Três décadas de jornalismo e um percurso de notoriedade na rádio, agora ‘chamuscado’ pela acusação de envolvimento em irregularidades financeiras e prejuízos a terceiros, que levou a RDP a apresentar uma queixa-crime e abrir um inquérito. Francisco Sena Santos explica-se.
Correio da Manhã – Ao fim de vários anos na Antena 1, a saída. Quais os verdadeiros motivos?
Sena Santos – São motivos de ordem pessoal, às quais se associaram questões de saúde. Tenho um problema nas cordas vocais, mas está a ser superado.
– Pretende voltar?
– Tenho desejo, vontade de voltar depressa a fazer aquilo de que realmente gosto. A minha vida existe na rádio. Espero que este período seja breve. Tenho muita vontade de voltar a viver a vida e a descobrir o travo de esperança que há em todas as coisas.
– O administrador da RDP, Luís Marques, corrobora as suas razões para deixar a rádio. No entanto, têm sido divulgadas várias notícias que dão conta que terá prejudicado financeiramente terceiros e de existirem "graves problemas finaceiros" que envolverão o bom-nome da RDP. Como comenta?
– Tenho a maior estima e apreço pelo amigo e administrador Luís Marques. Mas reconheço e lamento algumas irregularidades formais em contratos que terão suscitado prejuízos ocasionais, entretanto reparados e sem danos financeiros para terceiros, nem lucros para ninguém.
– Mas estão todos reparados?
– Praticamente todos. Há algumas questões em curso. Mas reforço que nunca tive intenção de lesar ninguém.
– E o que sente ao tomar conhecimento de que a administração da RDP apresentou uma queixa-crime contra si e abriu um inquérito disciplinar para averiguar estas irregularidades financeiras?
– Desolação. Mas o conselho de administração da RDP faz o que entende que deve fazer. Tenho tido a sorte de lidar com administrações exemplares, sobretudo nestes últimos oito anos em que a empresa tem sofrido uma estimulante transformação.
– Não receia que o seu nome profissional possa sair prejudicado?
– Estas questões estão a ser alvo de inquérito e creio que não devo agora fazer mais comentários. Só para terminar este assunto, estes últimos dias têm sido tempos difíceis. Mas os amigos formidáveis não me deixaram ficar numa ilha de silêncio e indiferença. Um abraço, muitas vezes, é o melhor da vida. Estes são assuntos privados e o que é privado não é relevante para o público.
– O regresso poderá ser à RDP?
– Ao jornalismo. Mas a minha vida existe na rádio. Desejo e sonho que sim, quero voltar depressa. Esta é uma fase passageira. Neste instante preciso de uma breve pausa. Faz-me falta para ler, estudar... A intensidade do dia-a-dia não deixa tanto tempo para ler e estudar. Preciso de um trimestre sabático para estar mais atento às coisas. Quero continuar a procurar o rigor máximo, a concorrer para o bem-estar e qualidade.
– Como vê essa "estimulante transformação” da RDP?
– Nos últimos dez anos, a RDP percorreu mais de uma década de vida, muito mais anos de evolução tecnológica. É uma das rádios melhor equipadas, senão mesmo a melhor. Mas é necessário continuar a investir na qualificação profissional, nomeadamente até vai arrancar em breve o curso de formação profissional na RDP.
– Dada a sua larga experiência profissional, imagina-se como formador nesse curso?
– Não foi uma questão em cima da mesa mas fá-lo-ia com todo o gosto, como sempre.
–Que recordações guarda da RDP?
– São memórias presentes. Tenho vivido momentos inesquecíveis pelas pessoas com quem tenho estado e pela possibilidade de participar na melhoria da rádio.
– Fez o seu percurso profissional entre a TSF e a Antena 1. Que diferenças marcam as duas estações?
– Por definição, têm perfis bastante diferentes entre si. A TSF é uma rádio de notícias e a Antena 1, na RDP, é generalista.
– Ao longo da carreira criou intimidade com figuras da política nacional, como é o caso de Mário Soares. Que ligações e afinidades?
– Não há intimidades. Há estima por grandes pessoas em diferentes áreas políticas, sociais, económicas... Um jornalista está debruçado num palco da vida e vai encontrando coisas extraordinárias nas pessoas.
– Toda a sua carreira foi no jornalismo mas estudou medicina. Alguma vez se imaginou como médico?
– A medicina é um episódio irrelevante. Nunca me imaginei como médico. A minha dedicação foi sempre ao jornalismo e a minha paixão é a rádio.
– E a breve incursão na imprensa, logo ao início, no 'Record'...
– Foi uma porta de entrada estimulante. Aprendi muito de jornalismo e convivi com grandes figuras da comunicação social de Portugal, como Rodrigo Pinto [falecido anteontem] e Artur Agostinho.
– E a rádio tornou-se numa paixão irreversível?
– Sim, completamente. A minha vida existe na rádio.
PERFIL
Francisco Sena Santos é uma nome incontornável na história da rádio em Portugal. Aos 51 anos, conta com três décadas dedicadas ao jornalismo e um percurso de qualidade e mérito profissionais na rádio. Depois de estudos em medicina, iniciou-se como jornalista do jornal desportivo 'Record', em 1973. Um 'pontapé de saída' para a carreira que o viria a notabilizar aos microfones da TSF e da RDP, as rádios onde marcou presença depois do 25 de Abril. No arranque da TSF, ao lado de Emídio Rangel, integrou a equipa fundadora da rádio de notícias para, dois anos mais tarde, se mudar para a Antena 1, da RDP. Entre 1990 e 1993 permaneceu na rádio estatal mas viria a regressar à TSF, por um período de dois anos. Na mesma altura assumiu também a função de professor na disciplina de atelier de Rádio do curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Acabou por fixar--se na RDP em 1996, época em que, com Adelino Gomes, formou a equipa de Direcção de Informação.
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