Não há ‘galera’ portuguesa que resista incólume a quase 30 anos de ficção brasileira. Nos 'falares' do português de Portugal, nos nomes próprios, no Carnaval, na moda, na ginástica, na mesa e nas férias, o Brasil está cada vez mais perto
Baptizar os filhos de Carina, Valter, Solange ou Iracema. 'Malhar' no ginásio. Comprar limas e fazer caipirinhas. Comer uma picanha e depois manga à sobremesa. Saudar alguém com um ‘oi’ ou ‘tudo bem?’ e rematar uma conversa com um sonante ‘tchau’ passou a fazer parte do nosso quotidiano. Até em Fevereiro, em carnavais cada vez mais brasileiros, a ‘galera’ enfrenta o frio e a chuva ao ritmo do samba. Na Primavera, assistimos à corrida aos ginásios e nas férias da Páscoa e do Verão é ver milhares de famílias portuguesas rumarem ao Brasil para conhecer as dunas onde ‘Tieta do Agreste’ foi gravada, ou o Pantanal, região do Planeta quase desconhecida até ao dia em que a RTP exibiu, em 1991, a série com o mesmo nome.
Em 1977, com a chegada a Portugal da telenovela ‘Gabriela’, ainda mal se adivinhava que o percurso da televisão portuguesa e um estilo de vida e de consumo estava irremediavelmente condenado a alterar-se.
Com ‘Gabriela’, os romances de Jorge Amado tornaram-se ‘best-sellers’ na feira do livro e nas papelarias do País. Pela primeira vez, depois do 25 de Abril, uma obra de ficção superou em vendas as dos livros políticos. A música popular e o cinema brasileiro, esses, chegavam timidamente ao nosso país.
E com a profusão da ficção brasileira, começou a influência dos 'falares' no português de Portugal que, para a linguista Helena Mateus, "mais do que um prejuízo tem sido um enriquecimento linguístico”.
Num país de tradições, onde a maioria das mulheres se chamava Maria, as Carina e as Solanges, os Valters e os Fábios eram coisa estranha nas Conservatórias dos Registos Civis.
Em 1979, quando Carina nasceu, Elizabeth Savalla, protagonista da telenovela ‘Pai Herói’, era a heroína do momento. Não admira pois que a mãe de Carina se tivesse inspirado no nome da personagem para baptizar a filha. Mais ainda, no dia em que foi à Conservatória do Registo Civil, outras três Carinas haviam sido já registadas.
Hoje com 25 anos, Carina, enfermeira, comenta: “Gosto do meu nome. Só não reagi bem por saber que na família já havia outra Carina, a minha prima.”
Solange, assistente editorial, foi buscar o nome a uma actriz de um filme brasileiro pelo qual a mãe se apaixonou há 29 anos.
O nome era tão invulgar que os colegas na primária nunca deixaram de brincar. “Coisas de criança”, diz hoje Solange. E à semelhança de Carina, também Solange partilha o nome com uma prima. Prova clara de que a novidade onomástica agradou às famílias portuguesas.
Lúcia Lepecki, professora catedrática da Faculdade de Letras, conta que ainda há dias, em plena Lisboa, “uma mãe tratou a filha por Iracema. E mãe e filha eram bem portuguesas”, remata. A viver em Portugal desde 1970, esta docente brasileira recorda-se de como eram “muito tradicionais os nomes portugueses.”
“Além dos nomes, já reparou como o gerúndio se está a usar mais? E como o ‘tchau’ se divulgou?”, pergunta Lúcia Lepecki. “Ainda me lembro quando chegou a Portugal a primeira novela brasileira e como algumas meninas de uma certa burguesia lisboeta usavam o ‘tchau’, um pouco forçadamente, mas porque estava na moda.”
Sendo a língua portuguesa do Brasil apenas uma variante da língua de Portugal, como Helena Mateus e Lúcia Lepecki fazem questão de sublinhar, o que está também a acontecer “é assistirmos à recuperação de determinadas palavras do acervo linguístico de que já não nos lembrávamos e que os brasileiros usam mais”.
A MODA DOS GINÁSIOS
Além do ‘oi’ e do ‘tá’, expressões tão vulgarizadas entre as camadas mais jovens, o que em Portugal pegou também foi a moda dos ginásios, das caminhadas ao ar livre, e, mais recentemente, dos treinadores pessoais.
