Pode ou não uma figura anónima sobreviver ao peso da fama e voltar, incólume, a ser quem era? Gisela Serrano, Ricardo Porto e Marco Borges venderam muitas páginas de jornais e revistas, mas hoje estão longe da glória de outrora. Zé Maria, entretanto, voltou à ribalta… pelos piores motivos. Afinal, existe ou não um truque para sobreviver à fama?
Dizia o pintor Andy Warhol que todos os cidadãos tinham direito a 15 minutos de fama. Uma conquista fácil nos dias que correm, em que a televisão abre a porta a anónimos sem feitos para contar, mas disponíveis para a venda de uma imagem pública. Neste difícil mundo da fama, são poucos os que resistem. Os que são esquecidos lidam mal com o regresso ao anonimato.
Zé Maria Seleiro, vencedor do primeiro ‘reality-show’ exibido em Portugal, o ‘Big Brother’ (BB), é o exemplo acabado dessa inabilidade. De um dia para o outro, saltou de uma vida demasiado pacata, a carregar cimento em Barrancos, para o estrelato televisivo.
Quase quatro anos depois de ter vivido os seus 15 minutos de fama, ao sair vencedor da casa da Venda do Pinheiro, voltou a ser capa de jornal. Na madrugada de domingo, Zé Maria parou o carro na Ponte 25 de Abril e ficou horas a olhar o rio Tejo com vontade de saltar. Foi demovido pela Brigada de Trânsito da GNR. Dois dias depois, circulou nu nas ruas de Lisboa, foi detido e hospitalizado. Os ‘feitos’ voltam a fazer correr rios de tinta.
Quem o conhece de perto e da televisão acredita que o barranquenho lida mal com a fama, mas há também quem reconheça que é a falta dela que o deprime… Afinal, o que ganham os concorrentes de ‘reality-shows’? Catarina Cabral, a açoriana de 24 anos que venceu a terceira edição do ‘BB’, ganhou independência financeira mas, se pudesse, dispensava a fama. “É difícil lidar com isso. Temos que ter determinada postura para enfrentar a pressão, porque se há pessoas do público que nos acarinham também há situações menos agradáveis” diz, hoje, finalista do curso de Higiene Oral.
Marco Borges reconhece que a participação no ‘BB1’ mudou a sua vida sem ter deixado marcas negativas: “Há, de facto, situações complicadas, mas temos que viver com elas, senão estávamos a caminhar para a loucura.”
Aos 28 anos, gerente comercial de uma empresa, o homem que foi expulso da casa por ter dado um pontapé a outra concorrente, não se considera uma pessoa famosa mas sim popular. “E isso tem prós e contras”, diz. A receita é estar muito atento e ter os “pés bem assentes na terra”. “Felizmente, não tive dificuldades, até porque nunca me apoiei em pessoas que não conhecia. No entanto, devemos ter a noção de que somos um alvo para o bem e para o mal”, admite a rir.
Célia, de 22 anos, ganhou dinheiro e uma grande paixão no primeiro programa. Mas não repetia a experiência. “Costumo dizer que quando saímos daquela casa apanhámos uma bofetada psicológica e acho até que tivemos todos muita cabecinha”, recorda a actual estudante de Comunicação Social em Leiria. Célia concorreu para ganhar um prémio e não esperava tanta popularidade. Agora, recorda que só suportou o primeiro ano, após a saída da casa, graças ao apoio de Telmo, o outro concorrente com quem casou. “Foi muito complicado, não podíamos ir a lado nenhum. Se entrávamos num restaurante, nem conseguíamos comer; todas as pessoas queriam falar connosco.” A exposição ainda se mantém, ainda que com menos intensidade.
DIAS SEM GLÓRIA
A verdade é que quem concorre a um ‘reality-show’ procura notoriedade pública. Vítor Cláudio, psicoterapeuta e professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), explica que essas pessoas “têm um interesse particular em ser conhecidas”. “O famoso tem muito a ver com o efémero. Se olharmos para as revistas cor-de-rosa, vemos aquela necessidade de uma alimentação do próprio ego. A pessoa vai ao café, ao supermercado e é reconhecida. O que motiva um cidadão para isto é a necessidade do reconhecimento do outro”, define.
Também o sociólogo Ricardo Alves, da Psicoglobal, no Porto, admite que “ao concorrerem, as pessoas têm a ideia de vir a ficar famosas a nível nacional. Acreditam que isso lhes trará, naturalmente, prestígio social independência financeira e gratificações a vários níveis. Esse é o motor, sem dúvida”.
