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Os jornais também morrem de pé

O discurso é de esperança, apesar da incerteza: “Ainda vai aparecer um comprador, da região, para ‘O Comércio do Porto”. Quem o diz é José Vinha, jornalista do título portuense que ontem publicou a última edição, como ‘A Capital’, também propriedade da Prensa Ibérica. Mas, para já, “ninguém sabe o que fazer. Temos de ir à pesca”, sublinha.

31 de julho de 2005 às 00:00

Segunda-feira, os jornalistas começam uma ronda de reuniões individuais com a empresa para decidirem as indemnizações, sendo já do conhecimento geral que a Prensa Ibérica está disponível a cumprir com o estipulado por lei e, até, “um pouco acima”. Uma das questões reveladoras desta vontade da empresa, apurou o CM, é que, inclusive, os trabalhadores contratados a recibos verdes terão tratamento equitativo aos profissionais dos quadros. À tarde, as redacções dos dois diários reúnem-se em plenário com o Sindicato dos Jornalistas (SJ).

Ontem, no primeiro dia de inactividade do título, os jornalistas de serviço estiveram na Redacção, mesmo depois de uma noitada de convívio. “Fomos jantar com o Rogério Gomes [director], até às quatro da manhã”, conta José Vinha. “No último dia, até os que estavam de férias ou de folga e os colaboradores não faltaram. Queríamos todos escrever as últimas linhas”, recorda. “Como as árvores, os jornais também morrem de pé.”

Em comunicado, anteontem, o SJ apelou aos trabalhadores para “continuarem a comparecer nos seus postos de trabalho nos horários habituais, não só porque se mantêm as relações contratuais, mas também porque essa presença exprime uma atitude de defesa activa dos jornais”.

Em ‘A Capital’, os jornalistas também acataram a sugestão do sindicato, apesar de terem sido dispensados por António Matos, director-geral. Na redacção, o optimismo mantém-se: “Somos uma redacção muito jovem”, afirmou ao CM a jornalista Ana Cotovitch. À semelhança do Porto, os profissionais do título lisboeta reúnem-se, a partir de amanhã, com os advogados da empresa.

Enquanto na redacção de ‘O Comércio do Porto’ se mantém a esperança de que algum investidor avance com uma proposta de compra do título, caíram por terra as hipóteses surgidas até agora. Depois da inviabilização do MBO (Management-by-out), que proporcionaria a funcionários do jornal a aquisição do título, Vítor Fernandes, da Invicta TV, apresentou-se como potencial comprador. Mas, apurou o CM, a Prensa Ibérica exigiu-lhe uma garantia bancária de 2,5 milhões de euros, para cumprir as indemnizações dos funcionários, e o negócio acabou por ruir.

O SINDICALISTA MATOS

António Matos, o administrador e director-geral em Portugal da Prensa Ibérica, antepenúltimo director de ‘A Capital’ e igualmente seu proprietário, antes da venda do título àquele grupo espanhol, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas. Agora, ironia do destino, coube-lhe a ingrata tarefa de comunicar às Redacções do seu antigo jornal e à de ‘O Comércio do Porto’ a suspensão das duas publicações.

Com o desaparecimento, no final dos anos 50, do ‘Diário Ilustrado’ – publicava-se também de manhã – e, já depois do 25 de Abril, de ‘A República’, ‘A Tarde’, ‘Jornal Novo’, ‘Diário de Lisboa’, ‘Diário Popular’ e ‘Notícias da Tarde’ – pertencia ao grupo do ‘Jornal de Notícias’ – , ‘A Capital’, antes de passar a matutino, o que aconteceu já recentemente, foi o último jornal vespertino. Pelo caminho ficaram, também, outros títulos, matutinos, como, por exemplo, ‘O Século’ e ‘O Dia’, os semanários ‘O Jornal’, ‘Tempo’, ‘O País’, ‘O Ponto’, ‘Página Um’ e o ‘Sete’.

“ATÉ À PRÓXIMA!”

O ‘Comércio do Porto’ despediu-se ontem dos leitores com um “até à próxima!” e um editorial manifestando a convicção de que o mais antigo diário de Portugal continental “ressurgirá em breve” nas bancas. “O ‘Comércio do Porto’ não acaba em definitivo”, frisa o seu director, Rogério Gomes, num editorial intitulado “Até à próxima”, a mesma expressão usada na manchete. “Confio que o mais antigo jornal do Continente ressurgirá em breve e continuará o seu papel insubstituível de voz da Região Norte”, escreveu ainda.

Numa nota publicada no diário portuense, a administração volta a referir que, nos últimos anos, os prejuízos foram “muitíssimo avultados”, tornando-se “insustentáveis”. De acordo com a administração, o prejuízo da empresa gestora do matutino, a New D, foi superior a 1,2 milhões de euros no primeiro semestre do ano.

‘FIM’

Também ‘A Capital’ faz manchete do seu “fim” e preenche a capa e contracapa com primeiras páginas de outros tempos. No editorial, o director interino, Paulo Narigão Reis, escreveu que está “sinceramente incomodado” por ter de ser ele a “fechar o que nomes como Norberto Lopes, Mário Neves, David Mourão-Ferreira ou Francisco Sousa Tavares ajudaram a construir”.

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