'Tradição' já está editado entre nós e revela uma fadista de volta aos fados tradicionais e a versar sobre perda e desapego.
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Sim, foi mesmo uma necessidade minha. Já queria fazer este disco há muito tempo. Os fados tradicionais têm este fascínio de poderem ser cantados várias vezes e sempre de maneira diferente, um pouco como o jazz. Eu sou fadista e queria mesmo dedicar um álbum à tradição porque é a minha grande paixão. É aquilo que eu levo lá para fora maioritariamente. Eu sou mesmo apaixonado pelas tradições.
Corre, sobretudo quando se viaja muito pelo mundo e se começa a fazer muitas fusões com as várias músicas do mundo. Isso aconteceu comigo, por exemplo, em Cabo Verde, Moçambique ou Brasil. Quer se queira quer não, acabamos influenciados. Tenho um álbum em que eu compus uma coladera sem sequer me aperceber. Nós trazemos o fado no sangue, mas vamos bebendo daqui e dali. Para quem viaja muito e leva o fado para muitos lugares e cruza-se com tantas culturas e com tantas fusões musicais pode realmente haver um sabor especial neste disco. Foram 15 anos de carreira a viajar e sabe-me bem agora ouvir este álbum por ele ser completamente tradicional. Aquilo que está aqui é só nosso. Em termos musicais é completamente português.
Eu não gosto nada de escrever por obrigação. Acho que a inspiração é mesmo uma canalização. Às vezes, quando quero escrever, fico ali muito tempo de volta de um poema, às vezes semanas. Outras vezes, simplesmente sento-me ao piano e começo a tocar e a cantar logo o esqueleto da música. Começa logo a sair a letra. E a inspiração é quase sempre daquilo que eu vivo ou observo. Tem sempre esta verdade. Por exemplo, quando vou no avião, a olhar as nuvens, escrevo imenso. A natureza ou a praia também são lugares que me inspiram muito, assim como o banho, que é quase um local de meditação. Eu já saí do banho a cantar uma música, fui buscar o meu telemóvel, gravei e voltei para o banho. Eu acredito que nós somos canais das nossas vivências.
Nos últimos anos passei por uma morte e por um desapego muito grande. Foi um mergulho nas sombras, mas que me trouxe muita inspiração. A dor faz-nos às vezes refletir e parar. Portanto eu escrevi muito sobre aquilo que vivi nos últimos dois anos. E agora só me apetece escrever sobre coisas lindas e coisas maravilhosas, sobre a vida. Há uma canção que se chama 'Vou vou escrever um poema Inteiro Só sobre os teus Olhos' que já é para o meu namorado novo [Manu]. Mas também há canções que têm a ver com o desapego como 'O Também te Amo' que foi escrita quando me separei. O 'Saudade que é Saudade' também tem muito a ver com o nós querermos muito uma coisa, mas a vida nos tirar essa coisa porque não era para ser e porque tinha um presente maior para nos dar. Vivi tanta coisa nestes últimos dois anos.
Completamente. Quando era nova eu era muito tímida e não falava muito. Dava muitos conselhos às minhas amigas mas nunca falava sobre mim. Qualquer coisa, elas diziam sempre: "Vai falar com a Cuca!", como se eu fosse a psicóloga delas. É engraçado porque depois eu acabei a estudar psicologia. Mas sobre as minhas coisas eu nunca falava com ninguém. Guardava e então escrevia. Tenho muitos livros escritos e costumava dizer que eles eram os meus melhores amigos.
Sim, tenho uma catrefada deles, daqueles livros cheios de estrelinhas. Ou seja, para mim a escrita, mais do que uma purga é o meu melhor confidente. E da máxima confiança. No caso das minhas canções muitas vezes são respostas e às vezes só com o passar do tempo é que eu venho a aperceber-me disso, da sua mensagem. Muitas das minhas canções acabam por ser sinais para mim mesma daquilo que eu estou a viver ou que vou viver muito em breve.
Torna (risos). É mesmo isso.