A questão é que esse mundo cor-de-rosa nem sempre se concretiza. Ricardo Porto, de 27 anos, ficou famoso por ter assumido a sua homossexualidade enquanto chorava de saudades pelo então seu namorado, Dedéu, no ‘BB2’. Participou pela curiosidade em saber como era “ser conhecido” e diz que a sua vida não mudou. “Na altura, ganhei alguma popularidade, dinheiro não, talvez porque não fosse esse o meu objectivo. Estava no primeiro ano da faculdade e agora acabei o curso de Turismo, o que explica que o ‘BB’ não afectou a minha vida nem mudou os meus planos”, refere, enquanto prepara as malas para viajar até às Canárias, onde vai trabalhar.
Mais crítico quanto às motivações de Zé Maria, Ricardo acredita que o barranquenho sempre “teve dificuldade em lidar com a popularidade”. “Ele fez o mesmo que as personagens da telenovela ‘Celebridade’ (SIC) quando querem voltar a aparecer. O Zé sempre quis ser famoso e deve ter sentido vontade de aparecer novamente…”
COMO SOBREVIVER?
Quem acompanhou de perto aqueles programas reconhece que o ofuscar da fama é, de facto, um factor depressivo. Aníbal Pinto, empresário e gestor da imagem de Mário, da primeira edição do polémico concurso, sempre alertou os concorrentes para a “precariedade e dureza da fama” e reconhece que eles não estavam preparados para ultrapassar o final dos dias de glória. “O problema dos ‘BB’ é que eram pessoas muito novas, com um índice cultural muito baixo também. E viveram momentos em que foram ofuscados pela própria popularidade”, salienta.
Também o psicólogo Vítor Cláudio refere a falta de preparação para sobreviver à fama. “É óbvio que são pessoas com pouca formação, só assim se sujeitavam às coisas do ‘BB’.” “Como não há um suporte intelectual, um suporte cognitivo, essa pessoa torna-se figura pública sem fazer nada para isso e depois não sabe o que fazer a seguir a essa fase”, destaca.
“Como falava Gill Lipovetsky, é claramente a ‘era do vazio’, pois as pessoas não têm nada para mostrar e funcionam como um ícone a ser seguido”, afirma. “É uma alimentação do próprio ego. Quando aparece o primeiro-ministro com um lenço na cabeça, isso vende mais que o escritor José Saramago a receber mais um prémio”, nota.
SOBREVIVENTES
Apesar dos falhanços, há quem tenha passado pela televisão sem um beliscão. Delfina, de 30 anos, entende a sua participação no ‘BB3’ como uma “experiência” e não foi magoada pela popularidade. “Tudo depende da maneira como se entende a palavra fama. As pessoas famosas são sufocadas, quase não conseguem respirar… eu fiquei conhecida num determinado momento, mas voltei à minha vida normal.” Ao sair da casa do ‘BB’, regressou ao trabalho, como guia turística em Vila Nova de Foz Côa e só mudou o visual porque não gosta de se ver igual quando olha o espelho.
Também Maurício, o dentista brasileiro, de 41 anos, radicado em Mogadouro, refere que “entrar num concurso como o ‘BB’ não pode afectar em nada a maneira de ser”. “Uma pessoa já sabe para o que vai e quando embarca num programa do género não pode criar expectativas absurdas. Se não estão preparadas podem ir-se abaixo.”
FÓRMULA DE SUCESSO
Mas “porque é que os ‘reality-shows funcionam?”, interroga-se o sociólogo Ricardo Alves. Para além de venderem uma imagem como mercadoria, “veiculam uma série de formas simbólicas, atitudes, disposições, que fazem com que os sujeitos se identifiquem com isso, com esse individualismo, que é muito importante na sociedade em que vivemos, onde tudo está massificado”, justifica o sociólogo.
Ricardo Alves salienta que “os concorrentes empenham-se, arranjam um ‘full-time job’ e é-lhes criada uma imagem que vende as pessoas no mercado dos media”. O problema é que durante os meses em que duram os programas, “os espectadores formulam as suas próprias atitudes e as suas opiniões e os concorrentes são transportados para o que desconhecem”, acrescenta.
Segundo o sociólogo, perder a fama é um golpe a que se resiste com mais ou menos força. “Tudo depende das redes sociais de apoio, do desfasamento entre as expectativas e os ganhos reais.” E se “é difícil gerir sentimentos também é difícil gerir somas alargadas de dinheiro”…
Para o psicólogo Vítor Cláudio, a questão está em saber “como é que essa pessoa alimenta o seu ego quando for substituída, porque é óbvio que isso vai acontecer”, acrescenta.
Segundo vários analistas, os candidatos a famosos não estão preparados para viver com a fama nem para viver sem ela. “A sua participação no programa tem um período cronológico definido. Viver do mediatismo não é fácil, mas quando lhe é retirado o estatuto e o protagonismo, isso implica uma nova reformulação desses conceitos e naturalmente isso não é fácil”, define Ricardo Alves.
