Rafael Marques, jornalista e activista de direitos humanos em Angola, sente-se orgulhoso pelo que faz porque “é uma forma de contribuir para que os angolanos possam ter maiores aspirações aos recursos do país”.
Correio da Manhã – Como caracteriza o actual ‘Jornal de Angola’ onde, há 12 anos, iniciou a sua carreira de jornalista?
Rafael Marques – A situação no ‘Jornal de Angola’ está a degradar-se cada vez mais do ponto de vista editorial. Cada vez há menos liberdade e menos criatividade. O jornal hoje transformou-se num dos principais artífices para a propaganda baixa do Governo contra figuras da sociedade civil, nas quais me incluo, porque sou um dos visados dos ataques do MPLA que, por via de pseudónimos, os articulistas fazem acusações infundadas e não têm coragem de dar a cara. Mas isto orgulha-me porque num regime tão poderoso como o de Presidente Eduardo dos Santos não se percebe como é possível os articulistas não terem coragem de dar o rosto às acusações que fazem aos defensores da liberdade.
– Lembra-se ainda de algum momento difícil enquanto trabalhou no ‘Jornal de Angola’?
– Sim, lembro-me perfeitamente. Foi quando a Presidência da República, as FAPLA, a Polícia, o MPLA e o Governo articularam-se para assassinar os dirigentes da Unita que se encontravam em Luanda. Estive presente quando o corpo de Salupeto Pena e Jeremias Chitunda, altos dirigentes da Unita, estavam a ser pontapeados por agentes da Polícia, depois de terem sido assassinados. Lembro-me que depois desta chacina fui incumbido, por ter sido o único jornalista que presenciou a cena, a fazer uma resenha dos acontecimentos. Eu disse ao então chefe de Redacção que não escrevia porque foi um massacre e sabia de antemão que não podia descrever tudo o que vi.
– Não escreveu porque sabia que a matéria não seria publicada tal como foi vista por si. E agora?
– Agora já não me calo mais. Não me calo porque Angola tem de mudar. E tem de mudar porque acima de tudo eu reconheço a humanidade daquele povo. E o povo angolano está a ser desumanizado. Como cidadão consciente e com uma certa capacidade de intervenção, aquilo que eu puder fazer para contribuir para a reabilitação e humanização daquele povo eu farei sempre.
– Continua a escrever mas agora está mais virado para as tarefas da Fundação Open Society. Quais as preocupações?
– Estamos preocupados com o que se passa no país. Por isso, temos um projecto ao nível do ensino primário que já capacitou mais de 3500 professores nas províncias de Luanda, Uíge, Cuanza-Sul, Bengo e Zaire e formou mais de 500 directores de escola em gestão. Ao nível dos direitos humanos trabalhamos e apoiamos as associações e organizações que defendem, de facto, o respeito pelos direitos humanos. Temos também projectos que visam apoiar alguns órgãos de informação independentes para que possam, devido aos constrangimentos económicos, políticos e outros a que estão sujeitos no exercício da sua actividade, transmitir ao público a informação com independência e isenção que se pretende.
– A sua fundação e outras ONG publicaram um relatório sobre as atrocidades cometidas pelas FAA em Cabinda. Têm provas das violações?
– Há torturas permanentes em Cabinda e temos provas. Cito, por exemplo, o caso de Ivo Macaia que foi posto num buraco com escorpiões e afogou-se com a chuva, quando antes tinha sido interrogado pelo general Luís Mendes, chefe do Comando Militar de Cabinda. O governador local Aníbal Rocha tem um plano de limpeza étnica, tudo isto porque a maioria dos cabindas é defensor da independência para o território.
– E qual é o papel do Presidente Eduardo dos Santos?
– A estratégia de Eduardo dos Santos obedece à lógica do absolutismo do Poder. Matou-se o Savimbi, aniquila-se os cabindas e a seguir volta-se contra a sociedade civil. Por isso, vamos pressionar para que Eduardo dos Santos, que tem conhecimento das violações de direitos humanos em Cabinda, se sente no banco dos réus, apesar do poder e do dinheiro que tem. Só que este dinheiro é do povo e ele tem de prestar contas.
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