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O jornalista tem que ser antipoder

Afastada dos ecrãs há quase dois anos, Manuela Moura Guedes continua igual a si própria: polémica, directa e sem papas na língua.

23 de novembro de 2007 às 00:00

Quando é que volta ao ecrã?

- Não sei.

- Há dois meses, o seu marido e director-geral disse que seria ainda neste ano...

- Não será ainda neste ano mas é proximamente, por aquilo que sei.

- Será na área da Informação?

- Eu sou jornalista! Sou a única mulher e a única da Informação a participar nas reuniões de grelha mas continuo a ser jornalista. Faço parte da Direcção de Informação, estou a coordenar a Grande-Reportagem, e qualquer coisa que venha a fazer será na área da Informação, claro!

- As pessoas sentem a sua falta no ecrã?

- É estranho, é como se não tivesse deixado de aparecer. Dizem: ‘Ah, quando é que aparece...?’; ou então: ‘Não a vejo há uns dias’ (risos) e eu respondo: ‘Pois, de facto, há uns dias!’...

- E a Manuela tem saudades de aparecer?

- De aparecer, não. De ser mais interveniente na Informação. Não faço o alinhamento mas vejo-o. Se não concordo com alguma coisa, chamo à atenção. Aliás, os editores perguntam-me. Agora o empenhamento que tinha com o jornal deixei de o ter, porque achei que me devia afastar.

- Já não era o seu jornal...

- Não, não era por ser o meu jornal...

- O jornal pelo qual dava a cara...

- Não é isso. Nas semanas em que o Pedro Pinto apresentava tinha exactamente o mesmo empenhamento. Não é dar a cara pelo jornal. É um jornal que não tem a mesma filosofia do anterior.

- O que é que mudou?

- As coisas estão mais desligadas. Um alinhamento tem de ser um todo e um pivô não pode ser um mero preâmbulo de uma peça. Um alinhamento é um conjunto de notícias que são acontecimentos, e os acontecimentos estão todos ligados. E um pivô também serve para explicar como uma coisa deu origem à outra. Isso dá muito trabalho. E os pivôs não o fazem. Aprendi-o no ‘Jornal das Nove’ (RTP), uma grande escola onde podíamos digerir as notícias, interrogá-las, ligar as coisas e explicar o Mundo. Isto exige que a pessoa pense, que não se diga disparates, que se tenha algum conhecimento e que se investigue.

- Foi muito criticada. Consideraram-na opinativa, muito interventiva, pouco isenta...

- É natural. Também acho inacreditável o que está a acontecer agora. Tenho vergonha do jornalismo que se faz. É natural que os que acham que o jornalismo está fantástico pensem que aquilo que eu fazia era muito interventivo. O que fazem agora é uma vergonha completa. Não consigo perceber o que se passa. É a ausência total e completa de sentido crítico.

- Isso acontece também dentro da TVI, quando diz que o jornal mudou de filosofia?

- Eu falei da maneira como era feito o jornal...

- Mas disse que já não intervém tanto no jornal porque a filosofia mudou...

- As mudanças têm mais a ver com os pivôs, porque os jornalistas e os editores são os mesmos. Mudou principalmente a forma como se entende o alinhamento. E isso tem a ver com as pessoas que conduzem o jornal. Acho que há medo. Coisa que, como jornalista, nunca tive. Não sei se é medo, se é comodismo... mas assusta-me. Não há vontade de inquirir coisa nenhuma! Os jornalistas estão adormecidos! Acho que se auto-anularam. Tenho vergonha da classe a que pertenço. Vejo coisas indizíveis e ninguém questiona nada. Vive-se na paz dos anjos.

- Terá a ver com as condições de trabalho?

