Milhares de jovens querem fazer parte do fenómeno lançado pela TVI e actualizado em fóruns da internet. A minoria que alcança o sonho mal sabe quanto custa ser famoso.
Daqui a alguns meses, quando as temperaturas começarem a subir e a acção de ‘Morangos com Açúcar’ transitar do Colégio da Barra para a praia, os actores estreantes da série de Verão poderão finalmente acreditar que o sonho de entrar nesta produção se realizou.
Eles ainda não sabem que serão os eleitos nem a própria NBP, que tem, por estes dias, a difícil tarefa de escolher os melhores de entre os cerca de nove mil jovens que se inscreveram no ‘megacasting’ que decorreu na Casa do Artista, em Lisboa. “Vieram de todo o país, de Caminha a Vila Real de Santo António, passando pelas ilhas. Também tivemos um jovem que veio de Londres e vários naturais dos países de Leste. Ao todo, foram mais de mil por dia”, conta Paulo Ferreira, director de ‘casting’ da NBP.
Os números só impressionam quem não conhece o fenómeno que se gerou em torno desta série juvenil estreada em 2003 e que se tornou uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. O segredo para o sucesso é que é difícil de adivinhar.
Na pacata moradia do Estoril onde funciona a Casa da Criação (a estrutura da NBP responsável pelos guiões), não se encontram fórmulas exactas, pede-se é imaginação e muito trabalho. Sandra Santos, um dos oito elementos da equipa que todos os dias ditam o destino das personagens de ‘Morangos com Açúcar’, não estranha a afluência dos jovens ao ‘casting’: “Todos querem ter os seus cinco minutos de fama. E depois esta é uma série com que se identificam bastante, que discute assuntos que lhes interessam. Esse pode ser o segredo do sucesso.”
Nádia Furtado, de 17 anos, é fã da série e não perde um episódio. No último dia do ‘casting’, rumou à Casa do Artista com mais dois amigos mas não teve sorte: as inscrições já estavam fechadas. Ficou desiludida mas não perde a esperança. Há-de continuar a tentar: “Gostava de entrar na série porque deve ser uma experiência gira e é uma oportunidade de conhecer gente nova.” As motivações dos jovens para penetrar neste universo mágico não se esgotam aqui. Daquilo que viu em seis dias, Paulo Ferreira divide estes aspirantes a estrelas em três grupos distintos: “Há uns que querem realmente ser actores, que já têm alguma experiência e formação. Depois, há os que não fazem a mínima ideia do que é trabalhar em TV, pensam que é só ir a festas e sair em capa de revista. E, finalmente, apareceu no ‘casting’ um grupo significativo de jovens que queria apenas conhecer a Matilde e o Tiago. O engraçado é que eles falavam nas personagens, não nos actores Joana Duarte e Luís Lourenço.” Na verdade não serão muitos os que têm uma noção aproximada do que significa integrar o elenco de uma produção televisiva com esta dimensão.
Para lá do glamour inerente à profissão, há sacrifícios que se impõem e que não são visíveis aos olhos do telespectador comum. Joana Duarte, a actual protagonista, sabe o que isso é: “Levanto-me sempre cedo e estou o dia todo a gravar. Sinto que deixei de ter vida própria.” Também Mariana Monteiro estava longe de imaginar o que a esperava quando soube que tinha sido seleccionada para interpretar a rebelde Bia: “Não tinha noção nenhuma do que era isto tudo. Não é nenhuma brincadeira, bem pelo contrário. Aqui, trabalha-se de manhã à noite. É muito cansativo”. Ainda assim, o deslumbramento com a profissão pode bem nascer aqui.
De meros desconhecidos a ícones dos adolescentes vai um passo curto. Num ápice, estes jovens são obrigados a lidar com as consequências de uma popularidade instantânea para a qual, muitas vezes, não estão preparados. Luís Lourenço, o Tiago de ‘Morangos com Açúcar’, conta o que lhe aconteceu quando apareceu pela primeira vez na TV: “Cinco minutos depois de passar o genérico da nova série de episódios, o meu telemóvel ficou sem bateria. E eu quase não tinha contado a ninguém que estava a trabalhar nesta produção.” Francisco Adam (Dino) concorda com o colega. “Não tenho muito tempo livre. Mal dá para sair com os meus amigos e há alguns que não gostam de sair comigo por causa das pessoas repararem em mim”, lamenta. Diogo Valsassina (Tójó), que fez uma pausa nos estudos para participar na série, acrescenta ainda: “Os meus amigos fogem de mim, dizem que estão fartos de haver sempre alguém que vem ter comigo.”