Quantas novelas e séries brasileiras nos exibiram cenários como os ginásios, as praias, ou o calçadão à beira-mar? Pedro Baptista, de 26 anos, treinador pessoal, não hesita em dizer que “cenas com gente bonita e alegre a fazer ginástica contagiam mentalidades.” O culto do corpo tornou-se um imperativo e são muitas as razões que levam uma classe alta e média alta a contratar Pedro Baptista. Por 25 a 30 euros por hora, o treinador pessoal ajuda os clientes, “dos 16 aos 80 anos”, a perder peso, ganhar massa muscular, corrigir problemas de coluna...
Outra treinadora pessoal, Sílvia Correia, estabelece uma diferença de motivação entre portugueses e brasileiros: “No Brasil, a preocupação é essencialmente estética. Em Portugal, é mais por uma razão de saúde que se procura um treinador pessoal.” E aponta o exemplo das doenças cardiovasculares.
Mas é também à mesa que o Brasil é uma realidade cada vez mais presente. Há dez anos, Alexandre Taborda abriu um restaurante em Lisboa que servia apenas um prato: picanha. Uma carne brasileira cujo nome e sabor eram até então desconhecidos dos portugueses. Apesar da novidade, o empreendimento foi um êxito: “Hoje em dia não há restaurante em Lisboa que não tenha picanha. Mas há dez anos o negócio foi uma lança em África. A carne é deliciosa e facilmente a ideia pegou.”
No restaurante, nas Janelas Verdes, sempre cheio, noventa por cento dos funcionários são brasileiros: “São uma mais-valia. Têm um à-vontade com o público que falta aos portugueses, e é gente que vem para Portugal para trabalhar com dedicação, tal como os portugueses quando emigram”, diz o empresário.
Também nas prateleiras dos supermercados, das frutas, ao talho, passando pelas bebidas e os congelados, não faltam produtos das terras quentes de Vera Cruz. E com a subida do euro e a desvalorização do real, até os produtos mais exóticos estão agora acessíveis à maioria das famílias portuguesas.
“Há dez anos ninguém conhecia o guaraná”, explica José Fortunato, director de marketing do Modelo-Continente. “As carnes do Brasil (picanha, maminha, alcatra, vazia), a lima, o pão de queijo e as frutas tropicais (manga, papaia, mamão) são produtos cujas vendas têm vindo a crescer muito significativamente nos últimos três anos. Por influência da televisão e das viagens que os portugueses efectuam ao Brasil”, esclarece.
O leite de coco, farinha de mandioca, o polvilho (ingrediente para confeccionar o pão de queijo), os sumos de fruta congelados são exemplo de outros produtos de origem brasileira que têm cada vez mais saída. E até o coco fresco, uma raridade em Portugal, é já possível encontrar nas grandes superfícies.
A tudo isto não é alheio o facto de uma viagem ao Brasil custar hoje menos do que há dez anos. “Uma realidade que tem muito peso no pacote turístico”, esclarece Eduardo Teixeira da Silva, responsável da Paneuropa.
“A influência das novelas é importantíssima. Assim como as paisagens que nelas se mostram. O mercado reagiu às praias exibidas em ‘Tieta do Agreste’ e as dunas móveis de Genipabú, no Rio Grande do Norte, passaram a ser muito procuradas. Assim como a região do Pantanal que depois da exibição, na RTP, da série com o mesmo nome, passou a fazer parte do calendário turístico”, acrescenta.
Os laços de afinidade entre os dois países e a queda do real face ao dólar e ao euro são outros factores que levam a que cada vez mais portugueses rumem ao Brasil.
Para Lilia Forte, chefe de agência das Viagens Top Atlântico, o Brasil é um destino turístico que está na moda. A grande procura começou há três anos, mas “2003 foi uma loucura”. E recorda um episódio passado: “Por causa da série na RTP, tive um grupo de clientes que quis ir ao Pantanal só para ver se ia encontrar aquelas paisagens que tinham visto na televisão.”
A MODA DA BARRIGA À MOSTRA
Também o universo da moda não passou incólume em quase trinta anos de ficção brasileira.
Paulo Azenha lembra-se bem das influências de ‘Dancin’ Days’ que levou à procura dos “ tecidos acetinados, dos tons vermelhos e dos leopardos. Um tipo de calça mais vocacionado para os momentos de desporto passou para as ruas e as pistas de dança”, explica. O conhecido estilista ainda recorda a fita que Sónia Braga, a protagonista da novela, que passou em 1980, na RTP, usava na testa: “A fita que tinha uma função utilitária no desporto passou a ser um acessório com uma função decorativa exibindo um estilo de mulher fatal.” Ao mesmo tempo surgiu o uso dos sapatos de saltos altos aliados às perneiras.
