Mentem. Humilham. Chantageiam. Matam. Adiam os enlaces felizes dos apaixonados. Armadilham heróis em missão. E tanto irritam o público que há histórias de telespectadoras perturbadas que não hesitam em usar as carteiras para punir os ‘vilões’...
À semelhança da realidade, a luta entre o bem e o mal é componente obrigatória na ficção televisiva. Por isso é que nas telenovelas, a existência de vilões é um trunfo. Para o sucesso das produções, dos guionistas e dos actores, cujas interpretações marcam alguns dos momentos mais altos das suas carreiras.
Em ‘Celebridade’ (em exibição na SIC), Laura (Cláudia Abreu) e Renato (Fábio Assunção) formam uma perigosa e imbatível dupla de vilões. Ele é um jornalista sem escrúpulos e ambicioso, que não olha a meios para atingir o poder na empresa onde trabalha, e que não hesita separar uma criança do pai para lhe usurpar a fortuna pessoal. Laura é uma megera. Fria e amoral. Um trauma de infância fez com que ela transformasse a empresária Maria Clara (Malu Mader) na sua maior inimiga.
Maria do Sameiro, psicóloga criminal, classifica esta personagem como uma “psicopata que projectou todo o seu desejo de vingança em Maria Clara”. Ela também é ambiciosa, mas “ é mais uma situação passional que a move, porque acima da ambição está a vingança. O comportamento das vilãs está mais ligado às deambulações amorosas, enquanto que os vilões são essencialmente movidos pela ganância”, explica a psicóloga criminal à Correio TV.
Não há dia em que as vilanias de Laura e Renato não incomodem o telespectador... Mas quando os maus da novela se encontram e enfrentam num duelo de titãs, o público vibra, porque cada golpe que um inflige ao outro é mais um passo na longa caminhada até à redenção final, porque Laura encontra no final da história o destino que merece, a morte. Tal como aconteceu com Altiva, de ‘A Indomada’. Ou Adma, de ‘Porto dos Milagres’. Duas das maiores vilãs da ficção brasileira.
Cláudia Abreu e Renato Assunção já viveram muitos papéis no pequeno ecrã, mas nenhum arrebatou tantas paixões como os de Laura e Renato de ‘Celebridade’, que eternizará as suas interpretações.
Sempre que saía à rua, Cláudia ouvia todo o tipo de comentários. A actriz contou, em várias revistas brasileiras, que durante a exibição da novela, ouvia frases como “Você está terrível”, ou “Apanhou, foi? Bem feita!”. Todavia, reconhece que algumas pessoas até gostavam da Laura: “Ela não é uma vilã clássica. Ao mesmo tempo que sentem raiva, os telespectadores riem com ela. É um caso de amor e ódio.” Recorda a actriz que, um dia, em conversa com um taxista, este traçou um destino ainda mais terrível para a vilã de ‘Celebridade’. “Queria que Laura morresse queimada.”
Também Fábio Assunção reconhece que o seu papel, apesar de mau, deixou muitas saudades entre o público feminino. ”O Renato expõe um pouco da angústia que o ser humano vive actualmente. Um mundo em que as pessoas têm poucos laços afectivos e que se encontra cada vez mais solitário.”
Ainda recentemente, na TVI, a personagem de Hipólito marcou a acção de ‘Amanhecer’. Homem violento, batia em Anabela (Fernanda Serrano) que obrigava a prostituir-se, e amedrontava os mais vulneráveis do bairro lisboeta onde morava.
Joaquim Horta, actor que vestiu o vilão, recorda o “prazer” que lhe deu fazer este papel. “Os vilões são personagens muito ricas. Com quebras e picos de composição, que tornam o trabalho do actor muito interessante, ao contrário dos bonzinhos que têm percursos lineares.”
Ao longo dos muitos meses que durou a exibição da novela, Joaquim Horta foi insistentemente abordado na via pública. Diz ele que “a grande maioria detestava o Hipólito”, mas havia pessoas “fascinadas com a esperteza dele”.
Este sentimento de ambivalência que surpreendeu o jovem actor “faz parte do ser humano”, afirma Maria do Sameiro, que tem uma explicação para esta confusão. “Algumas interpretações mexem muito com os sentimentos, e há pessoas, que, pela forma como estão emocionalmente estruturadas, não têm claramente definida a fronteira entre o real e a ficção.” Nota ainda a psicóloga criminal que alguns telespectadores “têm uma inteligência emocional pouco desenvolvida” não sabendo, por isso, “controlar-se” e “agir” em conformidades com as situações.