- Sim. Mas é fundamental as pessoas terem espinha, a sua própria dignidade, e saberem que o que estão a fazer é aquilo em que acreditam. Quando se vai para jornalista sabe-se que se tem um determinado trabalho a fazer que é apurar a verdade! Dizem que eu não era isenta... mas sempre fui. Fosse o Governo PS, PSD, fosse o CDS... Olhe, o meu amigo Paulo Portas (dirigente do CDS), como costumavam dizer, nunca mais me falou. A última vez foi para me mandar uma carta a protestar. A partir do momento em que alguém está numa posição de poder não me esqueço de que sou jornalista.

- Mas nunca a pressionaram?

- Não tenho um único assessor a ligar-me. Há tempos, depois do jornal, ligaram para aqui. Atendi e pediram para falar com determinado jornalista. Disse que não estava. Era da assessoria do primeiro-ministro e pediram para falar com outra pessoa. Respondi: ‘Também não está, mas olhe, daqui é a Manuela Moura Guedes, faço parte da Direcção de Informação, se quer dizer alguma coisa, diga’. ‘Ah... É só um momento’. Ficaram muito atrapalhados e fiquei à espera. Passado um bocado, voltaram e disseram: ‘Não, consigo não, era com fulano tal e sicrano tal’. Repeti que fazia parte da Direcção de Informação e que estava perfeitamente habilitada para ouvir o que eles tivessem para dizer...” Mas insistiram: “‘Não, não. Consigo não.’ E eu: ‘Com certeza. Já entendi’.”

- Como ficou o programa que preparava, no ano passado, de entrevistas políticas?

- Isso ultrapassou-me completamente.

- Já não pensa fazê-lo?

- Sem entrevistados não me interessa fazer nenhum programa! Entrevistar uma cadeira? Até era capaz de ser divertido! Eu fazia as perguntas... Era um programa humorístico, com certeza. Até posso imaginar as respostas.

- O que perguntaria a esses entrevistados? Ao primeiro-ministro?

- O que o povo quer saber sobre a governação, o que em qualquer país se pergunta a um primeiro-ministro. As pessoas estão preocupadas com a vida, com o desemprego, com os indicadores económicos. Com tudo menos com o défice, para o qual se estão um bocado nas tintas! Perguntaria sobre a gestão do País. Os primeiros-ministros têm de responder a todas as questões respeitantes à gestão do País. E não é só na altura das eleições. É diariamente. E não é atirando areia para os olhos. Os políticos ainda não aprenderam: as pessoas não são burras!

- Pensa que embirram consigo?

- Não há razão nenhuma. Sempre fui assim. Uns entendem melhor, outros não. Depende do carácter, da formação das pessoas. Os jornalistas têm de questionar para esclarecer o público. Há quem não entenda assim e ache que os jornalistas são o veículo para transmitir aquilo que eles querem. E os jornalistas estão a fazer esse papel.

- Sempre foi polémica. Incomoda-a que falem de si?

- Isto é um país de muita subserviência, que gosta de algum autoritarismo. É um bocadinho assustador. É engraçado que tenham votado no Salazar (em ‘Os Grandes Portugueses’). Gostam de ser disciplinados, de ter uma mão-de-ferro em cima. Dá ideia que as pessoas se estão nas tintas, que só se preocupam com o que diz respeito à sua vidinha. Só se manifestam pelos ordenados. Quando toca ao bolso fazemos barulho, mas... nem muito! Fomos habituados a estar vergados. E vergamos.

- Parece ter um discurso de esquerda. Mas foi deputada pelo CDS-PP...

- Durante esse ano, às vezes dizia ao Paulo (Portas): ‘Ai, sinto-me tão mal aqui! O que tenho eu a ver com a direita?’ Mas não acredito, como a esquerda, na bondade humana do Rousseau, que o Homem nasceu bom e a sociedade é que o corrompe.

- Perguntei por parecer ter um discurso muito à esquerda, contra o poder...

Sou antipoder, completamente! Mas um jornalista tem que ser antipoder. Cada vez que vejo um entrevistado vejo um inimigo. O poder... é inimigo.

- Mas está num lugar de poder...

- Não! Estou sempre do lado da redacção.

- Por que motivo se afastou?

