Rui Pregal da Cunha: “O legado é grande mas nunca vou usar os Heróis do Mar para puxar dos galões”

Foi a voz de uma das maiores bandas portuguesas. Hoje, aos 47 anos, trabalha em publicidade, mas não esquece a música

18 de setembro de 2010 às 10:32
importa Foto: Duarte Roriz
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Foi a voz de uma das maiores bandas portuguesas. Hoje, aos 47 anos, trabalha em publicidade, mas não esquece a música.

- Depois de um convite recente para actuar com os franceses Nouvelle Vague, o Rui volta a aparecer com músico convidado, agora dos Golpes. Isto significa um regresso mais activo à música?

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- Na verdade a música nunca desapareceu da minha vida. Eu é que talvez tenha saído um bocadinho da vida da música (risos). Aparentemente parece que estou longe mas, por exemplo, na minha vida profissional, como publicitário, sou talvez dos tipos mais chatos com o som. Passo o dia a ouvir música, procuro música e todos os dias faço questão de me informar sobre o que é que saiu de novo. Gasto horas à procura de novidades. Para mim o dia devia ter 47 horas.

- Mas porque razão abandonou a música profissionalmente? Foi por opção ou por desilusão?

- Eu fui músico profissional durante 18 anos. Em Portugal fiz, muito provavelmente, tudo o que tinha a fazer. Aquilo que me restava era mais do mesmo e isso não dá grande gozo. Quando percebi que já me tinham chamado todos os nomes, que já tínhamos recebido todos os prémios e galardões e tocado em tudo o que era sítio, percebi também que não podia cair no erro de ficar à espera da decepção.

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- Foi por isso que a determinada altura partiu para Londres?

- Eu fui-me embora porque achei que estava na altura de deixar de ser um peixe grande no laguinho para ser um peixe mais pequenino num oceano maior, onde as pessoas não me conhecessem e onde eu teria que me fazer valer de novo das minhas habilidades. E isso deu-me muito gozo.

- Mas acabou por não conseguir fazer carreira em Londres. O que correu mal?

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- Londres é uma cidade muito dispersante. Ou nos focamos completamente naquilo ou então é muito difícil ter uma banda. Quando fui para Londres a minha ideia era de facto não voltar para Portugal. Queria renovar a minha vida e a minha carreira. Os Heróis do Mar tinham acabado para mim, mas a música não. Aliás, os Heróis acabaram numa manhã e à tarde, eu e o Paulo, já tínhamos feito os LX90. Foi a aventura de começar num sítio diferente que me levou para fora.

- Os Kik Out The Jams foram o seu último projecto. Quando é que decidiu desistir?

- Os Kik Out The Jams na verdade eram os LX90 com um nome diferente. Aliás, todas as semanas nós inventávamos um nome novo. Demos grandes concertos em Londres, éramos adorados pelos promotores e tínhamos um público fiel, mas houve um momento em que decidi que já não estava mais para ali virado. E por isso regressei.

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- Alguma vez sentiu que o peso dos Heróis do Mar era grande demais?

- Os Heróis do Mar deixaram um legado muito grande, mas também o conseguiram a muito custo, num período em que nada era fácil. Apesar disso nunca senti nenhum tipo de peso nos ombros. Sei que os Heróis do Mar me vão marcar para o resto da vida, mas nunca os vou usar para puxar dos galões.

- É muito saudosista em relação àquele período?

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- Não. Sempre arrumei bem o meu passado. Eu sou daqueles tipos que ainda hoje é amigo das antigas namoradas (risos).

- As pessoas ainda o reconhecem na rua?

- Algumas sim. Outras ficam a olhar para mim e dizem-me: "Eu conheço-o de algum lado!". Até já fui reconhecido no México (risos).

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- Qual é a memória mais viva que tem dos Heróis do Mar?

- Lembro-me do início de num dia ser um puto maluco que, se fosse preciso, ia para a escola vestido de Sandokan e sabre à cintura, e no dia seguinte ser uma das caras mais conhecidas de Portugal.

- Lidou bem com essa fama repentina?

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- Sim. Nunca tive problemas com a fama da mesma forma que nunca tive problemas com o anonimato.

- Chegou a dizer-se que os Heróis do Mar eram um instrumento de manipulação da extrema-direita. Chamaram-vos fascistas e neo-nazis. Como lidaram com isso?

- Chamaram-nos tudo (risos). Sempre lidámos bem, mas não foi fácil lutar contra esses rótulos. Recordo-me que levámos três anos a conseguir tocar abaixo do Rio Tejo. Os organizadores de festas não nos chamavam.

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- E como é que os vossos pais lidaram com isso?

- Acho que a minha mãe pensava apenas que isto era uma grande circo (risos).

- E os estudos?

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- Os estudos ficaram para trás. Era impossível conciliar. Nós ensaiávamos oito horas por dia e quando chegava à noite já ninguém queria estudar. Queríamos era copos. Por isso deixei o meu curso de design mobiliário.

- É verdade que se zangaram todos e que foi por isso que os Heróis terminaram?

- Não. Muita gente não sabe disto, mas quando os Heróis do Mar começaram, o António (baterista) que vinha dos Tantra já estava proibido há dois anos pelo médico de continuar a tocar por causa de ser asmático. A verdade é que ele ainda tocou mais sete anos connosco. Por isso, quando ele finalmente decidiu sair, o grupo abalou. Foi quando pensei. "Epá! Isto é capaz de não ser para sempre!".

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- Mas nunca houve desentendimentos entre vocês?

- Houve uma altura em que começámos a ter opiniões diferentes. Quando esse dia surgiu, nós virámo-nos uns para os outros e dissemos: "Não nos vamos zangar, pois não?". E daí cada um decidiu seguir a sua vida.

- Vocês ganharam muito dinheiro?

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- Acho que tive uma boa vida. Tinha dinheiro para dar a todos os meus amigos e para partilhar com quem gostava. Acho que é para isso que o dinheiro serve. Nunca foi uma pessoa de excessos e gastava a maior parte do meu dinheiro em táxis, porque na altura não tinha carta. Sempre tive dinheiro para fazer o que me apetecia.

- Seria possível voltar a ver os Heróis do Mar juntos?

- Eu não fecho a porta a nada. Não há ninguém que não gostasse de voltar a ver os Heróis do Mar juntos. Já houve quem o tentasse fazer para esta passagem de ano.

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- Então o quer seria preciso?

- Muitos meses para ensaiar (nunca menos de nove) e uma mega-produção. Tudo tinha que ser muito bem estudado, mas não é impossível. Não digo que não mas acho que ia dar muito trabalho, afinal de contas era preciso arranjar as coisas de forma a que cinco adultos parassem com as suas vidas para se voltarem a juntar.

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