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Correio da Manhã

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“Não tive coragem de deixar o País, a minha língua”

Admirada e respeitada pela carreira e pela vida, e quase a fazer 83 anos, a actriz é uma referência na cultura portuguesa
29 de Abril de 2011 às 00:00
“Não tive coragem de deixar o País, a minha língua”
“Não tive coragem de deixar o País, a minha língua” FOTO: Sérgio Lemos

A tia Alice, da novela ‘Mar de Paixão', conquistou o público?

Fui abordada na rua com muito entusiasmo, estima, ternura e comoção. A simpatia que a tia Alice gerou foi admirável. Fiquei muito contente porque a personagem representava a boa-vontade, a paciência, a compreensão. Ela tinha uma dimensão humana muito grande. Foi isso que conquistou o público. Havia pessoas que diziam ver a novela por causa da tia Alice. Ela não era uma personagem predominante, mas acabou por ser devido à simpatia que gerou.

Gosta de interpretar mulheres do povo?

Gosto. E faço-o com muita satisfação. Acho que fico mais perto delas.

Depois de ‘Mar de Paixão' quando voltará à televisão?

O meu contrato com a TVI é fazer participações episódicas. Esta situação é válida até ao espectáculo que estrearei com Diogo Infante, em Maio de 2012. Depois ficarei mais disponível para a TVI.

Em ‘Mar de Paixão' contracenou com um elenco muito jovem. Como vê esta nova geração?

Alguns surpreendem-me pela negativa. Quando lhes pergunto se estão a estudar, a fazer algum curso de representação, respondem-me com um ar muito natural que não e surpreendem-se com a pergunta. Mas muitos passam pelos ‘Morangos' e, depois, quando têm curiosidade e algum talento, procuram fazer cursos de formação.

É capaz de apontar três nomes talentosos da nova geração?

Já não sabemos bem como havemos de nomear as novas gerações... Talvez não seja a altura de falar das mais novas. Temos grandes actrizes com pouco mais de 30 anos, como a Alexandra Lencastre, a Margarida Marinho, a Beatriz Batarda ou a Custódia Gallego...

Contracenou em ‘Mar de Paixão', e pela primeira vez, com Rogério Samora, que conhece há 34 anos. Foi uma feliz coincidência?

Foi uma feliz coincidência, um encontro muito agradável. Conheci o Rogério nos tempos da Casa da Comédia dirigida pelo Filipe La Féria. Fizeram-se lá excelentes espectáculos. Tenho imensas saudades desse tempo e daquele teatro.

Como vê um actor com a envergadura do Rogério Samora a fazer contratos de exclusividade com estações de televisão, aos 52 anos?

Acho muito bem. Até porque ele faz muito bem televisão. Tem feito muito cinema, mas talvez tenha pensado que, agora, está na altura de investir mais na televisão.

E a Eunice Muñoz gosta de fazer novela? Não é muito desgastante para os seus quase 83 anos?

É muito desgastante, mas fazer teatro também é. Por aí não há diferença. Certo é que quando fazemos novela arrumamos a nossa vida quase por um ano.

O que é mais difícil, quando faz novela? Gravar exteriores, cumprir horários...

Os horários são muito pesados. Implica levantarmo-nos às seis da manhã para estarmos às 08h00 nos estúdios, maquilhados e penteados... É muito duro mas, ao mesmo tempo, a televisão tem uma técnica muito atraente. A televisão está entre o teatro e o cinema.

Nunca pensou fazer carreira fora de Portugal?

Acabei o curso do Conservatório com 17 anos, na altura pensei nisso, mas não fui capaz. Não tive coragem de abandonar o País, a minha língua. Fui sempre muito medrosa em relação ao ir-me embora. Aquela geração era assim. Hoje, os jovens são mais libertos, põem uma mochila às costas e partem à aventura, o que é óptimo.

Que mudou na representação desde que fez a primeira novela, ‘A Banqueira do Povo', em 1993, na RTP?

Melhorou tudo: representação, textos, parte técnica, iluminação... Assisti a tudo isto com muita alegria. A novela deu um pulo enorme. Então ao nível da representação... Os actores começaram a fazer muita novela e perceberam exactamente o que se esperava deles, como o seu trabalho poderia ser mais brilhante.

