Um dos principais rostos da informação da RTP adora a adrenalina do imprevisto e assume-se uma perfeccionista
Após um ano a conduzir o ‘Telejornal’, tornou-se no rosto do noticiário ao fim-de-semana, quando tem uma emissão alargada. Que balanço faz desta experiência?
Tem sido um desafio muito grande. Agora estou a apresentar o novo ‘Telejornal’ ao fim-de-semana, mas continuo na RTP Informação. Quando comecei acumulava com o ‘Grande Jornal’, que me deu um prazer imenso pois conhecia imensa gente e gente muito interessante. Muitas vezes era dali que saía as notícias que depois eram desenvolvidas tanto no ‘Telejornal’ como nos noticiários dos outros canais. Foi uma mais-valia, pois desenvolvi a vertente de entrevistadora. O balanço que faço é muito positivo. O primeiro dia foi muito engraçado, pois no final da emissão os meus colegas saíram da régie e começaram a bater palmas. Foi muito bom.
Está a preparar um programa novo na RTP Informação. Fale um pouco desde projecto?
Posso dizer que é um programa de actualidade, que apresento semana sim semana não e que é emitido ao fim da noite. É um conceito inovador, que se centra sobretudo em entrevistas, e que deve arrancar no final do mês.
Sentiu um acrescer de responsabilidade por estar no primeiro canal em horário nobre?
Senti mais visibilidade. Só que o ‘Grande Jornal’ dura hora e meia e o ‘Telejornal’ é um dos programas por excelência da RTP, pelo que há uma maior responsabilidade, pois temos mais olhos postos em nós e eu sou uma perfeccionista, pelo que não posso falhar em nada.
21 anos de RTP é uma boa escola…
Passei primeiro pela apresentação, com muitos directos e um curso de Direito pelo meio. Tudo isso é experiência. Sou pivô na RTP Informação desde 2004 e aqui as coisas funcionam muito na base do improviso. Na verdade, a minha estreia coincidiu com a chegada do Marques Mendes à liderança do PSD e tive logo uma emissão diferente, com entrevistas, comentadores. Como eu gosto, imprevisível. Acho que quando se aposta em alguém é porque se foi dando provas ao longo dos tempos. Graças a Deus, nunca cai de pára-quedas em lado nenhum! A não ser na RTP, onde entrei por concurso público…
Continua fã do improviso?
Adoro o improviso. Não preciso escrever textos, respondo às imagens. Há coisas que são inatas e podem ser desenvolvidas com a experiência. É óbvio que já tive brancas. Mas fascina-me o improviso e o imprevisto. É uma carga de adrenalina óptima. Lembro-me dos directos sobre a Casa Pia, o escândalo da Moderna… e pelo meio fui tendo os meus filhos. É giro.
O curso de direito também ajudou a desenvolver as capacidades de comunicação?
Sim, e muito. Quando entrei na RTP, em 1991, foi quando entrei para a Faculdade de Direito de Lisboa. É muito engraçado porque todos os juízes e advogados que agora encontro ou foram meus professores ou meus colegas. O juíz Rui Teixeira, por exemplo, foi meu colega de curso, o Conde Rodrigues, que foi secretário de estado, foi meu professor.
Porque não seguiu Direito?
Sempre gostei muito de Comunicação Social, mas tinha média para entrar em Direito. Sempre achei que o Direito era algo que me poderia dar outro tipo de oportunidades. Na altura a minha comprou uma revista onde vinha anunciado o concurso para a RTP, o meu namorado na altura – hoje meu marido -, enviou o meu CV, fui passando as sucessivas provas, e passei. Acabei por acumular a RTP com o curso, o que não foi fácil. Depois casei, no dia 5 de Outubro de 1996 (16 anos). Mas ele não tem nada a ver com a área, é de Gestão de Empresas.
Sentiu fascínio pelas câmaras?
A câmara é um monstro. Quem se deixa fascinar por ela tem que ter cuidado, pois tudo é efémero. Temos de passar por muitas etapas e crescer, tanto a nível pessoal como a nível profissional. Não é fácil lidar com aquele ‘monstro’. Temos de encarar a câmara com a maior humildade possível, caso contrário a queda pode ser muito maior do que qualquer subida. E a qualquer momento podemos falhar.
