Bonitas, sensuais, de formas bem vincadas e expostas ao público. As mulheres sempre foram o fruto mais apetecido da televisão, mas a tendência é cada vez mais vincada. E à medida que o Verão se aproxima, mais elas despem a roupa. Sem medos nem preconceitos. Dando razão ao lema popular: o que é bom é para se ver.
Não é de hoje a veneração do público pelas curvas sensuais e femininas no ecrã. O cinema sempre adorou mulheres bonitas, como Marylin Monroe, Brigitte Bardot ou Nicole Kidman e a televisão rendeu-se aos encantos de modelos como Cláudia Schiffer ou Naomi Campbell e beldades brasileiras ao nível de Juliana Paes (‘Celebridade’) e Camila Pitanga (‘Mulheres Apaixonadas’). Por cá, Bárbara Guimarães e Catarina Furtado são as mais votadas quando se fala de sensualidade na TV, mas a lista engrossa com Alexandra Lencastre deitada em ‘Na Cama Com’ (SIC) ou Elsa Raposo a mostrar todo o seu ‘Sexappeal’ (SIC).
Agora surgem Fátima Preto, Raquel Loureiro e Marta Pereira, três intérpretes de ‘Maré Alta’ (a nova comédia de domingo na SIC), onde mostram os dotes físicos com que chegaram ao Mundo. E pelo mesmo programa desfilam também Ana Afonso, Carla Matadinho, Elsa Raposo, Núria Madruga, Rute Marques e as brasileiras Sílvia Pfeiffer e Valéria Carvalho. A receita parece infalível: no episódio de estreia, na semana passada, o novo programa arrebatou a liderança dos programas mais vistos.
BONITAS SEM PECADO
Gente bonita, bem cuidada e sem problemas em mostrar o corpo é o objecto mais desejado de uma estação de TV. E isto vale para homens e mulheres. Uma atitude que deriva da mudança de mentalidade surgida nos anos 80, “quando o corpo adquiriu, de forma inteira, o seu papel social”, explica o psicólogo e professor universitário Luís Reto. “Descendemos de uma cultura judaico-cristã onde o corpo era penalizado e pecaminoso. Mas o que era considerado um estigma transformou-se, precisamente, num estereótipo positivo. Quando se olha para tendências do consumo desde os anos 80, nota-se que a valorização do corpo aumentou e basta ver os produtos dietéticos, os 'bios' e os perfumes que enchem as prateleiras de supermercado ou a adesão ao ‘bodybuilding’ para notar essa preocupação”, refere à Correio TV.
Luís Reto conclui que a vontade de cuidar do aspecto físico surgiu porque “o corpo passou a ser, tal como antigamente era o intelecto e a espiritualidade, uma das vias de afirmação social. E nas nossas sociedades está inclusive a ultrapassar a outra”. Assim se explica o sucesso de modelos e apresentadoras de TV em áreas empresariais, políticas e até na realeza europeia, pois “o corpo deixou de ser visto como algo a esconder e passou a ser, antes, algo a exibir. E isso nada tem a ver com sexo”, destaca. “É sim, a afirmação de uma coisa que é tão natural existir quanto o resto.”
MULHERES OUSADAS
Que as mulheres estão mais ousadas, ninguém duvida. Na rua ou no parlamento, surgem cada vez mais roupas coloridas e transparentes, ombros à mostra e pernas ao léu. E figuras como Fátima Preto, Ana Afonso e Elsa Raposo já não têm problemas em assumir o seu corpo como “algo bonito”. “Isso tem a ver com a cultura”, opina Frederico Ferreira de Almeida, produtor da Fremantle e responsável pelo concurso ‘Um Sonho de Mulher – 2004’. “A televisão deu o primeiro passo e, quer queiramos quer não, as mulheres são sempre mais vistosas. A escolha de pessoas bonitas para o ecrã tem muito a ver com a agradabilidade visual que daí transparece.” E isso não depende só do aspecto. “Há pessoas que não são bonitas e funcionam bem em TV porque a sua personalidade sobrepõe-se.” No fundo, o que a televisão faz é “apresentar estereótipos que são muito valorizados”, refere Luís Reto. “A TV, como lugar de exposição, tenta capitalizar a divulgação desses modelos pelos padrões estéticos.” Trata-se “de um processo de aproveitamento linear dos padrões que hoje são socialmente valorizados.”