EFEITOS COLATERAIS
Cristina, uma cabeleireira de S. Mamede de Infesta, passou uma semana no ‘BB2’ e serviu-lhe de emenda. “Ganhei dinheiro e pude passar um ano sem trabalhar, mas foi complicado para as minhas filhas. Elas passaram um mau bocado na escola”, lembra.
Também sobre isto, Aníbal Pinto tem uma palavra a dizer. “Lembro-me de muitos concorrentes que passaram por vários momentos de depressão. Eles tiveram as portas todas abertas e, de um dia para o outro, passaram de pessoas desejadas a ‘personas non gratas’. Pois hoje em dia, ‘BB’ significa pirosice e eles já não são aceites. Acho que os psicólogos da Endemol deviam tê-los alertado para essa situação.”
No entanto, este economista e produtor de televisão, responsável pelo sucesso ‘Armadilhados’, para a TVI, reconhece que os concorrentes não estão isentos de culpa. “Eles não tinham consciência que a sua popularidade ia acabar. Muitos perderam os empregos e não conseguiram voltar ao que faziam antes. Lembro-me da Elsa, do ‘BB2’, que a certa altura se queixava de estar perdida. Aconselhei-a a voltar a trabalhar e ela respondeu que só ia ganhar 130 contos. Mas é isso que as pessoas fazem… ”.
Sobre o actual estado de Zé Maria, é mais crítico: “Sempre foi uma pessoa frágil e não é nenhum D. Juan com as mulheres. Acho que ele tem problemas com a namorada. Mas ainda é um vencedor, conseguiu mais do que era de esperar, e não tem motivos para estar desanimado. Evoluiu imenso, conseguiu sair de Barrancos e vir para o centro de Lisboa, que é o que os jovens da província mais desejam, e alargou o seu ciclo social. O Zé Maria tem obrigação de ter uma colecção de recortes para mostrar aos netos, mas tem de ter consciência que é isso que fica da sua participação.”
A apresentadora Isabel Figueira, de 24 anos, é um caso raro de sucesso que saiu de um ‘reality-show’. Apesar de já ter uma carreira de manequim, Isabel Figueira tornou-se conhecida pela sua participação no programa ‘Acorrentados’, o ‘reality-show’ criado pela Endemol para a SIC, em resposta ao sucesso do ‘BB’, na TVI. O programa não teve o êxito que a estação desejava, mas foi o trampolim para Isabel Figueira, hoje uma das mais requisitadas apresentadoras da RTP e cara do ‘Top Mais’, ao lado de Francisco Mendes.
Também Gisela Serrano não se pode queixar do empurrão da televisão, embora a sua áurea seja hoje bem menos intensa do que há dois anos. A ‘mulher-furacão’ deu nas vistas por falar alto e dizer palavrões no ‘Masterplan’ (SIC). Um dia, cansada de tanto mediatismo, bateu com a porta e desistiu da vitória certa. Durante mais de um ano, a imprensa seguiu a par e passo a vida de Gisela, do casamento à separação.
Dois anos depois, Gisela lucrou com o estrelato: participou no ‘BB Famoso’ da TVI, teve um programa com o seu nome na mesma estação, construiu uma casa e tornou-se proprietária de uma loja de bijuteria num centro comercial da Bobadela.
OUTROS DRAMAS HUMANOS
Não são só as ‘estrelinhas’ da televisão que lidam mal com o fim da notoriedade pública. Em Portugal e no estrangeiro há muitos casos de dramas humanos que terminam mal. Foi o caso de Cândida Branca Flor. A 11 de Julho de 2001, a cantora foi encontrada morta em sua casa, depois de ter ingerido uma dose excessiva de álcool e barbitúricos. Tinha 52 anos e estava esquecida desde 1997. Apesar das muitas operações plásticas e dos seus esforços para aparecer, a cantora não sobreviveu à fama, morrendo sozinha, sem família, sem amigos e sem glória.
Jogador do Benfica, um dos mais populares na década de 70, Vítor Baptista não foi capaz de dar continuidade fora das quatro linhas à glória dos relvados. Um dia perdeu um brinco num jogo e jurou que a sorte lhe fugiu. As drogas e o álcool levaram-no à ruína. Acabou por ser encontrado mais tarde, deprimido, a trabalhar como coveiro, sem o brilho da fama que conquistou.
Também no reino do futebol, Diego Maradona é um dos casos que sucumbiu à glória. Nascido em 1960, na Argentina, é considerado um dos maiores futebolistas de todos os tempos. Mas, ao contrário do rival Pelé, Maradona não sobreviveu ao sucesso. Campeão Mundial em 1986, no México, o argentino afogou-se numa vida de drogas e esteve à beira da morte por várias vezes.
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