Já passou por várias direcções de informação, desde José Eduardo Moniz a José Alberto Carvalho. A saída deste último para a TVI, juntamente com Judite de Sousa, trouxe muitas mudanças?
A saída deles coincidiu com muitas alterações. Vivemos numa indefinição constante, entre a privatização, a concessão e os vários modelos que estão em cima da mesa. Quem de direito tem que decidir o que quer, afinal, do serviço público de televisão. Por outro lado, esta situação teve o condão de nos unir cada vez mais. O Nuno (Santos) e o Vítor (Gonçalves) chegaram numa altura conturbada, caiu o governo, houve eleições antecipadas, e mesmo assim conseguiu-se demonstrar que estávamos à altura do que se pretendida. Não falhámos em nada. Conseguimos e estamos a conseguir mostrar que estamos unidos e queremos fazer mais e melhor. As decisões políticas aos políticos pertencem.
Mostrou que ninguém é insubstituível?
Ninguém é insubstituível. Prezo muito a Judite e o Zé Alberto, mas a chegada desta direcção trouxe uma lufada de ar fresco. Tanto o Nuno como o Vítor estão muito presentes da redacção e são bastante acessíveis. Conhecemo-nos bem?
Sente-se mais pressionada pelas audiências desde que apresenta o ‘Telejornal’?
Quem disser que não liga às audiências está a mentir. Eu ligo, pois quero saber o que as pessoas acharam de mim. Por outro lado, coloco algumas reticências a este sistema de audiências. Para mim é um mero indicador, pois o mais importante é a reacção das pessoas na rua. Hoje, elas falam mais comigo, recebo mais emails, sou muito activa no Twitter e no Facebook e criei recentemente a minha página profissional. Acho que é muito importante haver este tipo de interacção com amigos e telespectadores.
Com três filhos, como é que concilia as duas coisas?
Três filhos, marido e um cão. Tenho um excelente marido, que também é um excelente pai, e devo-lhe imenso. As crianças também são fantásticas – Frederido, 13 anos, Sofia, 9, e Francisca, 2. Quem sente mais a minha ausência é a Joana.
Sente-se culpada por não os acompanhar mais?
Não me sinto culpada, pois faço o que gosto. Gostava de os acompanhar mais, mas eles também nunca estão sozinhos. Ou estão com o pai, ou com os avós, ou com os tios. Se for preciso tenho uma amiga que também avança. Estão sempre apoiados. Mas a do meio, todos os dias de manhã pergunta se me vai ver à noite.
Como olha para o futuro?
Nada é garantido e cada vez o dia de amanhã é mais incerto. Neste momento, já começámos a cortar no supérfluo. É óbvio que custa, mas temos de aprender a viver com o que temos. Sempre fui muito cuidadosa, assim como o meu marido. O meu pai faleceu cedo, nas vésperas de eu fazer 17 anos, pelo que tive de aprender a crescer de uma maneira e com uma outra visão. Não estou nada habituada a facilidades. Posso dizer que a minha mãe ofereceu-me um carro e a primeira coisa que fiz foi devolver-lhe o dinheiro do carro assim que pude. Nunca estive à espera de nada.
Sente que está a prestar serviço público na RTP?
Sim. Mas é preciso saber fazer a destrinça entre informação e sensacionalismo. A actual situação pode dar aso a entrar na exploração dos problemas sociais. Essa fronteira nem sempre é fácil de gerir, sobretudo quando nós, jornalistas, nos revemos nessas histórias. É difícil ser objectivos. Nesta altura, o serviço público é muito importante, pois temos aqui alguma margem de manobra para transmitir o que é importante para a sociedade. Esta catadupla de programas de informação e debate demonstram que somos necessários. A verdade é que estes programas têm cada vez mais audiência. A primeira coisa que me ensinaram em Direito foi tem de haver segurança jurídica. Neste momento, em Portugal, não há segurança nem jurídica, nem fiscal, nem económica. As coisas estão constantemente a ser alteradas.
Cristina Esteves nasceu a 31 de Outubro de 1972. Licenciada em Direito, entrou para a RTP em 1991, onde apresentou programas como ‘Grande Área’, com Mário Zambujal, e ‘Você Decide’. Actualmente é jornalista na RTP 1 e RTP Informação e pivô do ‘Telejornal’.
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