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Sexo invade televisão europeia

O número de canais dedicados à programação para adultos disparou em 2004, quase alcançando os canais informativos.

14 de outubro de 2005 às 00:00

O ano de 2004 registou um crescimento espantoso no domínio do lançamento de novos canais no continente europeu, algo a que não se assistia desde meados da década de 90. Neste contexto, a pornografia é o género que registou maior crescimento durante o último ano. Esse é o resultado de um estudo efectuado pela ‘Screen Digest’ e tornado público há escassas semanas. O número de novas estações com conteúdos dirigidos ao público adulto ascende a 28. Mais do dobro dos que foram lançados em 2003: onze. Portugal mantém um número modesto neste domínio: apenas três canais, o Vénus (agora no lugar do Sexy Hot), o Playboy TV e o Íntimo (na frequência do Canal Viver) emitem na nossa rede por cabo. No entanto, a televisão portuguesa reforçou recentemente a sua programação dedicada aos temas da sexualidade e ao ‘Estes Difíceis Amores’, na RTPN, junta-se agora o ‘AB... Sexo’ na TVI.

Actualmente, os espectadores europeus têm a possibilidade de aceder a um total de 84 canais pornográficos, um número ligeiramente inferior aos 93 canais de informação existentes. Há dez anos, apenas três canais europeus se dedicavam à pornografia. Guy Bisson, o autor do estudo da ‘Screen Digest’, atribui o crescimento deste género aos baixos custos de produção implicados. “Para produzir a maioria destes canais, só é necessário um par de actores, um sofá e um ‘plateau’ do tamanho de uma pequena sala”, afirma. Segundo Bisson, a pornografia é tão barata de produzir que mesmo enchendo uma grelha de programação de 24 horas, “tal como acontece com os canais de televendas, são capazes de recuperar o investimento em menos de um ano”, enquanto outros tipos de canais, “direccionados a um público dito maioritário, podem demorar até cinco anos.” O investigador também encara o ‘pay-per-view’ e a combinação de tarifas ‘Premium’ para chamadas telefónicas como factores que contribuem fortemente para a expansão da pornografia enquanto género televisivo. A viabilidade financeira do negócio da pornografia é reforçada pela internet. Desde o início do ano que se encontra na rede um ‘site’ que oferece o acesso a notícias, ‘sitcoms’ e ‘reality shows’ de forma gratuita. O Adultinternet.tv sustenta-se como a televisão de sinal aberto: através das receitas de publicidade.

Contactado pela Correio TV, o sexólogo Francisco Allen Gomes rejeita que este crescimento se prenda com uma alteração de mentalidades. “Sempre houve pornografia e o desenvolvimento é natural. Vai-se infiltrando pouco a pouco até se estabilizar na sociedade”, afirma. E a verdade é que o rápido crescimento do género pornográfico não significa a sua aceitação social, como se constata pelas polémicas que surgem pontualmente. É o caso da França, onde um produtor local – curiosamente, também escritor de novelas e contos infantis – contesta a pretensão de algumas associações em banir o género dos ecrãs de TV. John B. Root, Jean Guillore de seu verdadeiro nome, em carta aberta publicada no diário ‘Liberation’, defende a pornografia enquanto bem cultural e um dos frutos do Maio de 68. “O objecto da pornografia é o amor físico e o tema já proporcionou inúmeras obras-primas da pintura, escultura e literatura”, diz o produtor.

Em Portugal, a polémica estoirou com a exibição de ‘Império dos Sentidos’ na RTP 2, em finais dos anos 80. E talvez por isso, a pornografia manteve-se ausente do ecrã televisivo. A SIC arriscou um pouco no início das suas emissões, mas o risco ficou-se pelo erotismo de uma novela da Playboy. Só com a chegada do cabo, a pornografia se generalizou. No entanto, os programas sobre sexualidade foram chegando à TV. Júlio Machado Vaz foi o pioneiro em Portugal com ‘Sexualidades’. Corria o ano de 1990 quando os portugueses foram pela primeira vez confrontados com a sua sexualidade. “Era o primeiro programa regular sobre o tema na televisão portuguesa”, recorda o sexólogo. Entre esse programa e o ‘Estes Difíceis Amores’, actualmente exibido na RTPN, Júlio Machado Vaz encontra diferenças. Precisamente porque se tratava do primeiro do género em Portugal e pela sua “intenção de o tornar moralmente digerível pela maior audiência possível”, o ‘Sexualidades’ “tinha uma vertente muito mais didática” do que o programa que partilha com Leonor Ferreira e com a Professora Gabriela Moita. “Vai daí... fi-lo o melhor que pude, mas não me diverti como divirto agora. A linguagem era a minha, mas bem mais circunspecta do que a actual, seja na rádio ou na TV”, diz. “Quanto à importância do programa... não me cabe a mim julgar”, conclui.

