Trabalhadores dizem não poder compactuar com práticas de normalização cultural que contrariem valores fundamentais da dignidade humana, dos direitos humanos e direito internacional.
Os trabalhadores da RTP exigem numa carta aberta que a RTP não participe, nem transmita o Festival Eurovisão da Canção 2026 perante o agravamento da situação no Médio Oriente, incluindo violência extrema contra civis.
Numa carta aberta a que a Lusa teve acesso, dirigida ao presidente do Conselho de Administração da RTP, Nicolau Santos, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e à ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, os trabalhadores apelam ao boicote à participação de Israel no Festival.
Os trabalhadores da RTP dizem não poder compactuar com práticas de normalização cultural que contrariem valores fundamentais da dignidade humana, dos direitos humanos e direito internacional.
"Permitir a participação de Israel num evento que se apresenta como celebração da paz, diversidade e união entre povos representa uma afronta às vítimas, uma tentativa de branquear crimes e uma instrumentalização cultural que o Serviço Público português não deve, não pode e não irá legitimar", sublinham.
Na missiva, lembram que em dezembro, num plenário geral de trabalhadores, expressaram por escrito o repúdio pela posição assumida pelo presidente do Conselho de Administração da RTP, na Assembleia Geral da UER [União Europeia de Radiodifusão], ao aceitar a manutenção da participação de Israel no festival.
"Desde então e de forma incompreensível à luz do agravamento da situação humanitária e do direito internacional, essa decisão mantém-se inalterada, ignorando a posição expressa pelos trabalhadores do Serviço Público", realçam.
Os trabalhadores recordam igualmente que a RTP apoiou a decisão da União Europeia (UER), em 2022, de excluir a Rússia do festival perante a invasão da Ucrânia.
"Hoje, perante a sucessão de acontecimentos no Médio Oriente, que incluem violência extrema contra civis, deslocações forçadas em massa, destruição deliberada de infraestruturas civis e campanhas persistentes de desinformação, não é possível permanecer em silêncio", sublinham.
Por isso, os trabalhadores apelam a que a RTP não participe nem transmita o Festival enquanto persistirem condições que configuram graves violações dos direitos humanos ignoradas pela União Europeia de Radiodifusão.
Apelam igualmente a que o "serviço público português afirme, através desse gesto, que a cultura não serve para branquear crimes, nem para desviar atenções de ações condenadas pela comunidade internacional".
"Que esta decisão seja entendida como um compromisso ético com as populações vítimas de violência, deslocação e perseguição", referem na carta.
Destacam ainda que o boicote que propõem "não é um ato de censura cultural, é um ato de responsabilidade moral perante as políticas genocidas cometidas pelo Estado de Israel".
A 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, marcada para maio na Áustria, volta a ficar marcada pela participação de Israel, contestada devido ao conflito na Faixa na Gaza.
As semifinais do 70.º Festival Eurovisão da Canção estão marcadas para 12 e 14 de maio e a final para 16 de maio. Portugal, que este ano será representado pelos Bandidos do Cante com o tema "Rosa", atua na primeira semifinal.
Este ano serão 35 os países a competir na Eurovisão, após desistências de Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia, devido à participação de Israel no concurso.
Em abril, mais de 1.100 músicos, bandas e outros profissionais da cultura, de vários países, entre os quais figuram portugueses, apelaram numa carta aberta ao boicote do concurso, devido à participação de Israel.
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