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Eva Stuart: "O melhor que nos acontece é por acaso"

Atriz de 21 anos é protagonista do novo espetáculo musical de Henrique Feist, em cena no Casino Estoril.

25 de outubro de 2026 às 20:30

Em que altura da vida começou a sentir o apelo pelo mundo do espetáculo?

Acho que desde a barriga da minha mãe. Segundo ela conta, quando fazia espetáculos já eu dançava lá dentro... Tive muita sorte. Cresci num meio onde me sinto muito à vontade. Estar num palco, nos bastidores, no meio de cenários e figurinos... Todo o mundo do espetáculo me atraiu. Há pessoas que se podem sentir obrigadas a seguir o caminho dos pais. Não foi o meu caso.

Os pais não a incentivaram?

De todo. Diziam-me muitas vezes para experimentar outras coisas, outras vias. Cheguei a fazer uma licencitatura, para ter um plano B, mas por muito que quisesse desviar-me da música e do teatro, acho que viria sempre cá parar.

Em que área se licenciou?

Design de comunicação.

Não deve ter sido fácil, crescer com pais artistas. A mãe passava as noites fora de casa...

Ah, eu estava sempre com os meus pais. O meu pai [Nelson Cabrita] é mais ligado às artes visuais mas sempre assegurou a parte de produção e managment da minha mãe. Não sei o que é ter pais com um trabalho das nove às cinco. Ia com eles para todo o lado. E como não fazia muito barulho, eles deixavam que eu fosse.

E apreciava essa vida?

Claro. Uma criança, num mundo mágico, rodeada de maquilhagem, figurinos, cenários lindos. E música! Como não gostar? Era como se estivesse a viver dentro de um musical toda a minha vida.

Frequentou uma escola artística? Sei que toca piano.

Costumo dizer que tive três escolas. A escola normal, que todos os miúdos frequentam. Aos dez anos fui para o Instituto Gregoriano de Lisboa, onde tirei formação clássica. Aprendi a tocar violoncelo e piano. Foi aí que comecei a compôr música. À parte disto, quando tinha uns oito ou nove anos os meus pais criaram um grupo de teatro musical para público infantil. Onde estive até aos meus 15, 16 anos. A fazer e a aprender. Nessa altura os meus pais perceberam logo que eu ia ser artista.

E como reagiram?

Disseram-me: ok. Mas vais-te esforçar o triplo. Vais trabalhar muito para seres das melhores. Sempre me incutiram que ter bases era o mais importante de tudo na vida de um artista.

O programa ‘Ídolos’, na SIC, foi a primeira montra para o grande público?

Sim, pode dizer-se isso. Aliás, fiz a audição para o ‘Ídolos’ com esse propósito: algum público já me conhecia, mas via-me apenas como a filha da Wanda Stuart. Acontece com todos os artistas que vêm do meio. A Bárbara Bandeira... Mas criar essa separação é muito importante. Porque nós e os nossos pais somos artistas diferentes. Foi isso que me levou aos Ídolos. Não fui com a ideia de ganhar. Aliás, foi uma surpresa chegar ao segundo lugar. Mas fi-lo com esforço, sempre a dar o meu melhor. Mas acima de tudo queria dar-me a conhecer ao público.

A mãe acompanhou o programa?

Acho que só foi a uma das galas. Eu preferi que não fosse e pedi-lhe isso mesmo. Claro que estava a apoiar-me, e a roer as unhas como qualquer mãe, mas manteve-se afastada.

Como classifica a experiência?

Aprendi muito. Não sabia, até então, como é que lidaria com este tipo de nervosismo, nunca tinha estado numa competição. E, de repente, tínhamos de aprender coisas muito rapidamente. Mas lá está, as bases que fui assimilando ao longo da vida, a ver e a fazer, tudo ajudou.

Mas sofreu bullying digital, e não foi meigo, durante o programa.

Estava à espera. Quando alguém tenta sair da caixa, sempre que se tenta fazer alguma coisa, há sempre quem venha criticar e dizer mal. É assim. Mas encaro isso como um sinal positivo: quer dizer que consegui chamar a atenção, não é? Acho que os meus pais sofreram mais do que eu.Na altura decidi, deliberadamente, não ver nada. Não tive acesso aos comentários. Só depois do concurso terminar é que fui ver, por curiosidade. Não me afetou. Desde muito pequena que sei o que são críticas, sei que fazem parte do mundo do espetáculo. Quem não está habituado, pode sofrer. Cheguei a receber mensagens muito graves, mas sou forte. Bullying? Recuso-me a dar importância. Aliás, agora, se deus quiser, só vai piorar.