- Então, já se sabe. Afastei-me porque os espanhóis...

- Não a queriam no ecrã...

- Não...

- Não gostavam de si...

- Não deviam gostar.

- E ao afastar-se, ao deixar de intervir tão directamente no jornal, não lhe parece que...

- Eu intervenho no jornal. Pontualmente. Não consigo deixar de intervir. Mas mexer no jornal de uma ponta à outra, fazer, como fazia, o alinhamento de raiz, não...

- E consegue fazer o tal jornalismo combativo e interventivo que esteve a defender?

- Claro que sim, que consigo! (risos)

- Está satisfeita com o rumo da TVI?

- Sim, muitas telenovelas (risos)... Claro que sim.

- Apesar de os espanhóis não gostarem de si, vai ter o seu programa...

- Eu não disse que eles não gostavam de mim...

- Pois não, fui eu que disse, mas a Manuela confirmou. Se for eu a dizer está bem?

- Sim. Bom, se calhar... Eles também conheciam-me mal, não é...?

- Então agora, se calhar já gostam mais um bocadinho...?

- Não sei, se calhar gostam.

- Mas vai ter um programa de informação...

- Se o director o disse. O que o director diz costuma ser verdade...

- E nos canais por cabo vai ter participação?

- Isso ainda não está definido.

- Gostava de ter um jornal humorístico. Adorava. Era a coisa que eu mais gostava. Passava-me! Com uma equipazinha... Podiam até pagar-me pouco! Ganhava a vida!

- Já equacionou sair da TVI?

- Não.

- Não teve convites?

- Para trabalhar em paralelo. Para sair, não.

- Sabe-se que é amiga de Pinto Balsemão. Ele nunca a convidou para a SIC?

- Não. Convidou-me em tempos. Agora não. A informação deles não se coaduna, acho eu, com a minha maneira de estar nas notícias. A informação da SIC está mais alinhada à vista que a da própria RTP.

- Como vê o ‘caso Rodrigues dos Santos’?

- Eu fiz parte dos pivôs da reportagem da ‘Pública’. Era um trabalho sobre pivôs. Destacaram o Rodrigues dos Santos porque... Achei estranho, porque o conheço e sei que ele mede todas as palavras. Ele deu aquela entrevista escrita, não a quis gravar. Quando se dá uma entrevista gravada pode medir-se as palavras mas fala-se mais espontaneamente. Quando uma pessoa a dá escrita sabe exactamente o que quer dizer. E o que ele quis dizer exactamente é que havia manipulação, há manipulação, agora, na informação da RTP. O ‘Público’ pôs aquilo em destaque e nenhum jornal destaca uma coisa que já deu tudo o que tinha para dar em 2004. A história já estava mais que gasta. Aquilo já tinha ido à Alta Autoridade. Ele disse exactamente aquilo. Há recados da administração. O que foi muito triste foi ele voltar atrás. Voltar atrás quando percebe que a administração achou pouca graça. Ele escreveu, e não me parece que tenha sido em 2004. Escreveu em 2007. Portanto, quando ele diz ‘há recados’ está a referir-se a 2007. O que me dá ideia é que ele nunca esperou aquela reacção da administração. Por seu lado, esta está a acabar o mandato. Há um livro para sair do José Rodrigues dos Santos. Mais não digo. Não há pessoa que meça tanto as palavras como o Rodrigues dos Santos, aliás uma pessoa que dá uma entrevista por escrito... Eu conheço-o muito bem.

- Ficou desiludida?

- Sim. Porque tinha ficado muito favoravelmente surpreendida – porque o conheço – quando o vi dizer aquilo. Há recados (ou há fretes, enfim, a informação não é isenta). Não estava à espera. Pensei: “Ah, é o Rodrigues dos Santos.” Pronto. Já não estou favoravelmente surpreendida.

- Quando trabalhava na RTP também havia interferências?