Mais tarde, já no final dos anos 90, o estilista aponta a moda das barrigas à mostra. “Ainda hoje o uso da barriga à mostra é sinónimo de uma postura de descontracção que não tem fronteiras entre estações, porque tanto surge na moda de Primavera/Verão, como na de Outono/ Inverno”. Com ‘O Clone’, lembra Paulo Azenha, “veio a moda dos brincos compridos, dos cabelos longos, soltos e encaracolados, a procura dos tecidos mais transparentes e a dança do ventre, que passou a ser ministrada em cursos”.
Actriz, realizadora e encenadora brasileira, Thaís de Campos escolheu Portugal para viver há quatro anos. E está feliz com a opção: “Os portugueses acolheram-me com um carinho especial, talvez por me reconhecerem das novelas. Sou muito feliz em Portugal.”
Quando chegou ao nosso país, Thaís de Campos, a intérprete de ‘Pedra sobre Pedra’ (1992) ou ‘Pecado Capital’ (1998) e que já dava aulas no Brasil, fundou a Arte 6, a primeira escola de televisão e cinema do nosso país bem sucedida. “Foi a facilidade da língua e a existência de mercado que me levaram a criar a escola. Curiosamente, mesmo os actores brasileiros que nunca visitaram Portugal conhecem o sucesso que as novelas fazem aqui, explica.”
Para a conhecida actriz brasileira, que chegou ao nosso país com uma filha de apenas dois anos e está novamente grávida, a tranquilidade foi também uma mais-valia que pesou na opção de se instalar em Portugal. “Há muitos anos que o Brasil vem chegando a Portugal. Desde a ‘Gabriela’. O importante é os países aproveitarem o que os outros têm de melhor”, sublinha.
Actriz de sucesso nos dois lados do Atlântico, Maria João Bastos, que há dias acabou de rodar um filme no Brasil, não encontra influências brasileiras na nossa ficção. “Em termos de produção, realização e interpretação tem-se desenvolvido um trabalho genuinamente português.
É verdade que têm chegado a Portugal muitos operadores de imagem e realizadores, gente que foge à violência, que vem procurar melhores carreiras, melhores condições de vida… Mas todo o intercâmbio que ajuda ao crescimento e desenvolvimento de um país é positivo”, remata a actriz.
A trabalhar há dois anos e meio no Brasil, Maria João sublinha como é cada vez mais visível a aproximação entre os dois países: “Cheguei a Lisboa carregada de sacos de chocolates Garoto, que adoro. Ontem, numa prateleira de um supermercado, vejo dezenas de caixas daquele chocolate… No Brasil, o fenómeno é idêntico. E Portugal, que era visto como um país atrasado e desinteressante, tem agora a imagem de uma nação europeia, desenvolvida, para onde todos querem vir.”
FICÇÃO NACIONAL FALHA NO BRASIL
A brasileira TV Bandeirantes apostou na ficção portuguesa e importou as séries ‘Olá Pai’ e ‘Morangos com Açúcar’ e a novela ‘Olhos
de Água’, da TVI. Mas desde que ‘Olá Pai’ se estreou no Brasil, em Janeiro, as audiências provaram que a ficção portuguesa não cativa os brasileiros, habituados a consumir a qualidade da TV Globo. Afinal, ainda falta muito para os portugueses ‘colonizarem’ a televisão brasileira.
BRASILEIROS E PORTUGUESES: ‘TUDO BEM MINHA GENTE’
Pela voz de Gabriela (da novela) inicia-se um caminho que vai muito para além das letras e das música: é a frase em diálogo, o discurso dos enredos e, com isso, expressões como ‘tudo bem’, ‘oi’ dão mais cor ao português falado em Portugal. O comércio e os serviços, em particular, enchem-se de trabalhadores brasileiros (hoje são mais de 25 mil legalizados), a maioria do nordeste, além de que muitos mais portugueses fazem férias no Brasil. Ampliam-se as fronteiras para além da língua, chega-se à comida e hoje estamos mais perto do coco na alimentação, a caipirinha já está nas listas, e.... o verde e amarelo unem portugueses e brasileiros nos dias de festa da selecção de futebol. Mas, sobretudo, para além da língua, fica também um recado, um aconchego de alegria e optimismo à alma melancólica do ser português, como que ao perguntarem-nos: ‘tá tudo bem minha gente?’ nos obriga, já, naturalmente, a responder: ‘é isso aí’.
(Luís Rodrigues, psicosociólogo e professor da Universidade Nova de Lisboa)
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