Actualmente, a TVI exibe ‘AB... Sexo’, um formato inspirado no espanhol ‘Dos Rombos’, um êxito exibido na TVE. Por cá, o programa apresentado por Marta Crawford vai conquistando o seu espaço e apresenta resultados muito bons para o horário em que é emitido.

CANAIS PARA ADULTOS

A chegada do cabo a Portugal abriu a porta. O brasileiro Sexy Hot foi o pioneiro, seguido, pouco tempo depois, pela Playboy. Recente-mente, o argentino Vénus substituiu o Sexy Hot.

BRITÂNICOS TÊM MAIOR ESCOLHA

Em emissão. O mercado britânico é dominado pelo grupo de Richard Desmond com um total de doze canais, seguido pela cadeia norte-americana Playboy, com seis. O país que segue o Reino Unido é a Alemanha que, ainda assim, conta com apenas seis canais.

CONTEÚDOS VIA TELEMÓVEL

A tendência das feiras ligadas ao mundo do sexo é a venda de conteúdos para telemóveis. E as empresas de consultoria dão parecer positivo ao negócio. O Yankee Group prevê um volume de negócios anual a rondar 1 bilião de dólares. A Visiongain arrisca os 4 biliões.

LARRY FLYNT QUER LANCAR CANAL DE TV NA EUROPA

O conhecido barão da indústria pornográfica, Larry Flint, que já foi alvo de um filme biográfico realizado por Milos Forman, pretende que a sua estação de televisão para adultos, a Hustler TV, comece a emitir no espaço europeu. Para esse efeito, a sua produtora, a LFP Broadcasting, já assinou um protocolo com a distribuidora de canais para adultos Total Media. Até agora a Hustler TV limitava-se a emitir nos mercados canadiano e norte-americano. Também a ‘Penthouse Media’ anunciou recentemente a pretensão de lançar canais em formato ‘video-on-demand’.

SENSUALIDADE SEM TABUS

Marta Crawford enfrenta as câmaras de TV para desmontar os segredos do sexo. E está feliz por não ser reconhecida na rua.

Para Marta Crawford, mais difícil do que falar de sexo foi entrar no estúdio e enfrentar as câmaras. Mas à medida que as edições do programa ‘AB…Sexo’ se sucedem nos serões da TVI, mais à vontade ela se sente no universo da televisão onde se estreou como apresentadora. “Cada apresentação” é uma aprendizagem. Lá para a última edição estarei óptima”, diz. As “muitas cartas, ‘mails’ e telefonemas” que o programa recebe provam à terapeuta que o “balanço do ‘AB…Sexo’ é positivo”. Só o horário tardio parece deixar alguns telespectadores insatisfeitos. “A questão do horário transcende-me. Sei que há gente que grava o programa, mas isso implica não poder participar”, explica. A terapeuta, professora e formadora, rejeita a crítica de alguns que entendem ser o original espanhol mais didáctico do que o ‘AB…Sexo’. “A abordagem é muito parecida com a da apresentadora espanhola. Os espanhóis têm é uma forma mais informal de comunicar, daí ter-se adaptado o formato aos portugueses”. Mais entusiasmada com a participação do público nas últimas edições do programa, Marta Crawford afirma: “Se na primeira edição do programa havia muitas reservas, na segunda o público foi mais participativo. E quanto mais perguntas houver, mais agradável é estar no estúdio”.

Apesar das audiências não fazerem parte do seu trabalho, a apresentadora conta já ter percebido “a importância dos números”. E sublinha: “Para mim, mais importante do que o share é estar a passar a alguns portugueses uma informação que os pode ajudar a viver a sexualidade com alegria, de uma forma natural e positiva”. Avessa a rotinas, diz não ser “pessoa para ter um horário das nove às cinco”, a apresentadora congratula-se de ainda não ser reconhecida na rua. “Não tenho massas a correr atrás de mim. Assim está óptimo. E as pessoas não me reconhecem, porque no dia-a--dia uso óculos”. Marta Crawford, que dá consultas de sexologia, é também técnica superior no Instituto de Emprego e Formação Profissional, onde por causa do ‘AB... Sexo’ pediu uma licença sem vencimento. Docente no Instituto Piaget, organismo onde se preparava para leccionar a cadeira de Terapia Familiar, Marta Crawford resolveu adiar a disciplina para o segundo semestre também por causa do programa que agora apresenta em directo na TVI.

FILHOS SÃO OS MAIS CRÍTICOS

Marta Crawford começou no teatro aos 15 anos e foi nos palcos que conheceu o marido, de quem tem dois filhos. Director da Casa da Comédia, Filipe Crawford escusou-se a comentar o desempenho da mulher com quem fundou, nos anos 80, o grupo Meia Preta. “Obviamente, assisto ao programa”, disse apenas. Nos filhos, de 9 e 13 anos, a apresentadora tem os “mais atentos críticos”: “Eles gravam e vão vendo bocadinho aqui, bocadinho ali. Em casa sempre se falou de sexualidade”.

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