AURA PESSOAL
Afinal, que fenómeno é esse que uns têm e outros não? Ana Afonso, a loira da telenovela ‘O Teu Olhar’ (TVI), diz que “a sensualidade se lê na aura da pessoa. Não é um decote ou um corpo bem delineado, mas uma atitude. É algo natural que uns têm e outros não. E mesmo a beleza depende disso”, diz. “Não é por ter o nariz arrebitado ou os lábios mais carnudos, que umas pessoas são mais bonitas que outras.” E para dar exemplos fala da cantora Beyoncé, “que até tem o rabo grande” e do actor Jeremy Irons, “que transmite sensualidade através da sua obra”.
Já Frederico Ferreira de Almeida destaca Catarina Furtado como o expoente da sensualidade na TV portuguesa, mas salienta também os dotes de Bárbara Guimarães e vaticina grande futuro para Sílvia Alberto. Em sua opinião, as “portuguesas estão, regra geral, mais bonitas e mais cuidadas, e isso nota-se nas candidatas a Miss Portugal 2004”, diz. ”Elas estão mais próximas da mulher comum e cabe-nos, depois, trabalhar o ‘glamour’.”
PRONTAS PARA SEDUZIR
Longe vão os dias em que a beleza se tornava um incómodo como aconteceu à fascinante Marylin Monroe, que considerava o próprio corpo o pior inimigo da sua cabeça.
Aos 39 anos, Elsa Raposo admite que, “na sociedade em que vivemos, o facto de ser bonita já não é um estigma”. “As mulheres têm exactamente a responsabilidade de mostrar que, por serem mulheres, também são capazes de igualar os homens em capacidade de trabalho”, afirma à Correio TV. E defende até que ser bonito não chega. “Se a pessoa não está bem estruturada é como um boneco que fala.” Por isso foi convidada para apresentar ‘Sexappeal’ (SIC, 199), “pois representava a imagem da mulher madura, com filhos, sem preconceitos”. A manequim Fátima Preto considera que toda “a mulher tem um corpo bonito e é sensual no dia-a-dia. O que há é maneiras diferentes de ser sensual, umas destacam-se pelo corpo e outras pela personalidade”. E no que toca a oferta até reclama que é maior por parte dos homens: “Eles nunca podem usar vestidos curtos, mas uma camisa aberta a mostrar o tronco também é muito sensual.”
Também Ana Afonso reconhece que “os homens ganham terreno nesse campo”. “Isso acontece porque a sociedade, em geral, está mais à vontade. As pessoas não têm preconceitos e mostram o corpo sem ter a intenção imediata de seduzir fisicamente.”
“É o corpo a assumir a sua função integral, não pecaminosa, em termos de afirmação”, diz Luís Reto.
CÂMARA NAMORA MULHERES
“A câmara vai ao encontro do narcisismo das mulheres”. A opinião é de António da Cunha-Telles, realizador de ‘Kiss Me’ (2003), que marca a estreia de Marisa Cruz no cinema.
Cunha-Telles esclarece que “a maior parte das mulheres que passam bem no cinema são aquelas que, de alguma maneira, até são mais tímidas, pois a câmara protege-as e não são atingidas directamente.
É o fenómeno de espelho”. No entanto, cinema e televisão são mundos diferentes. “A televisão tem o lado directo, fantasmagórico e está mais ligado ao gestual, ao excessivo. Já o ‘glamour’ está mais ligado ao cinema, que funciona melhor como o espelho ideal.
“Filmar uma mulher bonita é um fenómeno complexo, pois passar essa imagem real para o cinema depende também da confiança que existe entre a mulher e o realizador. Há ali um acto quase de amor.”
A MULHER FUNCIONA MELHOR
Paulo Ribeiro, director do canal Fashion TV, diz que a imagem de uma mulher vale muito. “Elas são mais bonitas e o seu corpo é, sem dúvida, mais sensual. A moda é feita por elas e não é por acaso que só há 'top models' mulheres”, refere à Correio TV. No entanto, as mentalidades estão a mudar e “já não se usa a imagem feminina como há 30 anos. A publicidade tem cada vez mais homens modelos e a evolução da cosmética masculina mostra que há também mais procura”.
Gigi Marzulo é jornalista da RAI, a estação pública italiana, e tem um hobby: mulheres bonitas. No programa ‘Sottovoce’, exibido a altas horas da noite, Gigi – que estudou Medicina antes de se dedicar ao jornalismo – só deixa entrar beldades. Depois, a conversa gira sobre questões filosóficas e políticas, para mostrar que as suas convidadas têm mais que um palmo de cara. Podem ser loiras, morenas, jovens ou maduras. Vale tudo. Mas menina feia não entra.
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