- Da administração? Não. Nessa altura estava lá o Coelho Ribeiro, o melhor administrador que alguma vez passou na RTP, independente e íntegro. Às vezes recebia os despachos e no final acrescentava assim: “P.Q.P.” Claro, o Governo tenta sempre interferir, mas faz parte dos jornalistas fazerem frente a essas tentativas e o Rodrigues dos Santos também tem esse papel. Mas também acho um disparate aquela questão dos horários. O importante é se ele cumpre ou não o seu trabalho, e o Rodrigues dos Santos tem prestado um grande serviço à RTP. Ele é a cara da RTP que mais espectadores chama e isso é uma enorme mais-valia para a estação. O que a RTP tem de ver é se ele deixou de cumprir o seu trabalho, e não me parece que isso tenha acontecido. Isso dos horários é um disparate: um jornalista não é um funcionário público.

ANÁLISE A OUTROS PROFISSIONAIS: 'NÃO GOSTO DA CLARA DE SOUSA'

- A sua escola foi o ‘Jornal das Nove’ da RTP. Quem foram os seus mestres?

- Solano de Almeida, Mário Crespo e Helena Torres.

- Ainda gosta de ver o Mário Crespo a fazer o ‘Jornal das Nove’, na SIC Notícias?

- Gosto mas vejo poucas vezes, porque dá a uma hora que não... Mas gosto, gosto muito.

- Há tempos disse que gostava do Rodrigo Guedes de Carvalho e não do José Alberto Carvalho. E de que mulheres gosta na Informação?

- Não gosto da Clara de Sousa. Não me diz nada como jornalista, acho que é um completo erro de vocação. Mas fico contente por vê-la tão feliz desde que descobriu que é sexy. Vê-se a felicidade estampada na cara dela. E eu fico feliz quando vejo as pessoas felizes por um motivo tão importante.

- Mas mulheres jornalistas que goste de ver não há nenhuma?!

- Gosto da Lurdes Baeta. Embora precisasse de ser mais... ‘tchan’. Precisava de ser assim: “Agora estou aqui, sou eu e têm de me gramar!”

SUBDIRECTORA NA REDACÇÃO: 'GOSTO DE ESTAR COM AS NOTÍCIAS, COM OS JORNALISTAS'

“Burocraticamente, tento não fazer nada! Gosto de lidar com as pessoas e tentar geri-las naquilo que mais directamente tem a ver com o jornalismo. Tenho um gabinete mas estou sempre na redacção. Gosto de estar com as notícias, com os jornalistas, e de me inteirar das coisas. Não gosto de pairar. Acho que devo estar ao nível dos jornalistas, para poder cuidar das situações. É mais fácil se estiver ‘ao pé’ das pessoas, geri-las e aos problemas que elas têm – problemas profissionais que se misturam por vezes com problemas pessoais – do que fechada num gabinete. E, além disso, preciso da redacção. Preciso mesmo.”

'LIGEIRAMENTE ALEGRE NO 'CANTA POR MIM''

- Gostou de participar no ‘Canta Por Mim’?

- Foi terrível. Estava muito preocupada em cantar bem. Da segunda vez já não. Foi muito divertido porque fui jantar e, para não ficar nervosa, disseram-me: ‘Bebe um copinho de vinho’. E depois: ‘Bebe mais um’. Eu nunca bebo. Fiquei ligeiramente alegre. A jurada disse: ‘Esqueceu-se da letra’. Não. Eu desafinei. Completamente. Não atinei com o tom porque estava para lá de Bagdad. Tinha estado a rir-me imenso com o Goucha e os outros e quando entrei nem ouvi a música. Depois atinei... Era aquela música da Tina Turner e diverti-me imenso. Agora, da primeira vez sofri porque levei aquilo a sério. Não se pode levar. Eu não costumo levar.

IDADE: 51 anos

PROFISSÃO: Jornalista

CANAL: TVI

Nasceu no Cadaval, estudou Direito e entrou na RTP em 1978. Casada com José Eduardo Moniz, está na TVI desde 2000.

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