Quando chegou ao Brasil para gravar “Esperança”, Nuno Lopes nunca imaginou que ia ter tanto sucesso. A adaptação não foi fácil, confessa, mas as fãs adoram-no. O actor gosta mesmo é de Portugal e de... teatro
Aos 24 anos, Nuno Lopes não tem do que se queixar. Quando desembarcou no Brasil, no dia 23 de Maio, era um emigrante a tentar a sorte. Hoje, assusta-se com o assédio do público brasileiro – principalmente do feminino. Em Portugal, Nuno fez apenas uma telenovela – “Fúria de Viver” –- e entrou nos programas humorísticos da Maria Rueff e de Herman José. Quando a telenovela terminar não sabe o que vai fazer. Em Fevereiro, terá de escolher entre continuar no Brasil, voltar para Portugal ou viajar para Inglaterra, onde pretende estudar teatro. “Sinto--me como se estivesse a guardar em casa o cão de um amigo. Não posso afeiçoar-me porque sei que, um dia, ele vai embora”, dramatiza.
Curiosamente, Nuno Lopes não se entusiasmou muito quando soube que estavam a seleccionar actores portugueses para trabalhar em “Esperança”. Já tinha assistido a diversas produções brasileiras, mas nunca pensou em fazer novelas do outro lado do Atlântico. O actor só mudou de ideias quando descobriu que os testes eram para uma novela de Benedito Ruy Barbosa, o mesmo autor de “Pantanal” e “O Rei do Gado”, duas das suas preferidas. Mesmo assim, Nuno não imaginou que pudesse ser escolhido nem que o “José Manoel” fizesse tanto sucesso.
A que é que atribui a empatia do “José Manoel” com o público?
Atribuo essa empatia ao carisma do próprio personagem. O “José Manoel” é um personagem muito bonito. Ele é aquilo a que podemos chamar um herói romântico. E o romantismo sempre cativou as pessoas. Mas ele não é simplesmente um herói. Se fosse, seria fácil representá-lo. O “José Manoel” tem muitos defeitos também. Como qualquer ser humano. É ciumento, enfezado, briguento... O “José Manoel” é do tipo que não gosta de levar desaforos para casa. Em suma: ele está longe de ser um poço de virtudes. Se tem uma virtude, é o amor que sente pela Nina.
Você esperava que o “José Manoel” viesse a ocupar tanto espaço na trama de “Esperança”?
De maneira nenhuma. Sabia que o personagem cresceria depois de namorar a Nina, mas não esperava repercussão igual. Achava que o personagem seria menor. Nunca pensei que fosse gravar tantas cenas por dia. No início, havia capítulos em que eu não tinha uma cena sequer. Gravava um dia e descansava cinco. Era uma vida boa... Dava para estudar as cenas e ir para a praia, ao teatro... A minha vida tem sido acordar às 7 horas, a ir para o Projac, voltar para casa, assistir à novela, decorar o texto e dormir... Mas não estou a reclamar. Gosto muito do que faço.
Algum dia, imaginou que iria fazer telenovelas no Brasil?
Nunca pensei fazer novelas no Brasil. Televisão não é bem a minha área... Não é o que mais gosto de fazer. Nem é o que tenho mais jeito para fazer. Sempre gostei mais de teatro. Quando me falaram dos testes, não liguei muito. Mas, quando soube que a novela era do Benedito, mudei de ideias. Ele fez “Pantanal”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, novelas que me marcaram muito. Foi nesse momento que tive a certeza de que seria um trabalho especial. Mas não achei que pudesse passar. Pensei que eles escolheriam outro actor. Alguém mais bonito...
Como foi o seu processo de adaptação no Brasil?
A minha maior dificuldade diz respeito ao ritmo de trabalho. Não tanto o da novela em si, mas o da televisão de uma maneira geral. Nunca tenho muito tempo para estudar os textos. Gosto de ficar horas a pensar numa determinada cena. Mas também não fico aborrecido com isso, porque sei que não há outra maneira. Ninguém faz milagres. Quando assisto às minhas cenas, raramente gosto do que vejo. Acho sempre que poderia ter feito melhor. Sou muito exigente comigo mesmo.
E quanto ao país? Sentiu alguma dificuldade de adaptação?
Felizmente, não. Fui muito bem recebido pelos meus colegas de trabalho. O elenco da novela tem sido uma família para mim. Nunca morei fora do meu país. Esta é a primeira vez. A maior dificuldade é lidar com a fama. Costumo dizer que nasci para ser actor e não para ser famoso.
Como tem sido a repercussão? Você é muito assediado nas ruas?
Ora, pois! A repercussão tem sido enorme. As pessoas vêm ter comigo para fazer perguntas sobre o personagem. Em Portugal, isso já acontecia. Mas os portugueses são mais tímidos e calmos na abordagem. Os artistas no Brasil são mais endeusado do que em Portugal. Gosto muito de ser actor. Mas não gosto muito de ser famoso. Não estou acostumado. Não acho fácil, por exemplo, lidar com mulheres, assediando-me e dizendo que sou bonito. Não me acho bonito, nem feio. Sou normal.
Mas o assédio do público é uma consequência do trabalho de actor...
Eu sei muito bem isso. Só que não tenho o mínimo talento para ser famoso. Sou uma pessoa muito tímida e resguardada. Fico sem jeito quando as pessoas me abordam na rua. No outro dia, fui a uma festa a São Paulo. As pessoas agarraram-me e aquilo causou-me muita confusão. Nunca pensei que aquilo pudesse acontecer. Senti-me uma estrela de rock. Nunca pensei que um actor de telenovela tivesse de passar por aquilo. Mas não estou a reclamar da vida. Volto a dizer. Preciso aprender a lidar com isso. Não há mais nada a fazer.
