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Correio da Manhã

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PORTUGAL DEVIA DEITAR-SE NO DIVÃ PARA FAZER PSICANÁLISE

Aos 19 anos tornou-se estrela. Aos 20 foi considerada a ‘namoradinha de Portugal’. Hoje, com 32, continua a saber que a imagem vale muito, mas afirma ter os “pés bem assentes na terra”. Na hora do regresso, na primeira grande entrevista que concede, assume que ser actriz é a sua “prioridade” e critica alguma programação televisiva. Quanto à sua vida privada, não abre a boca. Mas abre o coração…
4 de Setembro de 2004 às 00:00
Catarina Furtado
Catarina Furtado FOTO: Marta Vitorino
Setembro marca o seu regresso ao pequeno ecrã, depois de vários meses de ausência. Estas pausas na carreira são uma forma de gerir a imagem?
Para ser sincera, eu não faço uma gestão consciente de carreira. Pelo facto de viver muito da minha imagem, é óbvio que tenho como preocupação não me cansar dela. Eu quero ser a primeira a nunca me cansar de mim própria. Não vou permitir isso, até porque quero continuar a trabalhar para o público e a expor-me por inteiro. Esta pausa prende-se também com a gestão da própria RTP, que procura os melhores projectos para mim.
Sente-se o ‘ai Jesus’ desta direcção de programas?
Não, nada disso. Sinto-me muito respeitada na RTP e isso faz-me ter um carinho muito grande pelas pessoas com quem estou a trabalhar. Eles também me conhecem e sabem como eu me entrego de corpo e alma. Agora, o que eu não consigo é fazer coisas com as quais não me identifico. E isso a direcção de programas percebeu muito bem. Até porque na RTP isso é mais fácil do que numa estação privada…
Não deixa de ser curioso ouvi-la dizer isso, quando dez anos da sua carreira profissional foram feitos numa televisão privada…
… sim, na SIC. E eu não me esqueço disso. Passei lá muito bons momentos. Mas foi sempre uma luta constante. Desde o primeiro minuto em que comecei a fazer televisão, eu sabia o que não queria fazer. Isso foi sempre muito claro. Não se tratava de não querer trabalhar por qualquer espécie de mania ou preguiça, não. Simplesmente, há coisas que eu não consigo fazer, porque não acredito. É uma questão de honestidade.
Portanto, do ‘MTV’, programa com que se estreou na SIC em 1992, até à segunda edição da ‘Operação Triunfo’ na RTP…
… nunca fiz nada que não tenha gostado, exactamente.
Mas você fez programas tão diferentes como o ‘Chuva’, o ‘Caça ao Tesouro’, ‘Pequenos e Terríveis’, ou magazines musicais…
Sim, a mim a versatilidade diz-me imenso. Acho que um apresentador deve ser versátil. No entanto, o que eu penso é que as pessoas não podem fazer tudo. Esta é uma opinião provavelmente politicamente incorrecta, mas é a minha. Um apresentador não pode fazer tudo. Nem pode dizer tudo.
E quais são os seus limites?
São claros e sempre foram. A direcção de programas sabe que eu gosto de fazer concursos, que eu gostava de fazer um programa de solidariedade. Não tenho quaisquer problemas em fazer um programa de calções ou de ‘jeans’ e, depois, colocar um vestido comprido cheio de ‘glamour’. Eles sabem aqui na RTP, como sabiam na SIC, que podiam contar sempre comigo, mas há determinadas coisas que não sou capaz.
A MAGIA
Quando era criança e via o seu pai (o jornalista Joaquim Furtado) na televisão, sentia que aquele poderia vir a ser o seu mundo?
Não, nunca quis estar na televisão. Nunca foi uma magia para mim, ou a fábrica dos sonhos. Talvez porque eu tenha conhecido a televisão desmontada, quando ela tem metade do brilho. O que dá brilho à televisão são as luzes, a magia, as câmaras. Eu conheci os bastidores, quando, com a minha mãe, ia levar o meu pai à RTP. Aquele era o emprego dele. E nós íamos na nossa Renault 4, deixávamos o meu pai no emprego e íamos embora. Às vezes, ia com o meu pai, ficava nos corredores a ver as pessoas a trabalhar. Aquele era o sítio em que ele trabalhava. Podia ser ali, como numa fábrica…
Eram outros tempos, em que a televisão, apesar do seu maior impacto social, tinha menos brilho, menos ‘glamour’…
Sim, tinha. E como estava tudo desmontado, não exercia qualquer tipo de fascínio em mim.
E é curioso que, depois, anos mais tarde, é o ‘glamour’ do ‘Chuva de Estrelas’ que lança a sua carreira…
E ainda hoje é assim. A ‘Operação Triunfo’ tinha esse encanto. Mas isso não acontece por acaso, eu também trabalho nisso, não tenho qualquer problema em assumir. E eu não sou ingénua, sei que a minha imagem ajuda, que as pessoas esperam isso de mim. Estamos numa sociedade e numa época em os sapatos que calço, o penteado que uso, ou vestido que apresento é quase tão importante como o texto que digo.