Estes telespectadores que “não aprenderam a viver as emoções gradativamente” são pessoas “isoladas”, com “escassez de vivências, dia-a-dia rotineiros e poucas esperanças de vida”. “Interagindo com a ficção, esta ou aquela personagem, estes telespectadores dão um pouco mais de colorido à sua vida”, explica a psicóloga à Correio TV.
Em ‘Mulheres Apaixonadas’, um dos maiores picos de audiência aconteceu quando Marco espancou a mulher, Raquel (Helena Ranaldi), com uma raqueta de ténis. Das agressões à tortura psicológica tudo valeu para Marcos atormentar a sua vítima.
E o que de pior pode acontecer, sublinha a psicóloga, é quando um telespectador se identifica com o agressor da ficção. “É uma situação arriscada, mas pode suceder com alguém com um ‘eu’ pouco estruturado, alguém facilmente influenciável”, esclarece Maria do Sameiro.
Na ficção lusa, em ‘Ganância’, (SIC) a Amílcar Azenha coube a dura tarefa de interpretar Rodrigo Belo Menezes, o mau da fita que tentou por todos os meios destruir a vida de Rómulo, seu irmão gémeo. Quando interpretou este papel, o jovem actor morava em Sintra e ainda hoje recorda que quando ia à feira de São Pedro “tinha uma série de gente atrás, a chatear-me, e a chamar-me nomes”.
Uma situação que não intimidou Amílcar Azenha, porque considera os vilões “personagens mais interessantes de fazer”, porque “mais elaboradas”. E lembra que até se divertiu à conta da personagem: “Como o Rodrigo era um empresário da área da restauração, quando eu ia almoçar ou jantar a um restaurante, os seus proprietários ou gerentes conversavam animadamente comigo sobre arcas frigoríficas, fogões e disfunções nas instalações eléctricas como se eu fosse, de facto, um empresário do ramo. Apesar de pouco entender do assunto, eu lá ia mantendo o fio das conversas porque achava graça à situação...”
Outra mulher perversa que depressa nos fez esquecer o lado sensual e gaiato de Babalu, de ‘Quatro por Quatro’, foi Maria Regina, personagem brilhantemente interpretada por Letícia Spiller em ‘Suave Veneno’ (SIC). Inconformada com a nova paixão do pai, Regina usa as mais maquiavélicas artimanhas para ocupar o lugar de Valdomiro, o rei do mármore.
Por cá, em ‘Palavras Cruzadas’ (RTP), Rosa Lobato de Faria, no papel da vilã Helena Salgado, fazia contrabando de diamantes. Hoje, a actriz só lamenta que os “autores se tenham arrependido a meio da novela e não tivessem levado às últimas consequências as maldades da vigarista”. “Adorei fazer papel da má que passava diamantes escondidos no carrapito. Um dia fui denunciada e acabei por ser detida no aeroporto”, relembra a actriz sublinhando à Correio TV “como é interessante, do ponto de vista da composição, fazer o papel de vilã”.
Na galeria dos vilões, Eva Wilma terá sempre um lugar de destaque pela forma inesquecível como interpretou Altiva, a vilã da pequena cidade de Greenville, na telenovela ‘A Indomada’. Falida, a viver num casarão a cair de podre, Altiva, que nunca perdeu a pose e o estilo, vivia obcecada por dinheiro e, para o obter, recorreu a todos os truques e artimanhas.
As suas vítimas preferidas eram o marido Pedro Afonso (Cláudio Marzo) e a sobrinha Helena (Adriana Esteves), a quem tentou usurpar toda a fortuna.
Altiva expulsou a irmã de casa, mandou explodir a lancha onde seguiam o filho e a sobrinha, incendiou uma fábrica, queimou plantações de cana de açúcar, e negou-se a prestar assistência à empregada quando esta sofreu um ataque cardíaco.
Para gáudio de todos os fieis telespectadores, e das muitas personagens de ‘A Indomada’, cujas vidas infernizou sem dó nem piedade, Altiva morreu atingida por um raio à porta da igreja, precisamente quando exigia punição divina para os moradores da cidade.
Em ‘Roseira Brava’ (RTP) coube ao actor Marcos D’Arede o papel do vilão Raul Navarro. A acção desenrolava-se em cenário alentejano, na herdade da Roseira Brava, onde Raul utiliza os meios mais maquiavélicos para reconquistar Matilde (Manuela Santos) anos depois de a ter rejeitado para casar com outra mulher financeiramente mais poderosa.
Marcos d’Arede acha que a partir de certa altura “há sempre quem confunda actor e personagem”. E quando gravava ‘Roseira Brava’ recorda uma ida ao mercado onde “uma peixeira o quis agredir com uma pescada congelada”.