A revista “Focus” publicou recentemente uma matéria em que se reclamava que os portugueses são sempre retratados como “porcos, feios e burros”. O que pensa disso?
Infelizmente, não li essa matéria. Mas, papel de português na televisão brasileira, só conheço o meu. E o “José Manoel” não tem nada de porco, feio ou burro. Ele é o oposto disso tudo. Quando vim para cá, tinha plena consciência de que se falava disso. Já ouvi falar das tais piadas sobre os portugueses. Mas lido muito bem com elas. Na minha terra, por exemplo, fazemos piadas sobre os alentejanos.
Alguma vez se sentiu marginalizado no Brasil?
Não me sinto excluído nem marginalizado no Brasil. As pessoas têm-me tratado muito bem. O Rio de Janeiro é lindo. As pessoas são alegres e acolhem muito bem os estrangeiros. Sinto-me muito acarinhado pelas pessoas, e sem qualquer preconceito por parte das pessoas. Mas não posso falar pelos patrícios que estão cá há mais tempo do que eu. As piadas, como já disse, não me chegam a incomodar. Aparece sempre alguém a querer contar novas anedotas. O que posso fazer? É indiferente. O importante é que sou bem tratado pelas pessoas que me contam as tais piadas de portugueses.
Do que é que sente mais saudades de Portugal?
Sinto saudades de passear por Lisboa. Saudades de ir até o Castelo de São Jorge e contemplar Lisboa lá do alto. Morro também de saudades de passear pelo Tejo de barco. Tenho saudades da minha família, dos meus amigos. Eles incentivaram-me imenso a vir para o Brasil. Ficaram todos muito contentes. Tenho saudades, por exemplo, de jantar num restaurante que jantei quando tinha 10 anos. Cá, posso jantar em bons restaurantes. Mas nenhum deles me traz recordações. Cá no Brasil, não tenho raízes, nem memórias. E é disso que mais sinto saudades de Portugal. A minha situação é confusa. Ao mesmo tempo que sinto saudades de Portugal, sinto que não posso afeiçoar-me ao Brasil. Afinal, estou cá temporariamente.
No Brasil, a telenovela “Esperança” está prevista terminar no dia 14 de Fevereiro. O que pretende fazer da vida ?
Ainda não sei. Só sei que a minha vida mudou radicalmente. Eu estava a juntar dinheiro para fazer cursos de teatro em Londres. Gosto muito do teatro londrino e da arte dramática inglesa. Mas o convite para trabalhar no Brasil mudou os meus horizontes. Queria muito voltar a fazer teatro. Não sei ainda se no Brasil ou em Portugal. Estou interessado apenas em fazer trabalhos de qualidade e que me desafiem como actor. Se for aqui no Brasil, muito bem. Se for em Portugal, muito bem também.
A descoberta do país irmão
Quando arranja uma brecha nas gravações, Nuno Lopes corre para fazer o que mais gosta: nadar. Na maioria das vezes, ele dá umas braçadas na piscina do apartamento onde mora na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Há duas semanas, Nuno resolveu mudar. Em vez da piscina, decidiu ir nadar para o mar. A experiência, porém, não foi das mais felizes. O desafortunado nadador foi “atropelado” por uma prancha de windsurf na Praia do Pepê. Sofreu apenas uma luxação, mas teve de ir trabalhar durante alguns dias com uma bota ortopédica e de muletas. “No dia seguinte, gravei normalmente. Por ironia, a cena mostrava o José Manoel dançando uma tarantella”, diverte-se.
O tempo livre, porém, é tão escasso que Nuno ainda não conseguiu fazer novos amigos. Alguns actores de “Esperança”, como Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido, têm ajudado o actor português no processo de adaptação. “O início não foi nada fácil. Os portugueses falam de forma diferente. De vez em quando, ainda me enrolo todo”, admite.
Mesmo em fase de adaptação, Nuno já elegeu o seu programa favorito no Rio de Janeiro: comer sushi e sashimi. “Em Lisboa, não há muitos restaurantes japoneses”, queixa-se. Quase sem tempo para saborear a culinária oriental, ele tem vivido de casa para o trabalho e do trabalho para casa. À noite, entre um calhamaço e outro de capítulos para decorar, não perde um capítulo de “Esperança”. Mas confessa que “raramente gosto das cenas que faço”, exagera.
Quando era criança, Nuno Lopes sonhava ser oceanógrafo. Ou, como ele próprio diz, “um novo Jacques Cousteau”. “Sou fascinado por baleias e tubarões brancos”, conta. Mas o fascínio pela vida marinha não durou muito. Já na adolescência, Nuno constatou que queria fazer algo relacionado com as artes. Ele ainda tentou ser artista plástico, mas admite que não tinha muito jeito para pintar telas e lidar com pincéis. Aos 15 anos, começou a fazer teatro em Lisboa e não parou mais. “Rapidamente descobri que era exactamente aquilo que eu queria fazer pelo resto da vida”, confessa Nuno, que andou na Escola Superior de Teatro de Lisboa, uma das mais conceituadas do País.
Não demorou muito para Nuno enveredar pela TV. A sua estreia foi no “Programa da Maria”, entrou na “sitcom” “Paraíso Filmes” e no “talk-show” “Herman SIC. “Aprendi a olhar a vida com outros olhos depois de começar a fazer humor”, garante. Telenovela mesmo, Nuno Lopes só fez uma: “Fúria de Viver”, da SIC. Na verdade, a participação do actor limitou-se a cinco capítulos. “Foi como fazer uma peça de teatro. Sabia exactamente o que viria a seguir”, observa. Foi nessa época que Nuno ficou a saber que a Globo estava a seleccionar actores para trabalhar no Brasil.
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