Já tem singles editados.

Sim, já lancei três singles. Com letra e melodia minhas. Lancei o primeiro single antes do ‘Ídolos’, em inglês. Depois fui contactada pelo Agir, que quis fazer uma colaboração comigo, e me convenceu – felizmente – a passar para o português. Ainda bem. Nasceu o ‘Não Desistas’. No ano passado lancei mais dois singles: ‘Não me Esqueço’ e ‘Chão e Terra (Somos Mar’).

Têm tido sucesso? Que neste momento se mede em descarregamentos nas plataformas digitais.

Sim. É tudo um processo. Uma escada. Estou mais do que preparada para ir subindo um degrau de cada vez, devagarinho, desde que a base seja sólida. Prefiro ter um percurso mais longo, feito de pequenos passos, do que rebentar e depois não ter estrutura para ficar. Estou a trabalhar para isso. Embora nos últimos três anos tenha dedicado grande parte do meu tempo à universidade.

Era importante, ter a licenciatura? Por uma questão de segurança?

Foi importante concluir. E neste momento até estou a trabalhar na área, que me fascina. Não vou dizer que não. E penso poder integrá-la na minha vida regular. Ou seja, fazer tudo ao mesmo tempo. De certa forma os planos B e C juntaram-se e tudo é um plano A. O design, a música – onde tenho projetos individuais que a seu tempo irão ser divulgados – ao mesmo tempo que estou em cena com uma peça de teatro musical. E faço design para as redes sociais de algumas empresas. As barreiras diluem-se e tudo se harmoniza.

Como surgiu o convite para protagonizar ‘O Feiticeiro de OZ | Um Musical Pop’, em cena no Casino Estoril?

É o meu primeiro grande trabalho mais à séria. OHenrique Feist, que é o diretor artístico, conheceu-me na barriga da minha mãe... A dupla Henrique Feist/Wanda Stuart é conhecida dos musicais. Mas na verdade quem deu a sugestão do meu nome para protagonizar o espetáculo foi o encenador, o Valter Mira. Que se lembrou de mim. Ele já tinha trabalhado com a minha mãe no espetáculo ‘Company’. Foi perguntar-lhe. Ela respondeu: “É melhor falares com a Eva, mas atenção que ela está mais habituada ao mundo da música e da dança. A área da representação está menos explorada...” Dos três pontos fortes do que é ser artista era aquele em que tinha menos experiência. Mas quis avançar. E o Henrique adorou a ideia.

Como é que está a ser a experiência?

Estou a adorar. Estou a aprender muito. É duro mas ao mesmo tempo muito estimulante. Aprendo todos os dias, não só com quem me dirige, mas também com o resto do elenco, que é maravilhoso. Não só a nível de talento, mas a nível de ambiente humano, não podia ser melhor. Todos me acolheram bem e me apoiaram desde o início.

E os nervos?

Existem sempre nervos, mas é um trabalho coletivo. Não estou sozinha em palco. Estamos todos a trabalhar para o mesmo e há grande espírito de entreajuda e camaradagem. Acho que o espetáculo vai ter uma bela carreira.

Conhecia o filme original, com a Judy Garland?

Houve um interesse renovado na história por causa dos filmes ‘Wicked’, que pertencem ao mesmo universo de ‘OFeiticeiro de Oz’. Mas confesso que ainda não tinha visto o filme. Sabia a história, claro, mas fui ver e fiquei apaixonada pela personagem. Identifiquei-me desde logo com a Dorothy. E como esta versão é pop da história – o Valter deu-lhe um ‘twist’ moderno – tem uma atualidade que vai apelar ao público.

A mãe deu muitos conselhos?

A minha mãe dá-me conselhos, sim, mas deixa-me voar. Temos caminhos distintos e ela percebe a importância do erro. Ou seja, um artista tem de experimentar. Se correr mal, aprende uma lição importante. A minha mãe diz-me sempre isso: é preciso arriscar. Se não der certo, ok, procura-se outro caminho. Este mundo das artes não é formatado. Não há uma fórmula. Chega-se lá por tentativa e erro.

Completou 21 anos no passado dia 3. de outubro. Como se imagina daqui a dez anos?

Não faço ideia. Daqui a dez anos, com 31... Espero ter o meu projeto a solo, como cantora, consolidado. Espero ter tido mais experiências no mundo dos musicais. Porque esta está a ser maravilhosa. E espero vir a ter muitas histórias para contar, viver muitas experiências. Estou convencida de que o melhor que nos acontece é por acaso. Aquilo aparece do nada, como surpresa. Espero vir a ter muitas histórias para contar na entrevista que der daqui a dez anos.

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