E conquistou-se mais naturalidade?

Sim, adquiriu-se uma naturalidade que muitas vezes não existia.

Que recorda do realizador brasileiro Walter Avancini?

Ele sabia muito bem dirigir actores, sabia muito sobre TV. O elenco tinha bons actores. E a história era verdadeira. Apesar de ter sido feita em 1993, foi um trabalho muito marcante.

Recorda algum episódio relacionado com a novela?

Houve um homem que veio ter comigo e me garantia que a Dona Branca era exactamente igual à minha personagem. E eu explicava-lhe que não conhecia a Dona Branca, que nunca a tinha visto senão nas notícias da televisão e nas fotos dos jornais. Mas ele insistia e não acreditava na minha versão. Dizia que até a minha voz era igual à da Dona Branca.

Gosta de ver novelas brasileiras?

Quando tenho tempo e quando lá está a minha querida amiga Fernanda Montenegro, tento ver. É um prazer ver uma grande actriz como ela. Mas a novela brasileira é um produto muito bom, muito bom mesmo. Tem grandes actores, grandes técnicos, grandes cenários... São muitos anos de experiência.

Esta peça do Teatro Experimental de Cascais (TEC) , ‘O Comboio da Madrugada' está correr tão bem que foi prolongada?

A peça está a correr muito bem. Está a ser um dos grandes êxitos da minha carreira.

Como é a sua rotina nos dias do teatro?

Levanto-me sempre cedo, excepto quando estou com uma peça em cena. E esta peça é tão extenuante que eu sou incapaz de a acabar e deixar o teatro. Fico no mínimo uma hora ou mais a desmaquilhar--me, a tratar de mim, a tentar soltar a personagem, porque ela é muito pesada, exige-me muito. Mas toda a minha vida fui assim, sou sempre a última a sair. Sou incapaz de deixar o palco, vestir--me e ir-me embora. Depois chegam os amigos, que ficam comigo no camarim a conversar, nunca saímos antes das duas da manhã.

E deita-se logo quando chega a casa?

Não, ainda vou tratar dos meus cães e das minhas gatas. Depois vou tomar qualquer coisa e, com isto tudo, são quase sempre quatro horas da manhã.

Vive em função da peça?

Passo os dias voltada para ‘O Comboio da Madrugada', a tentar apanhá-lo... Dou pouca assistência à família nesta fase. Todos os dias penso na peça, tento melhorar uma cena, converso com o elenco, e quando melhoro alguma coisa fico felicíssima.

É o trabalho que a mantém activa?

São os projectos, mas eu também cuido de mim. Com a idade que tenho preciso de cuidar de mim.

E cuidar significa o quê?

Ir aos médicos, tomar os meus remédios...

Há alguma questão de saúde que a preocupe mais?

Trato-me e depois não penso mais no assunto. Não fico a pensar nas doenças. E tenho a sorte de ainda ter a cabeça no lugar com esta idade. Que é muito importante. Felizmente nunca fui uma doente e a minha natureza é lutar sempre por alguma coisa, ler, estudar, amar o teatro.

Acha que foi bafejada pela sorte? A sorte existe e pode fazer a diferença na vida de uma pessoa?

Existe, sim! Ao longo deste 70 anos vi gente muito talentosa e que nunca ascendeu ao lugar que merecia.

Como quer ser lembrada daqui a 20 anos?

Quero ser bem lembrada. A lembrança está no meu trabalho. E também na consciência que tenho de que nunca prejudiquei ninguém, nunca passei por cima de ninguém.

 PERFIL

Eunice Muñoz nasceu na Amareleja, Alentejo, em Julho de 1928. Filha de artistas, começou a representar aos cinco anos e, com 13, estreou-se no Teatro D. Maria II com a Companhia Amélia Rey Colaço. Depois de muitos sucessos no palco, estreou-se no cinema em 1946 no filme de Leitão de Barros ‘Camões', que lhe valeu um prémio. Em 1991, ao celebrar 50 anos de carreira, foi condecorada pelo ex-Presidente da República Mário Soares. Na TV, onde fez muito teatro, Eunice Muñoz participou em doze novelas. Tem um teatro e uma rua com o seu nome.

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