Mas aquilo que se diz é muito importante…
Claro que é. Porque a televisão continua a ser mais veículo cultural do País. O que ali é dito é o que passa para os nossos jovens. E hoje é fantástico como se diz tudo na televisão. E as pessoas ouvem e o comentário que fazem é: ‘olha, aquele apresentador tem muito à-vontade!’ Não, às vezes, tem mais do que isso. Dizem-se coisas incríveis, dão-se pontapés no português. Falar português é fundamental, mais ainda na televisão.
A FORMAÇÃO
Hoje em dia é fácil ser apresentador. Basta chegar lá, ser bonito ou bonita, fazer um ‘casting’…
Isto é muito politicamente incorrecto, mas é evidente que sim. Tudo é fácil e este é um cenário que tem de ser urgentemente combatido, porque depois o à-vontade confunde-se com o ‘nacional-porreirismo’, tipo ‘bora-lá-conversar-aqui-como-se-estivéssemos-em-casa. E não se pode estar na televisão como se está em casa.
E como se combate isso?
Com formação específica. Ser apresentador de televisão é uma profissão, como é ser jornalista, como é ser médico ou professor. Tem de haver formação específica. As pessoas têm de estudar. Cada vez mais é assim. É verdade que os grandes apresentadores de antigamente foram muito autodidactas, mas hoje as coisas exigem um outro rigor, uma outra aprendizagem. Há técnicas para estar em frente às câmaras, para falar na televisão.
E também há técnicas para representar, como acontece consigo agora na ‘Ferreirinha’, que a RTP estreia dentro de dias. Ser actriz continua a ser uma prioridade para si?
É a minha prioridade.
Sente-se mais actriz do que apresentadora?
Não. Sinto-me igualmente actriz e apresentadora. Gosto de fazer ambas as coisas. Mas crescer como actriz é a minha grande prioridade. Eu sei que jamais seria capaz de abdicar da representação e mais facilmente conseguiria abdicar da apresentação.
Sim, mas o seu ‘glamour’, o lado brilhante da sua vida é-lhe dado pelo facto de ser apresentadora, não actriz. Portugal não é Hollywood…
(risos) Sim, eu sei, mas o ‘glamour’ não é tudo. Eu estou consciente que se tenho uma vida financeiramente estável, que me permite fazer aquilo que me apetece, devo-o à televisão, mas, muito sinceramente, não me sinto escrava das minhas conquistas. Tudo na minha vida foi conquistado com trabalho, com consciência, com realismo, mas é muito efémero. E eu tenho os pés muito assentes na terra.
A ‘Ferreirinha’ é mais um passo no seu crescimento como actriz?
Quero acreditar que sim. Senti isso. E espero que os outros também o sintam.
A opinião que os outros têm de si é muito importante para si?
Eu acho fantástico quando ouço algumas pessoas a dizer que estão a marimbar-se para o que o público pensa. Não pode ser verdade. Nós trabalhamos para o público. Eu respeito muito a opinião das pessoas.
E o olhar da crítica? A sua estreia como actriz, na novela ‘Ganância’, foi muito criticada…
Sim, mas a ‘Ganância’ era um mau produto, portanto é natural que tenha sido criticada. De qualquer forma, a crítica utilizou-me como bode expiatório. Isso irritou-me muito, porque achei que era injusto. Não correu bem, mas aprendi muito.
APRENDER A SER ACTOR
Mas sente que, por causa da avaliação que fizeram ao seu trabalho na novela, a responsabilidade de ter de provar mais? É mais um passo para ‘calar’ a crítica?
Hoje em dia já não sinto isso. O teatro deu-me um contacto muito diferente com a realidade. Eu já fiz sete peças de teatro, não é tão pouco assim. Eu fui estudar representação para Londres. Eu tenho trabalhado para me aperfeiçoar. Estou sempre a aprender, claro, mas não sou uma iniciada, não caí de pára-quedas. Tenho lutado por isso.
Essa afirmação ‘não caí de pára-quedas’… tem muito que se diga.
Tem, claro que tem. Não acho normal a quantidade de actores que estão a representar sem qualquer tipo de formação, a passar à frente de ‘n’ gente que tem formação e está desempregada.
De quem é a culpa?
É das estações e das produtoras, claro. Esta voragem pela ficção, que depois produz coisas de pouquíssima qualidade. Os actores não podem ser bons se não aprenderem. Depois, obviamente são exploradíssimos, porque, como ninguém os conhece, ganham pouco e sujeitam-se a tudo para ter um papel. É um escândalo. E isso não pode dar bons resultados em termos de qualidade.
E a ‘Ferreirinha’ é uma ruptura com esse tipo de ficção?
Ai, sim, claramente. É muito diferente, ao nível de texto, de narrativa, de realização, de cenários, de representação. E é importante que os portugueses voltem a interessar-se pela sua História. Os brasileiros adoram as suas ficções históricas, não há razão para ser diferente por cá.
