António Zambujo fala sobre novo disco e conta como conheceu a mulher, filha de Tom Jobim
Cantor acaba de lançar 'Oração ao Tempo', um novo trabalho marcado pelo facto do cantor ter feito 50 anos.
Já disse que andou a cozinhar este novo disco durante muito tempo. De que fala este 'Oração ao Tempo'?
A primeira música para este disco foi feita na altura da pandemia e chama-se 'Pequenos Prazeres'. Foi uma letra que eu pedi à Maria do Rosário Pedreira. Pedi-lhe para escrever sobre a forma como nós usamos o nosso tempo e como deixámos de dar importância ao que devia ser mais importante. Esse tema ficou guardado e entrou agora numa fase em que eu fiz os 50 anos e comecei também a pensar mais no tempo, como o usamos e como o aproveitamos. A partir daí fui desenvolvendo esta ideia e reunindo músicas, a maior parte originais, mas não só, como a própria canção 'Oração ao Tempo' [de Caetano Veloso], que curiosamente até veio resolver-me um problema que é sempre muito chato para mim, que é quando chega a hora de escolher o nome para um disco meu. Muitas vezes nem sou eu a escolher.
Quer dizer que lhe 'bateu' esta coisa dos 50 anos?
Acho que deve bater a qualquer um. É um marco histórico mas ao mesmo tempo é uma fase da vida em que percebemos que já estamos bem longe da meia idade. Mas também é preciso dizer que os 50 de hoje já não são iguais aos de antigamente. E eu acho que estou aqui para as curvas. Ainda assim claro que percebemos que dificilmente dobramos a idade dos 50 anos, embora seja possível. A mãe do Ney Matogrosso viveu até aos 106 anos.
E o que sente que muda com a idade?
Acho que começamos a ficar mais lamechas e acho que começamos a não querer perder tempo com coisas que não merecem o nosso tempo. E foi mesmo a partir daí que veio esta ideia da 'Oração ao Tempo', que a partir daqui acho que é o que temos de mais valioso.
O primeiro single é o 'Regresso à Infância', com letra também de Maria do Rosário Pedreira. Tem saudades da sua infância?
Não tenho muitas saudades, mas lembro-me bem dela. A letra dessa música, aliás, faz-me lembrar de muita coisa, do quarto onde era rei, das correrias, de andar de bicicleta, de jogar à bola, os jogos de computador do Sinclair, quando reunia a malta toda no quarto, sempre com a música de fundo...
Já era um miúdo ligado à música?
Sim. Eu comecei a estudar clarinete no conservatório muito novo e também comecei a cantar num grupo de música tradicional alentejana chamado Trigo Limpo, com quem gravei dois discos, um deles, curiosamente, no mesmo estúdio onde gravei agora este disco, nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço D'Arcos. E também fazíamos apresentações ao vivo, isto por volta dos seis/sete anos.
E consegue precisar quando começa a dar atenção ao cante e ao fado?
O cante acho que é uma coisa que nasce connosco. Ao lado da casa da minha avó, havia uma taberna onde estava gente a cantar a toda a hora. E lembro-me também que havia vários elementos na minha família que pertenciam a grupos corais, como o meu avô materno que eu não conheci ou os meus tios paternos. Lembro-me de os ouvir, de aprender as letras e depois de tentar reproduzir aquilo que cantavam num piano ou com uma harmónica que havia lá por casa da minha avó. Depois lembro-me da minha tia Clarisse, irmã do meu pai, que cantava bem e que tinha muitos discos em casa. E foi por causa dela que comecei a ouvir fado.
Esse menino de que fala estaria hoje surpreendido com este António Zambujo?
Sei lá, eu não penso nessas coisas. Comigo foi sempre um dia de cada vez e o que vier virá. Nunca fui de andar a correr atrás das coisas e tudo aconteceu naturalmente. Eu deixo sempre a vida levar-me.
Ainda se recorda da primeira vez que atuou em público?
Sim, recordo-me e não é pelos bons motivos (risos). Foi na Ovibeja, em Beja. Na altura, o palco era dentro de uma tenda de circo e recordo-me que naquela tarde tinha chovido imenso. Havia umas escadas laterais, por onde se acedia ao palco, e quando acabámos de atuar descemos por elas, já com a intenção de voltar para o encore. Só que o meu pé que já estava meio enlameado, escorregou, enfiei a perna por entre os degraus, rasguei as calças, esfolei a perna e em vez de voltar para o palco fui direto para o hospital.
Sempre disse que sofreu de alguma timidez...
