Rotina "alucinante", falta de cuidados com a saúde e o susto que mudou a sua vida. Humorista não esconde nada.
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Nuno Markl tem partilhado com os seus seguidores vários detalhes do processo de recuperação de dois AVC que mudaram a sua vida. Mas este sábado, dia 1, no 'Alta Definição', da SIC, contou como tudo aconteceu no dia 20 de novembro de 2025, quando estava em casa com o filho e como tentou esconder da família o que estava a acontecer.
"Sou uma pessoa que aprendeu umas lições sobre desacelerar um bocado e saber dizer que não a coisas e a aproveitar mais o tempo. É muito estranha essa sensação de que estive pertinho de um abismo e de ir desta para melhor. Isso, forçosamente, muda coisas", começou por declarar o humorista, de 55 anos, na conversa com Daniel Oliveira.
"Sentia cansaço. Quando deitava a cabeça na almofada, sentia que o meu coração batia de maneira um bocado forte. Sentia umas dores de cabeça tramadas que eu atribuia ao stress. Tudo são sinais de hipertensão", descreveu. "Fui passando por cima destes sinais alegremente, achando que era imortal", sublinhou, apesar dos muitos pedidos da namorada e da mãe para que fosse ao médico.
"Aquele dia 20 de novembro... Foi a coisa mais banal e menos espetacular de sempre, porque eu acabei as gravações do programa ['Taskmaster', da RTP 1] na véspera e estava regalado com uma paragem [...] Aconteceu aquela coisa bizarra que muita gente atribui a um sentido extra que os cães têm. A minha cadela Chiclete, neste dia, fez uma coisa que não é muito comum: saltou-me para cima de mim e agarrou-me, parecia que me estava a dar um abraço, uma pata em cada ombro e ela não me largava", recordou.
Em forma de brincadeira, a que já habituou os seus fãs, Nuno Markl quebrou o tom sério da entrevista para dizer que estava na casa de banho no momento em que a cadela o agarrou, e também foi lá que sentiu os primeiros sintomas.
"Gostava de dizer-te que foi numa situação mais digna mas estava a fazer cocó quando aconteceu. Ok? Tinha despachado já, estava sentado. Imagina, se eu tivesse morrido, a indignidade desta morte. É coerente com a minha carreira e com o que eu faço. Mas basicamente o que aconteceu foi que consegui tratar da limpeza e, de repente, vou para me levantar e percebo que nada deste lado [esquerdo] funciona. Sem dor, sem nenhum sinal de alarme. Eu sei que estava ao telemóvel, a ver coisas, e tombei para o lado do armário que tenho na casa de banho e voltei outra vez para a sanita. 'O que é isso? O que está a acontecer? Isso é muito estranho mas não consigo me mexer'", pensou na altura.
"É como se de repente deixasse de existir esta parte toda. Não queria alarmar o [filho] Pedro", disse, ainda a adiar o pedido de ajuda. "Consegui puxar as calças, arrastei-me no chão e pensei: não consigo andar. Estou deitado no chão da minha casa de banho a não querer assumir o que estava a acontecer, mas percebia que isto era grave. A dada altura tive que chamar o Pedro e percebi que a minha fala estava completamente má", contou.
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Mas, mesmo sentindo que algo sério estava a acontecer, Nuno Markl tentou adiar mais pedidos de ajuda. "Não faças já chamadas, não ligues à [namorada] Teresa, não ligues à mamã, pode ser só cansaço. E foi ele que com uma tremenda eficácia e maturidade disse: 'Não, vou ligar ao 112'. Eu nem sabia que o Pedro tinha nele a clareza e a eficácia com que ele falou", lembrou.
Antes de a ambulância chegar, Nuno Markl ainda teve outro momento de susto no chão da casa de banho. "Durante a espera para a ambulância começou a dar-me um sono absolutamente mortífero, depois vim a saber que literalmente poderia ser mortífero. Estava a sentir-me a ir. E o Pedro: 'Mas o que se passa contigo?'", questionou o filho de 17 anos, que manteve o pai acordado.
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"E o Pedro começa a invocar memórias e dizia: 'Não durmas, não durmas'. Esta solução que ele arranjou é incrível, é uma coisa que me comove e comoverá sempre. No momento em que ele diz: 'Pensa em coisas boas, pensa em nós no cruzeiro'. Tínhamos feito um cruzeiro há dois anos, foi dos momentos melhores da vida dele".