Não, não choro. Eu sou uma chorona, ma já tenho alguns truques. Às vezes faço assim uma respiração profunda. Acho que até foi o ioga que me trouxe isso. Mas muitas vezes não consigo e choro mesmo. Estamos a falar da emoção. Eu sinto muito aquilo que canto em palco. Às vezes antes de começar a cantar estou, por exemplo, cheia de frio porque é inverno ou estou muito cansada porque fizemos não sei quantas viagens e estou com Jet lag , mas assim que eu entro em palco, esqueço-me de tudo. Isto acontece-me há 15 anos.
Eu acho que é mesmo o meu propósito de vida, é a minha paixão. É estar alinhada com o meu propósito. Em palco é como se passasse para outra dimensão. É uma alquimia. O canto leva-me a lugar esotéricos. Por isso é que para mim o palco é um lugar sagrado. Por isso é que eu nunca entro num palco sem me acalmar um bocadinho ou sem rezar. Depois enquanto canto há sempre uma velinha acesa no meu camarim que eu acendo antes e apago no final, depois de agradecer. Peço sempre aos meus anjos e aos meus santos.
Eu acho que por onde fosse iria sempre parar ao fado. Eu nasci numa família onde não se ouvia fado, os meus amigos não ouviam fado e nem havia casas de fado no sítio onde vivia [Estoril]. Aquilo veio do nada, um dia numa saída à noite com amigas.
Sim, o Carlos Zel era pai de um amigo meu de um grupo do Coro do Estoril. E então ouvia-me a cantar na igreja e um dia disse-me que eu tinha uma voz especifica para cantar o fado. E então aconselhou-me a ir aprender fados. Havia uma canção da igreja que era 'O Recado' que era assim meio fado e ele ficava maluco (risos). Ou seja, já havia qualquer coisa dentro de mim.
Ele é muito bom e literalmente abriu a boca agora. Ele ainda tem muito pra aprender mas acho que já tem uma coisa, assim especial. No meu espetáculo no Meo Arena ele só quis tocar piano e não quis cantar. Mesmo em casa ele não cantava à minha frente e eu não sabia que ele tinha esta voz. De repente começo a receber mensagens da família do pai dele, das tias, e elogiarem o Lopo. Ele andava a cantar nas festas todas da família do pai e nunca cantava nas minhas. Um dia recebi um vídeo dele e comecei a chorar. Ele tem mesmo uma voz e um timbre muito bonito. Eu farto-me de chorar a ouvi-lo.
Agora, acho que ele já está mais do que convencido a cantar, mas quer muito ir para fora estudar para seguir canto e música. Quer ir para os Estados Unidos. Vai terminar agora 12º ano e já anda a ver Universidades. Para ele, ir para viajar é a coisa mais natural porque sempre viajou muito comigo desde pequenino. Sempre se interessou muito pelo mundo e nunca vai ficar por cá. E a Benedita vai mesmo pelo caminho. Ela é toda artista.
Acho que ele não gosta. Acho que ele é mais assim tipo um Elvis (risos), com aquela voz grave. Mas é engraçado porque ele ouve muita coisa e também gosta muito de rap.
(risos). O Manu é tipo um surfista que faz ioga e que está completamente noutro planeta. Há tempos disse-me que foi abordado por uns senhores que lhe perguntaram por mim (risos). Eu nunca tive nada a esconder da imprensa. Eu sempre fui uma romântica, sempre quis casar para sempre e criar uma família. A vida não me trouxe aquilo que eu sonhei nesse aspecto, mas sempre que me tira, depois também me traz algo logo a seguir. Eu estava super feliz com a família que tinha e ia ficar eternamente com ela, mas as coisas nem sempre acontecem como desejamos. Agora, vejo no Manu e na nossa relação uma fluidez e uma coisa divina. É mesmo uma relação muito bonita, de um respeito muito grande. Nós gostamos também os dois muito de ioga, praticamos e meditamos muito os dois juntos. É uma coisa mesmo boa, muito serena.
Primeiro achou um bocado estranho. Ele vem de um mundo muito dele, muito simples. Ao início perguntava-me até o que devia vestir (risos). Eu adoro essa simplicidade dele porque eu também a tenho. Mas acho que ele é tão puro que acaba por se adaptar.
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