Meses depois de abandonar o papel de Soraia, Rita Pereira continua a sentir os efeitos da sua passagem por esta série. Apesar de já estar envolvida noutra produção (é a Vera de ‘Dei-te Quase Tudo’), ainda há quem teime em não fazer distinções: “As crianças pedem para continuar a chamar-me de Soraia. Já tive miúdas de três anos a gritar por mim, a dizer que queriam fugir com a Soraia e deixar os pais.” A actriz adora o carinho do público infantil mas não nega que, por vezes, a fama tem um preço alto: “Se antes gostava de chapéus, agora ando sempre com eles. Vou às compras à Baixa para evitar a concentração de pessoas dos centros comerciais e os meus amigos fazem questão de andar ao meu lado.” Um mal menor face às perspectivas que se abrem para os jovens que se estreiam como ‘Moranguitos’ e que, com um pouco de sorte, são rapidamente integrados nestas produções da NBP. O primeiro par romântico da série, Benedita Pereira e João Catarré (Joana e Pipo), saiu de ‘Morangos’ quase directamente para as novelas ‘Ninguém como Tu’ e ‘Mundo Meu’, respectivamente. Também em ‘Dei-te Quase Tudo’ não faltam exemplos: Rita Pereira, Marta Melro, Hélio Pestana e Manuel Moreira, todos eles ganharam visibilidade na série juvenil.
Sexo, drogas e violência na escola são temas recorrentes neste formato, o que não agrada a muitos pais e encarregados de educação. E a tendência é para continuar, porque o mundo é mesmo assim. “Não queremos chamar audiências quando abordamos esses temas. O que queremos é alertar os jovens e mostrar-lhes que o mundo não é tão cor-de-rosa como eles podem pensar. Também trabalhamos no sentido de cumprir uma função pedagógica”, diz Sandra Santos. E aos pais que levantam a voz quando vêem cenas de sexo ou violência, esta co-autora deixa um conselho: “Que vejam a série com os filhos. A ideia também é relançar o diálogo em família.” O pior que lhes pode acontecer é terem dificuldade em apreender os códigos próprios desta geração já que os autores fazem questão de utilizar, por exemplo, as expressões mais ususais entre os jovens. Esse trabalho é conseguido através de fóruns da internet: “Gostaríamos de ir às escolas falar com os miúdos mas, infelizmente, isso não é possível por falta de tempo”, explica Sandra Santos. A morangomania está nas ruas e ninguém pára o fenómeno?
"Em relação aos que foram fazer o ‘casting’, só posso dizer: Coitados! Nem sabem o que os espera.", Tiago (Luís Lourenço, 22 anos).
"Imaginar a Becas com 15 anos foi o mais difícil. Com essa idade vivia sozinha e não me podia ter como modelo", Becas (Sara Prata, 21 anos).
"Os ‘Morangos’ são uma escola, mas é cansativo e passas o dia todo a gravar ou a decorar textos.", Cláudia (Inês Simões, 22 anos).
"O estranho é que do dia para a noite somos famosos. Os meus amigos fogem de mim quando saímos à noite.", Tójó (Diogo Valsassina, 18 anos).
A MAIS VISTA PELOS JOVENS
A terceira série de ‘Morangos com Açúcar’, ainda em exibição, está a ser a mais vista desde a estreia, que aconteceu em Agosto de 2003.
AUDIÊNCIAS
- 30/08/03 (Morangos com Açúcar): 11 por cento de audiências e 30,8 por cento de share.
- 07/07/04 (Morangos Férias de Verão):11,9 por cento de audiência e 32,5 por cento de share.
- 15/10/04 (Morangos com Açúcar II): 10,4 por cento de audiência e 31,7 por cento de share.
- 23/06/05 (Morangos Férias de Verão II): 11 por cento de audiência e 42,1 por cento de share.
- 20/09/05 (Morangos com Açúcar III):12,8 por cento de audiência e 37,1 por cento de share.
Fonte: Marktest (1,210 milhão de espectadores).
FIGURANTES GANHAM 500 EUROS
Recrutados em agências, os figurantes das séries juvenis ganham cerca de 500 euros mensais. Esse valor obriga a que estejam disponíveis para as horas que a gravação exigir e pode ser acrescido, caso a sua imagem comece a ganhar destaque. Um jovem actor com algum relevo aufere mil euros.
3.600 NA PRÉ-SELECÇÃO
Paulo Ferreira, director de ‘casting’ da NBP, levou 15 dias a preparar esta megaoperação para seleccionar as próximas estrelas da série de Verão. O anúncio na TV chamou à Casa do Artista cerca de nove mil candidatos entre os oito e os 25 anos, a maioria dos quais na faixa dos 14-18 anos e 60% eram raparigas. Desses candidatos, 40% (cerca de 3600) serão chamados para um teste. “Vamos chamar aqueles cuja imagem mais se enquadre na estética da série”, explica. Só 25 devem ficar.
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