"Desiludido" Rodrigo Guedes de Carvalho escreve sobre Cristina Ferreira: "Na vertigem da fama"
Jornalista criticou ainda a apresentadora por ter estado "no principal jornal no principal horário mais do que nobre" e ter-se recusado a pedir desculpa
Quase três semanas depois das polémicas declarações, Cristina Ferreira continua a ser visada por personalidades das mais variadas áreas. Desta feita, foi o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho que optou por comentar as palavras controversas que a apresentadora proferiu no dia 14 de Abril quando, na rubrica 'Crónica Criminal' do programa 'Dois às 10', da TVI, se comentava o caso de uma menor que foi violada às mãos de quatro influenciadores. Na altura disse: "mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve... claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: 'Não quero mais?'". As palavras geraram uma onda de indignação e mais de 4400 queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).
Ora, Rodrigo Guedes de Carvalho escreveu agora um logo texto no Expresso a dar a sua opinião sobre o assunto. O artigo, com o título de 'Cristina Antonieta' - numa analogia à rainha francesa Maria Antonieta - começa com muita ironia: "Quando Maria Antonieta se irritou com o povo faminto que pedia pão e o mandou comer brioche, inaugurava uma condição a que o futuro chamaria 'não saber ler a sala'. Não percebeu a brisa a tornar-se vento, nem que o aroma do ar dos tempos era já mais acre do que rosa. Quero crer que, em primeira instância, as famosas palavras de Cristina Ferreira sobre uma violação tenham sido 'apenas' uma encarnação da rainha distraída. Estava ali a falar e no calor do momento escapou-lhe uma expressão que soou a compreensão dos jovens meliantes criminosos. Cristina, vamos acreditar, não queria dar a entender que não achava grave a coisa. Saiu-lhe mal, ou nós é que vivemos tempos demasiado exigentes. Enfim, qualquer justificação por aqui, quem nunca?".
O jornalista critica também aquilo que foi a má gestão do tema por parte de quem tinha responsabilidade de lidar com ele, afirmando-se, desiludido. As palavras são duras para com a apresentadora da TVI. "Acontece que o mais pesado problema está no depois. No passo seguinte. Na reação às reações. E é aqui que me desiludo, porque sempre ouvi à Cristina Ferreira aquela cantilena de pretenso empoderamento das novas guerreiras, que consiste em exibir por tudo e por nada eloquentes frases de T-shirt, 'Não interessa se cais, é a maneira como te levantas que te define'. Tínhamos aqui uma óptima oportunidade de a ver praticar os sermões com que educa seguidoras. Mas preferiu outro caminho. O que, bem vistas as coisas, é mais coerente com o rasto que vai deixando: ela em primeiro lugar, depois todos os outros, depois tudo o resto", escreve.
"Cristina ficou de orelhas a arder nas redes que domina como ninguém. Acontece a todos, com maior ou menor impacto na história de cada um, sendo que a visibilidade, fama e proveito de Cristina são um impacto nacional. Seguiu-se, se bem se recordam, um período considerável de silêncio... Após algum suspense, surge um comunicado, não dela mas da empresa onde se passou o momento infeliz. De Cristina ainda só um enigmático e raro silêncio", apontou ainda.
Mas Rodrigo Guedes de Carvalho foi mais longe e não deixou passar em branco a entrevista que a apresentadora concedeu a José Alberto Carvalho no Jornal Nacional, da TVI, onde se recusou a pedir desculpa. "A reação estava a ser pensada em grande e sem grande preocupação de pudor. Para o tamanho de Cristina, só a cadeira onde se sentaram tantos dos mais altos representantes da nação: em frente ao jornalista que apresenta o principal jornal no principal horário mais do que nobre. Cristina demora a reagir, mas quando vem, é para falar ao país", escreveu, referindo-se em especial ao momento em que Cristina Ferreira preferiu mais falar de "lamento" do que de desculpas. "O lamento final da entrevista não vem de agora. Está em linha com a narrativa antiga de perseguida por invejosos que lhe querem mal, o discurso com que dirige a orquestra de fãs incondicionais. Qualquer malvado que ouse criticar Cristina tem é dor de cotovelo, porque não é famoso nem rico como ela, nem vai ali às Bahamas só um fim-de-semana, com fotos e tudo a comprovar. A resposta-padrão às críticas vem de trás, está preparada há muito nas conversas de palco pelo país, em traje de influenciadora-educadora, a convencer as multidões de que 'todos podemos tudo, basta acreditar nos sonhos', ou no livro que era um pretenso manifesto de revolta feminista contra a violência do insulto nas redes sociais... José Alberto Carvalho pergunta-lhe se quer aproveitar para pedir desculpa. Não quer. Não dirá a palavra. Apenas lamenta que sejam tão injustos com ela, que interpretem mal os seus abnegados pensamentos".
Em jeito de conclusão, o jornalista remata: "Tudo isto seria apenas ridículo se não fosse de ampla e grave repercussão. Com uma enorme exposição pública vêm grandes responsabilidades. Há muito que, na vertigem da fama, Cristina sente que é uma mãe e irmã dos portugueses, e também psicóloga-terapeuta-conselheira. Que escolheu dizer às meninas e mulheres deste país que quando os rapazes começam a violar ficam um nadinha cegos e surdos. É deixá-los acabar, e já passa".
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