“O Raul acaba desfigurado depois de uma outra personagem lhe atirar com uma panela de água a ferver. Álvaro Fugulim realizou de forma espantosa as últimas cenas da novela, onde os maus foram castigados, mas de uma maneira digna”, afirma Marcos D’Arede sublinhando que “o público gosta dos vilões, porque se revê nestas personagens”.
Quem também não tinha limites para a sua ambição era Raquel de ‘Mulheres de Areia’, uma jovem com uma personalidade bem diferente da gémea, a doce Ruth. Para conquistar o namorado rico da irmã, Raquel arquitectou cilada atrás de cilada, surpreendendo os telespectadores com a sua infinita maldade. Na aldeia piscatória de Pontal d’Areia, ela fez-se passar por Ruth, tentou afogar Tonho da Lua (Marcos Palmeira), enganou os pais e chegou até a simular a própria morte.
E quem não se recorda da viperina Perpétua (Joana Fomm), sempre vestida de negro da cabeça aos pés, com o seu inseparável xaile e guarda--chuva, que atazanou o juízo da pacata população de Santana do Agreste, na telenovela ‘Tieta’?
Cruel e invejosa foi ela quem revelou à cidade inteira que a sua irmã Tieta (Betty Faria) era dona de um bordel. Outra das suas vítimas foi o filho mais velho que a pérfida vilã obrigou a tornar-se padre para poder assim cumprir a promessa que ela própria fizera.
Mas à semelhança de Altiva, também Perpétua conseguia arrancar saudáveis gargalhadas aos telespectadores, porque, às vezes, acabavam por ser elas as principais vítimas das maldades que diabolicamente arquitectavam.
Outro mau da fita habilidosamente desenhado pelo autor de ‘Desencontros’, foi Angelino Damião, papel interpretado por António Rama. E foram tantos os meses durante os quais o actor teve de alimentar a vilania da sua personagem que, a dada altura, “a tensão em que andava era já tão grande que fui ter com o Moita Flores e disse-lhe estar farto de ser mau e de andar a ameaçar gente”.
Também um dia, na feira do livro de Lisboa, António Rama ia sendo castigado pelas maldades que cometia no ecrã: “Valeu-me um casal amigo que esticou o braço e agarrou a carteira de uma senhora.”
Uma assassina em série que merece lugar de destaque na montra de horrores é Adma, de ‘Porto dos Milagres’, personagem que Cássia Kiss tão bem soube interpretar. Movida pelo dinheiro e uma desmedida ambição, Adma eliminou todos quantos se atravessaram na caminhada pela ascensão política de Félix (António Fagundes), seu marido.
Cega pela desejo de transformar Félix num rei, Adma começa por envenenar o cunhado e nunca mais pára. Sem qualquer escrúpulo vai matando todos os seus adversários e acaba por morrer às mãos do capataz seu antigo aliado, mas sem conseguir eliminar Guma, o jovem líder dos pescadores.
Na série ‘Morangos com Açúcar’, na TVI, Diogo Amaral é o mau da fita. Depois de ter perdido o amor de Joana (Benedita Pereira), que se apaixonou por Pipo (João Catarré), o actor, no papel de Ricardo, vive obcecado com os dois, e há um ano que congemina planos contra o casal. Ricardo ordenou a destruição do Bar dos Rebeldes, mandou dopar Pipo na festa da sua despedida de solteiro, e contratou uns capangas que o raptaram e espancaram no dia do seu casamento com Joana.
Os telespectadores não perdoam tanta vilania e Diogo Amaral, que conta sentir-se psicologicamente cansado com a personagem, farta-se de ser insultado na via pública. E com receio que o continuem a confundir com Ricardo, ele lá vai apregoando aos quatro ventos que é um “rapaz certinho”...
Novela de sucesso no Brasil e em Portugal foi ‘Mulheres Apaixonadas’ (SIC), que brindou o público com duas odiosas personagens: Doris (Regiane Alves) e Marcos (Dan Stulback).
Filha de uma família da classe média, Doris procurava a todo o custo um marido rico que lhe garantisse o sustento. Mas o que mais custou aos telespectadores foi assistir à forma cruel como ela tratava os avós. Convencida de que eles eram um empecilho na sua vida, Dóris insultou-os, roubou-os e até os agrediu. No dia em que o pai a castigou com uma tareia, o publicou usufruiu com prazer das cenas de punição da vilã fazendo disparar as audiências.
A excelência da interpretação de Regiane Alves irritou ainda mais o público que, confundindo-a com a personagem, a insultou várias vezes. Num acto de raiva, uma mulher chegou mesmo a agredir a actriz com uma bolsa levando Regiane Alves quase a temer sair à rua nos momentos mais explosivos da acção.
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