Questionado sobre se o filho tem noção que salvou a vida do pai, Nuno Markl deixa claro que este "é um peso muito grande para depositar em cima de um miúdo de 17 anos". "Tento muito poupá-lo a essa ideia. Ele foi precioso sem dúvida, naquele dia. Não sei o que teria acontecido se não fosse ele".
Após os primeiros socorros, as memórias são confusas para Nuno Markl. "Eu nunca perdi a consciência mas há uma série de confusões sobre o que é que estava a acontecer e quando".
O humorista foi atendido primeiro no Hospital de Cascais e depois no São Francisco Xavier. "Estava à rasca, estava a temer que fosse o fim. Eu tinha medo de morrer mas não tinha bem a noção do quão perto eu estava e fui um bocado poupado a isso [...] Embora na minha cabeça eu soubesse que estava a acontecer algo de muito grande, e potencialmente muito trágico, não estava a processar a ideia de morrer. É uma angústia muito grande, de facto, não fiquei fã", declarou.
Nuno Markl confessou também que, além da falta de cuidados médicos, estava a ignorar o tempo de descanso, com uma rotina preenchida pelo trabalho.
"A minha rotina estava alucinante, tinha perdido completamente a noção do descanso porque sempre achei que conseguia conciliar coisas. De manhã ia para rádio, acordava às 6h, fazia a rádio, ia para a quinta onde gravámos o 'Task Master' ou então ia para estúdio, eram muitas horas de gravação. Depois chegar à casa já tarde, comer, deitar-me e repetir todo o processo no dia seguinte", descreveu.
"Sobrava muito pouco tempo para tudo o resto. Estava a adorar tudo o que estava a fazer. Mas estava a ser uma cavalgada insana. Muita gente à minha volta dizia que tinha que abrandar um bocadinho. Tinha dois dias, à terça-feira e a quinta, que normalmente eram dias mais pacatos para conseguir escrever guiões para o programa, e para descansar, mas, às vezes, nesses dias encaixávamos outros compromissos", assumiu. "Tudo isto levou-me a cair para o lado".
Ana Galvão sobre Nuno Markl
Dias depois do primeiro AVC, Nuno Markl percebeu que não conseguia mexer o lado esquerdo, mesmo depois de já ter recuperado alguns movimentos.
"A dada altura acontece o segundo AVC. Foi muito discreto, uma sequela do terramoto. Ainda aconteceu de uma maneira mais discreta do que o primeiro. Eu já estava no Egas Moniz, já estava a planear sair e refazer a minha vida, a fisioterapia estava já a pôr-me a andar. Este braço, que agora está mortinho, já conseguia lavar a cabeça. Estou eu animado e a pensar vou para casa e continuar a fisioterapia em casa. E estou sentado no meu quarto, com uma mesa à frente, e estou a almoçar e de repente há uma enfermeira que pede só para eu afastar um pé para levar uma coisa lá para dentro e nada acontece. A minha primeira ideia foi que o pé estava preso e olho para o pé e percebo que ele não está a funcionar outra vez e viro-me de imediato para o braço e para a mão e estão mortos outra vez. E eu só digo para a auxiliar: 'Aconteceu alguma coisa, isso não está a funcionar outra vez", descreveu.
"Lembro de ir na maca para a zona das TAC lá do hospital Egas Moniz e de ir em lágrimas. Não estava ninguém nessa altura da minha família quando aquilo aconteceu. Estava lá sozinho. E apareceu o doutor e ele disse: 'É possível que isso seja outro AVC, às vezes acontece isto'. E as lágrimas a escorrerem-me pela cara abaixo tipo cascata mesmo. Só me lembro de ele pôr assim a mão no ombro e dizer: 'Tenha calma, amigo, tenha calma'", disse.
Nuno Markl explicou que o segundo AVC foi pior do que o primeiro por ter sido isquémico, levando a um "corte" de algumas funções. "Tive um AVC isquémico depois de um hemorrágico. Fui-me abaixo mais que nunca. Foi dramática a ideia de que voltei tudo para trás. Nem sequer é voltar para trás, é voltar ainda mais para trás", lamentou.
Nuno Markl está ainda em processo de recuperação. Já tem alguns movimentos do lado esquerdo do corpo mas mantém a fisioterapia. Depois de cerca de seis meses num hospital de reabilitação, teve alta em junho.
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