Ricardo Ribeiro fala do novo disco, da infância e obesidade: "Quando há muitos sonhos a tristeza é pouco relevante"
Fadista acaba de lançar o álbum 'A Alma Só está bem onde Não cabe'
Por onde tem andado a alma do Ricardo Ribeiro e onde é que ela não cabe?
A minha alma tem andado por muitos sítios... e onde é que ela não cabe? Bom... é por isso que ela precisa da arte, para percebermos que às vezes cabe em muitos sítios e outras vezes em sítio nenhum. Mas o título deste disco tem muito a ver com um poeta que eu gosto muito que se chama Raúl de Carvalho e que eu li muito durante o ano de 20025. Fui muito inspirado por ele e também por uma poetisa chamada Adélia Prado que diz que "pior que o medo de almas do outro mundo é o medo da alma do mundo do outro".
A inquietude e a insatisfação parece que continuam a ser as suas grandes ferramentas de trabalho!
Sim, sem dúvida nenhuma. Pode ser prepotente da minha parte, mas eu digo sempre que sou um português renascentista. É pela curiosidade e pela inquietação que vem de dentro de mim e que o mundo me dá, que procuro sempre buscar novos caminhos e novas coisas, de encontrar o belo onde ainda não foi visto. É essa a minha missão, não sei se chego lá, mas vou tentar.
Mas o encontrar pressupõe uma busca. Nesse caminho consegue-se em algum momento encontrar satisfação?
Não. Às vezes pode haver um vislumbre de um certo contentamento, mas satisfação não, porque se eu der comigo satisfeito, então já não procuro mais nada. Acomodar-me e viver do conformismo, não é para mim.
Mas também é fundamental encontrar alguma serenidade se não esta procura torna-se angustiante, ou não?
Essa serenidade encontra-se por percebermos que as coisas estão a ser feitas porque precisam de ser feitas. É olhar para o caminho como um meio e não como um fim.
Este disco tem muitas influências ibéricas. Quando é que o Ricardo Ribeiro percebeu que era mais do que fado?
Há muito tempo que já sabia disso. Depois da primeira colaboração com o Rabih Abou-Khalil [músico e compositor libanês], percebi isso. Por este motor da curiosidade e por esta coisa que vive dentro de mim que não sei explicar bem o que é, acabo por fazer sempre coisas novas. No fado eu já fiz tantas coisas diferentes, já criei estilos para fados clássicos e tradicionais, já fiz fados tradicionais meus e melodias, já fiz tudo o que os mestres a mim me incutiram que era preciso fazer. Mas o mais importante, no meio disto tudo, é perceber que quando se ouve o Ricardo Ribeiro, ouve-se uma identidade artística.
Que idade tinha quando trabalhou pela primeira vez com o Rabih Abou-Khalil?
Tinha 27 anos e foi quando percebi que tinha outros mundos dentro de mim. Percebi que conseguia cantar outras coisas que até então não faziam parte do meu léxico, do meu canto e das minhas ferramentas.
Essa descoberta surpreendeu-o nessa altura?
Eu, de quando em vez ainda me vou surpreendendo (risos), às vezes nem sempre pelo melhor. Vou indo (risos).
Este ano assinalam-se 30 anos desde a sua primeira participação na Grande Noite do Fado, no Coliseu de Lisboa, em 1996. Que memórias é que guarda daquele altura?
Tenho as melhores memórias e devo dizer que recorro muitas vezes a esse tempo na minha cabeça e no meu coração para que não se perca a chama e para o que o fogo continue vivo. Nessa altura era um fogo com uma ânsia de conhecer, de fazer, de cantar e de explorar. Às vezes a vida pode levar-nos a acomodar e é quando eu sinto isso, que recorro a esses tempos para me lembrar de que como isto é bonito. Às vezes há desilusões na vida e a maneira de desafiar a própria desilusão é ir a essas memórias.
Como era esse rapaz de 15 anos que se estreou na Grande Noite do fado?
Era um rapaz com uma infância e adolescência difíceis, mas com muito sonhos por realizar. E quando há muito sonhos a tristeza é muito pouco relevante.
Porquê uma infância e adolescências difíceis?
Porque venho de uma família humildade, de pais separados e as coisas não foram fáceis. Depois fui para um colégio interno, enfim muitas coisa que já contei e que andam por aí.
E esse rapaz estaria hoje orgulhoso deste Ricardo Ribeiro?
Não sei. Mas acho que estaria, por exemplo, a dizer: olha rapaz conseguiste! Conseguiste lutar contra o teu problema de obesidade e fazer uma série de coisas boas, continua!
Esse problema da obesidade é um assunto ultrapassado e controlado?
Está tudo controlado felizmente. Eu cheguei a ter 145 quilos e neste momento peso 69.
É tudo disciplina?
Sim, eu sou disciplinado. Tudo o que tem a ver com a emoções é volátil. A força de vontade e a vontade tem a ver com a emoção, mas se tiveres disciplina nunca desistes e eu incorporei em mim a disciplina.
Mas isso obriga-o a sacrifícios?
Não. É um sacro ofício (risos) ou um ofício sacro. O corpo é o nosso templo e eu encontrei a minha ordem interior.
Sente que essa mudança o levou também a mudar a relação com o mundo que o rodeia e com os outros?
Sem dúvida. Saber das minhas falências leva-me mais facilmente a perdoar ou tolerar as dos outros.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt