádio Comercial e passou para a Renascença por convite de Jaime Fernandes. Reconhece ter tirado uma enorme realização pessoal dos programas em que participou, “e que estavam na moda, como 24ª hora” e a José Ramos, que lhe reconheceu o talento.
Apaixonado pelo vinil, reconhece que a evolução tecnológica ajudou a matar os programas personalizados, mas sem falta modéstia admite que o seu continua porque “tem acompanhado o progresso”.
Dono de uma colecção de milhares de discos em vinil, confessa que já não os ouve todos mas não admite a separação desses bem preciosos.
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