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“Não quero ser uma estrela americana”

A viver Miguel em ‘Dancin’ Days’ (SIC), o actor diz preferir ter papéis secundários nas novelas. Esteve nos EUA, onde gravou uma série, e afirma estar preocupado com a falta de trabalho.

23 de novembro de 2012 às 15:00

Se tivesse de definir brevemente o Miguel [personagem que interpreta em ‘Dancin' Days'] como o faria?

O Miguel é um amigo do alheio.

É muito diferente de si?

Totalmente. Prefiro personagens muito diferentes de mim que me obrigam a sair da zona de conforto.

Como se preparou para esta personagem?

Fui a alguns stands de automóveis, nomeadamente no Porto, que é a minha cidade, para compreender as técnicas de vendas de carros.

O que é que podemos esperar do Miguel nos próximos tempos?

Ser ainda mais amigo do alheio em relação a tudo, nomeadamente no que diz respeito ao sexo oposto.

É fácil passar de um personagem protagonista [em ‘Pai à Força', RTP] para outro secundário?

É perfeitamente normal. Já fiz muitos protagonistas e muitos personagens secundários. Tenho tido a sorte de fazer um bocadinho de tudo. O mais importante de tudo é termos uma personagem da qual gostemos e com a qual possamos fazer um trabalho interessante. Prefiro fazer uma figuração especial se for a mais interessante de todas do que fazer um protagonista sem interesse nenhum. E em novela, salvo raras excepções, os protagonistas são os menos interessantes. Prefiro ser o empecilho.

Como tem olhado para o êxito de ‘Dancin' Days'?

De forma surpreendente. Os êxitos das novelas são um mistério da vida. Uma novela para ter êxito como esta precisa de ter um factor X e, neste caso, ainda não o descobri. No ‘Laços de Sangue', por exemplo, havia heróis e vilões muito marcados. E isso deixava-nos presos. Estas não tem esses antagonistas.

O que é que as pessoas lhe dizem na rua?

Tenho saído pouco (risos). Perguntam-me se vou ficar com a Nicole [Rita Lello]. E falam-me da falta de nobreza desta personagem.

Tem feito trabalhos para a RTP e SIC. Não recebeu nenhum convite da TVI?

Recebi. Das últimas três vezes que a TVI me convidou tinha aceite semanas antes trabalhos para a RTP ou SIC. Mas estou, naturalmente, aberto a convites, sejam eles de televisão, teatro ou cinema.

O ‘Pai à Força' foi o trabalho mais importante da sua carreira de actor?

Foi um projecto que me foi muito querido, muito simpático. Mas já antes tinha feito protagonistas em novelas [‘Coração Malandro' (TVI), 2003, e ‘Jura' (SIC), 2006]. O mais importante está sempre para vir.

Gostava de voltar a ser ‘Pai à Força'?

Essa decisão não depende de mim. Mas sou um mercenário. Se pagarem, faço!

Entretanto, abraçou uma participação especial na série norte-americana ‘Shameless' (exibida na RTP 2 e Fox)...

Já abracei vários projectos lá fora, mas este é o primeiro nos EUA.

Porquê aos 42 anos?

Porque não? Há dois anos pus-me a pensar: porque não experimentar Los Angeles [Hollywood]? Arranjei um agente, tratei do visto de trabalho e, quinze dias depois, fiz o meu primeiro casting, que correu muito bem.

Mas o que é que o levou a tomar a opção de fazer esta nova aposta?

A procura por novos desafios e a descoberta de mundos novos. Não quero ser uma estrela americana. Se me convidassem para fazer filmes independentes, mal pagos, mas fossem interessantes, em que pudesse falar uma língua diferente e trabalhar com equipas diferentes, ficava encantado da vida.

Que personagem interpreta em ‘Shameless'?

É um barão da droga brasileiro, que veste Armani. Não tem qualquer pudor em matar uma pessoa que esteja à sua frente, cortá-la aos bocados e atirá-la borda fora.

Fala com sotaque?

Claro. E o meu brasileiro é muito bom.

A realidade televisiva norte-americana é muito diferente da nossa?

Muito. Principalmente em termos de orçamentos, é o primeiro grande impacto.

O que é que aprendeu lá?

Ainda estou para ver... com certeza que aprendi alguma coisa mas, por ser tão recente, ainda tenho de digerir.

Que feedback recebeu do seu trabalho?

Ficaram contentes, tanto a equipa como os colegas. Tenho um forte sentido auto-crítico e, portanto, se fiz uma grande asneira tenho consciência disso. Acho que não foi o caso.

Onde é que esta aposta o pode levar?

Não sei. Uma resposta a essa pergunta seria um tiro no escuro.

Então, onde é que gostava que a aposta o levasse?

A alguns projectos interessantes, quaisquer que eles fossem. Gosto muito deste cantinho à beira-mar plantado, não faz parte dos meus planos mudar-me para os EUA, mas hoje estamos a 24 horas de qualquer lado. A ideia é essa: poder ir a Los Angeles ou Nova Iorque, de vez em quando, ver o que é que acontece e, se nada acontecer, voltar para cá ou para outro sítio qualquer onde haja trabalho.

O momento que o País atravessa e a falta de trabalho preocupam-no?

Sim, estou a trabalhar, mas a quantidade de actores desempregados quadruplicou nos últimos dois anos. O que o público vê são os privilegiados que são convidados para projectos televisivos. O pico do iceberg. Tudo o resto [dos actores], está abaixo da linha de água. A maior parte dos actores passa fome.

Está apreensivo com a possibilidade de isso também lhe acontecer?

Estou. Essa é uma das razões pela qual estou a tentar desbravar caminho nos EUA. Porque, como sabemos, os icebergues estão para acabar, derretem. Seja como for, era feliz a fazer muita coisa, não era preciso ser actor.

Já pensou voltar à arquitectura?

Neste momento? De maneira nenhuma. É uma profissão muito absorvente. Só se pode viver para aquilo.

O que se imagina então a fazer?

A dedicar-me à terra e aos animais. Ter vacas, fazer vinho. Tentar encontrar alguns nichos de mercado na agro-pecuária.

É muito ligado à terra?

Sim. A minha família é toda transmontana. Este ano, sou embaixador da confraria dos ovos moles de Aveiro. Acho piada a estas coisas. Lembro-me logo do camarada Álvaro [ministro da Economia] em relação ao pastel de nata.

Tem fortes convicções políticas?

Partidárias não, políticas sim. Gostava que pudéssemos viver numa social democracia nórdica. Pagam 52% de impostos mas não lhes falta rigorosamente nada. Embora ache necessário o programa de ajustamento que estamos a fazer... comigo não contem. Tudo o que puder fazer lá fora faço. Abandono o meu País? Se quiserem por as coisas nesses termos... com certeza, para salvar a minha família abandono o meu País. Temos de apertar o cinto desde que comecei a trabalhar, em 1986. É uma loucura.

PERFIL

Nascido a 10 de Setembro de 1970, Pêpê Rapazote licenciou-se em Arquitectura. Chegou a exercer mas, nos anos 90, tornou-se actor profissional. ‘Ajuste de Contas’ (2000) foi a primeira participação regular numa novela, a que se seguiram ‘Ganância’ (SIC), ‘Coração Malandro’ (TVI), ‘Jura’ (SIC), entre outras. Protagonizou a série ‘Pai à Força’ (RTP) e, actualmente, está em ‘Dancin’ Days’ (SIC).

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