Ainda sofro. Mas na altura em que não tocava guitarra em palco, ainda me sentia mais desprotegido. Isso deixava-me mais envergonhado. Quando comecei a tocar guitarra, para além de me ajudar com a 'cena' das mãos, porque nunca sabia o que fazer com elas, passou também a funcionar como uma espécie de escudo.
Mas hoje ainda sente que tem que dominar essa timidez?
Sim, embora o palco já não me intimide tanto. A experiência no La Feria ajudou-me muito [António Zambujo integrou, durante quatro anos, o musical 'Amália']. Foi quando percebi que o palco não era um bicho de sete cabeças. Percebi que não podia ir para o palco com barreiras que se não ia impedir-me de fazer o que mais gostava.
Voltando ao disco, dentro do lote de letristas que assinam estas canções, volta a estar o seu filho, Diogo Zambujo!
Sim, já tínhamos feito uma música juntos no 'Voz e Violão' e agora desafiei-o para ele escrever uma letra para que quando ele tivesse um filho, este cantasse em palco dizendo que aquela canção tinha letra do pai e música do avô. E então escreveu o 'Espera Vã'.
Mas ele também já está dedicado à música?
Sim, sim. Vai lançar o disco dele, julgo que em maio. É um cantautor, numa onda meio alternativa. Eu acho que ele é um bom músico.
Deixa-o especialmente orgulhoso ele ser músico?
Não. Deixa-me especialmente orgulhoso ele procurar a felicidade. E se ele é feliz a fazer música, só posso ficar muito feliz por ele.
Começou por falar da música 'Oração ao Tempo', que aqui surge em dueto com o Caetano Veloso. Como foi privar com esse ícone mundial?
Quando decidimos fazer a música não foi com intenção de gravar em dueto, mas numa ida minha ao Rio de Janeiro, mostrei a maqueta ao Caetano, ele gostou e num ímpeto desafiei-o a gravar. Fizemo-lo no estúdio dele, gravámos ao mesmo tempo e tornou tudo muito orgânico. Eu já o conhecia, a primeira vez que privei com ele foi em 2008, logo na primeira vez que toquei no Brasil. Ele foi ao concerto com o filho Moreno.
A sua relação neste momento com o Brasil está mais estreita do que nunca, por conta do seu casamento com Maria Luiza Jobim!
Pode-se dizer que sim, mas antes de casar eu já tinha lá muitos amigos e já tenho um historial de muitos concretos. Já me sentia em casa, mas claro que agora me sinto ainda mais.
Esse casamento apanhou toda a gente de surpresa, pelo menos em Portugal!
Eu não fiquei nada surpreendido (risos).
Como é que começou essa história?
Conhecemo-nos lá num concerto meu no Rio de Janeiro com o Yamandu Costa. Pouco antes eu tinha feito uns concertos de homenagem ao pai dela [Tom Jobim] com as músicas do Claus Orgman, que era o arranjador da orquestra do Tom Jobim e sei que ela e a mãe tinham ficado muito interessadas. Depois desse concerto no Rio, ficámos amigos e a coisa 'deu-se'.
E agora vivem mais em Portugal ou no Brasil?
Vivemos mais em Portugal, mas andamos sempre cá e lá. Em maio, por exemplo, vou ter uma grande digressão por lá com várias cidades importantes.
E como foi a adaptação dela?
Ela já tinha casa cá e já conhecia bem Portugal.
E sendo música, consegue trabalhar cá?
Ela está muito ligada à produção e por isso tanto faz estar cá ou lá. Quando tiver que se apresentar ao vivo é que seguramente terá de ir ao Brasil, até porque ela está a lançar disco novo. Mas ela faz muitas digressões pela Europa. Ainda agora regressou de uma por várias cidades.
E no Brasil têm casa onde?
No Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Eu gosto muito de lá estar. É uma cidade espetacular.
O que está a projetar para estes concertos que estão aí à porta, para os Coliseus [ Coliseu Porto Ageas, dia 11 de abril e Coliseu dos Recreios dias 16 e 17 de abril]?
Todos os meus concertos a partir de agora são de apresentação deste disco, mas claro que vou sempre trazer músicas de outros discos para o universo musical deste novo trabalho.
Também lhe acontece não tocar alguns temas porque já está cansado deles, como o 'Pica do Sete', por exemplo?
Esse não preciso de cantar, porque o público canta por mim (risos). Não, cansado não. Eu não tenho essa coisa de ficar cansado das músicas. Até me deixa muito grato que tantas pessoas se identifiquem com as minhas canções.
Siga aqui o Vidas no WhatsApp para ficar a par das notícias dos famosos
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt