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João Mota: “Acordo, bebo café, escrevo. Nunca fiz planos para escrever livros”

Dedicado à Psicologia, o ator acaba de publicar o seu livro de estreia e de anunciar que vai ser pai.

27 de junho de 2026 às 19:49

O grande público conheceu-o em 2011, quando venceu a segunda edição de ‘Secret Story’, na TVI. Logo a seguir, tornou-se rosto familiar no pequeno ecrã, entrando em séries como ‘Morangos com Açúcar’ (TVI)ou novelas como ‘Água de Mar’ (RTP) ou ‘Espelho d’Água’ (SIC). Agora, dá-se a conhecer noutra faceta: a de escritor. Era um sonho que tinha? Escrever um livro?

– Na verdade, não. Nem sequer escrevi para ser lido. Escrevi os textos agora reunidos no volume ‘Tudo o que nunca te disse, meu amor’ [Contraponto] porque tinha de os escrever. Por desabafo. A certa altura, a editora marcou uma reunião comigo e desafiou-me a escrever. E eu tinha esse material pronto. Entreguei-o. E foi aceite.

– Era um facto conhecido, o de que escreve por hábito?

– Era sabido que, depois de me ter afastado dos holofotes para me poder dedicar à Psicologia, criei, na Universidade, um Clube de Poesia. Na verdade, uma oficina de escrita criativa, que correu tão bem que acabou por extravasar para fora da universidade. Estive em vários pontos do País com o Clube de Poesia e correu sempre muito bem. A editora, sabendo disso, deve ter-se perguntado: vamos lá ver se ele escreve alguma coisa...

– O que entregou estava pronto para ser editado?

– Teria, talvez, uns 80 por cento dos textos terminados. Acabei por ir escrevendo mais, à medida do que ia sentindo. Ajudou-me um bocadinho a descansar da escrita da tese de mestrado. Uma escrita académica, científica… Escrever os meus pensamentos, assim, de forma livre, ajudou-me a relaxar.

– Desde sempre que escreve?

– Sim. O texto mais antigo deste livro é, talvez, de 2015. Tenho mais, que não estão neste volume. Normalmente escrevo poesia. Mesmo se a forma é em prosa, a base é sempre poética. A poesia, para mim, é a expressão mais genuína daquilo que somos.

– Alguns dos textos parecem cartas que escreveu mas nunca enviou...

– Sim, compreendo. São palavras que não foram ditas no quotidiano.

– E antes de ser publicado, deu os textos a ler a alguém?

– Não. Um texto ou outro terei partilhado nas redes sociais.

– Ao ler o livro retemos a noção de que estamos em presença de um escritor em potência. Tenciona escrever mais? Dedicar-se a outros géneros? Poesia? Romance? Teatro?

– Não sei. Tudo isto é resultado de um processo espontâneo. Acordo, bebo um café. Leio. Ou então escrevo. Sem pensar muito. Nunca fiz planos para escrever livros e nunca me passou pela cabeça experimentar romances ou teatro. Se fizer sentido, talvez, mais tarde. Para já, não. Aliás, este livro também surgiu assim, sem plano.

– Já entregou a tese?

– Já entreguei, sim. Estou à espera do dia do julgamento. O dia em que a vou defender. Representa cinco anos de grande investimento da minha parte, canalizei grande parte do meu tempo e da minha energia nesse projeto.

– Qual é o tema?

– O impacto que o vínculo aos animais de estimação tem nos indicadores de ansiedade e no índice de solidão dos seres humanos. Os animais ajudam a reduzir a ansiedade e reduzem a solidão.

– Tem animais, claro?

– [risos] Sim, tenho dois cãezinhos. Também por isso fez sentido para mim.

– E neste mês nasce o seu primeiro filho...

– Está para nascer, sim. É um menino. Ainda estamos a pensar no nome.

– E esse, era um sonho? Ser pai?

– Era algo que eu acreditava que ia surgir na minha vida. Tal como surgiu, de forma muito natural. O bebé veio quando sentimos, enquanto casal, que fazia sentido. Sempre foi um papel que gostaria de experienciar, sim, o de pai.

– E que tipo de pai pretende ser para o seu filho?

– Estamos a falar de algo que ainda não sei... Acima de tudo quero ser um pai que aceite, que esteja presente, que compreenda, que esteja disponível, nos vários sentidos dessa palavra. Os filhos são o que são, temos de os respeitar como seres humanos autónomos.

– A mãe do bebé é que não quer ser conhecida, não é?Por exemplo, no lançamento da sua obra, na Feira do Livro, quem esteve ao seu lado foi a sua irmã.

– Não é algo imposto... Porque é que ela não aparece? Porque não faz sentido. Não tem a ver com o meio artístico. Não tem pretensões de ser uma figura pública. Isto é o meu trabalho. Agora, com o lançamento do livro, voltei um bocadinho a aparecer nos meios de comunicação social. Mas, quer dizer, também não ando com com ela escondida…

– Tem dito, em entrevistas, que é uma relação bem sucedida...

– Sim. Este bebé é o seguimento natural de uma relação que criou as condições para dar o próximo passo. É uma relação onde me sinto muito bem.

– O seu percurso é tão atípico. Tem duas licenciaturas, foi ator e deixou de o ser para seguir Psicologia... Parece que o mundo está aberto para si, mas que o futuro é indefinido...

– Quem vê de fora pode percecionar que o meu percurso é uma estrutura fragmentada, mas para mim está tudo ligado. Aquilo que realmente é marginal foi a participação no programa [da TVI]. Essa participação está fora dos pontos de conexão da minha vida. Vamos ver. Comecei por estudar gestão, porque na altura fazia sentido. Quando quis continuar o meu percurso académico, foi esse o curso que escolhi. Interrompi os estudos por causa dessa participação, mas depois regressei à faculdade para terminar o curso, porque tinha feito essa promessa à minha mãe. Apesar de saber que já não era algo que me pudesse realizar… Mas fiquei com o bichinho de voltar à faculdade para estudar algo de que realmente gostasse. E que seria, necessariamente, ou filosofia ou psicologia. Entretanto comecei a trabalhar como ator, área em que também procurei formação. Entreguei-me à profissão durante um tempo. E até estava a viver uma fase boa, mas sentia que precisava de fazer algo diferente...

– Foi nessa altura que deixou tudo para estudar Psicologia?

– Sim. A psicologia foi algo que sempre me fascinou. Sempre tive li muito, no geral, mas assuntos relacionados com psicologia interessavam-me particularmente. Decidi que ia aprofundar essa paixão. No primeiro e segundo ano ainda continuei a trabalhar como ator, mas depois desisti. Não conseguia investir na Psicologia da forma que achava que devia ser. Entretanto acabei a licenciatura e passei para mestrado… e o tempo corre.

– Quer exercer?

– Quero exercer. É o meu principal objetivo, neste momento. Quero investigar na área, também.

– Então e o teatro, a televisão, o cinema, nunca mais?

– Tive oportunidade de voltar. Houve convites. Mas estava de tal forma investido neste percurso que recusei. Guardo tudo no meu coração. Não renego o meu trabalho como ator, antes pelo contrário. Mas, para já, o meu presente não passa por aí. A porta está aberta. Não me afastei porque houvesse alguma coisa que tenha corrido mal ou que tenha ficado alguma mágoa. Nada disso. Agora… o futuro, sei lá. Outros desafios se seguirão. Para já quero estar aqui.

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