LIBERDADE E PRECONCEITOS
São muitos ainda os preconceitos…
Sim, os portugueses têm muita coisa mal resolvida na sua cabeça. Acho que Portugal se devia deitar no divã para fazer psicanálise. Porque temos muitas coisas metidas na nossa cabeça que não saem. Para o bem e para o mal. Somos muito passivos, não nos revoltamos, não nos inconformamos. Às vezes, penso que devíamos ser um bocadinho como os franceses, mais ‘nariz no ar’, mais arrogantes, mais defensores do que é nosso. Quando foi o ‘Big Brother’ lá em França, os franceses manifestaram-se e o programa não teve o mesmo sucesso.
E nós…
… nós ‘papamos’ tudo e vamos continuar a ‘papar’. Estas e outras coisas maravilhosas que aí vêm, do melhor que há para educar as nossas crianças. Vou dizer uma coisa terrível, que eu própria objectivamente nem desejo, mas às vezes, penso que devia haver alguém que zelasse por um certo bom gosto. A Liberdade é sempre um pau de dois bicos…
Isso é um conceito muito polémico, o de cultivar o gosto, educar o povo, muito ao estilo Estado Novo…
(risos) Sim, eu sei, e portanto, não me interprete mal. Eu estou a desabafar, não estou a defender o regresso do lápis azul. Atenção, que fique bem claro. Mas às vezes ficou assustada com as coisas que vejo na televisão…
Como por exemplo?
Olhe, nas novelas portuguesas, os argumentos deviam ser muito mais rigorosos, muito mais exigentes e interessantes. Eu sei que esta minha entrevista vai ser muito criticada por muita gente, mas eu assumo o que estou a dizer.
Mas os portugueses gostam dessa programação?
Não, os portugueses vêem essa programação, não está provado que gostem. É o que têm! Acho que devíamos todos fazer um esforço por uma televisão melhor. Se a Globo é capaz de fazer coisas com qualidade, nós também temos de ser. Não somos piores....
“NÃO ABRO MÃO DA MINHA INTIMIDADE”
A gestão da sua vida privada nem sempre tem sido fácil, com constantes abordagens à sua intimidade. Como é que gere isso?
Com absoluta naturalidade. Eu sei que há curiosidade das pessoas, mas eu nunca falei da minha vida privada. O nosso sucesso (o meu, o seu, o dos donos deste restaurante…) tem de vir do nosso trabalho, não de andarmos a abrir as portas da nossa vida e da nossa casa. Eu estou muito bem com a minha consciência, porque desde o primeiro minuto preservei a minha vida. Portanto, só peço respeito e, modéstia à parte, acho que mereço esse respeito.
No limite, todas as pessoas merecem esse respeito…
Sim, mas, sejamos claros: há figuras públicas que se colocam a jeito. Que falam alto, que contam as coisas, que sussurram, que passam mensagens a dizer que vão estar no sítio ‘x’ às tantas horas, que abrem as portas da casa, que vão viajar à conta de não sei quem. Nós sabemos que é assim. Eu nunca fui assim. Eu não abro mão da minha intimidade.
E como é que reage quando vê as capas das revistas que falam da sua vida?
Não vejo, tenho quem veja por mim. Mas é que não vejo mesmo. Há quem pense que me estou a armar em boa, que estou a fazer género. Não, não vejo mesmo. Depois tenho quem veja por mim e que se encarrega de perceber se as mentiras que são publicadas sobre mim podem ser lesivas para a minha carreira profissional. E se forem, avanço para tribunal. E depois há outra forma de reagir: há revistas para as quais eu não dou entrevistas há anos. Nem darei. E por alguma razão estou a dar-lhe esta entrevista a si.
É essa a importância de ter um agente? É o seu.... filtro?
As pessoas têm uma ideia um bocadinho estranha dos agentes, acham que é um vedetismo da minha parte, ou que é uma forma de me tornar mais inacessível. Não, o agente é um amigo, que defende o meu trabalho com unhas e dentes, que me trata de assuntos com os quais não tenho de me preocupar. Faz algum sentido ser eu a tratar de ‘cachets’ ou de ordenados? Não faz. O agente é um profissional e além disso é um amigo. Eu trabalho com o Rui (Calapez) há muitos anos e somos muito amigos. Ele tem sido imprescindível na minha carreira.
A SOLIDARIEDADE
Depois da ‘Ferreirinha’, vai dar a cara por um programa de solidariedade social. Como vai ser?
Vai ser semanal, com cerca de 50 minutos, é uma ideia da RTP, do Nuno Santos, e sinto-me muito feliz pela direcção de programas se ter lembrado de mim. É um programa com histórias de vida, que vão servir de estímulo ao voluntariado social. É um verdadeiro serviço público.
E que se liga com a sua vocação humanista, já que a Catarina é embaixadora das Nações Unidas…
É um projecto que tem a minha cara. Eu hoje tenho muito mais consciência de todo este trabalho de milhares de pessoas, um trabalho anónimo, de entrega e amor. Tenho visitado países em vias de desenvolvimento e tenho constatado que há muito para fazer nesta área. E que as ONG têm de ser apoiadas. Este programa, que deverá arrancar lá para Outubro, vai ter muita componente de reportagem e vai dar a conhecer esta gente e a sua obra.
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