Definem o seu estilo como “rock popular português” e a verdade é que o primeiro álbum do grupo, ‘Virou’, dá uma verdadeira guinada na música nacional
Definem o seu estilo como "rock popular português" e a verdade é que o primeiro álbum do grupo, ‘Virou’, dá uma verdadeira guinada na música nacional.
- Os Diabo na Cruz são muito provavelmente o projecto português do ano. A crítica rendeu-se e os vossos espectáculos estão cheios. Como é que vocês têm lidado com esta receptividade?
- É uma situação especial que tem sido encarada momento a momento. Apesar de todos nós já termos um percurso longo na música, esta receptividade é de facto uma novidade. Mas também é um privilégio.
- O sucesso ainda é um lugar estranho para vocês?
- Tem a sua estranheza, mas acho que também é um lugar natural. Quando se faz música em Portugal não é fácil ser-se aceite à primeira, sobretudo quando tentamos ter ideias originais e apresentar algo que seja só nosso. Só que, entretanto, acho que chegou a hora (risos).
- O que é afinal esta coisa do folclore punk?
- Essa é apenas uma maneira de ver a nossa música. Eu, por exemplo, prefiro chamar-lhe mais rock popular português.
- Porquê?
- Porque venho do rock, é essa a linguagem que conheço e é essa que os Diabo na Cruz exploram. Só que depois na composição há também muita inspiração na memória da música popular portuguesa com a qual cresci, desde o Zeca Afonso, Fausto ou Brigada Vítor Jara, entre outros. Gosto mais de chamar àquilo que fazemos rock popular português, mas é óbvio que a energia do punk também é para nós fundamental, até porque somos um grupo que arrisca e que faz mais barulho do que os outros que também trabalham com a música portuguesa. Quanto ao folclore, gostamos também de brincar com aquilo que para a nossa geração e a para as anteriores era considerado parolo e foleiro.
- Sente que criou um projecto original e de viragem na música portuguesa?
- Dizer que procuramos ser originais e únicos é a obrigação de qualquer pessoa que faça coisas com linguagens artísticas. Não quero dizer que ando por aí a tentar inventar a roda outra vez, mas acho que cabe a cada um fazer coisas ligeiramente diferentes das que tem ao lado.
- E essa é a pedra-de-toque do Diabo na Cruz, a originalidade?
- Estamos a fazer algo que ainda não se tinha ouvido. Mas essa foi uma preocupação desde o início. Antes de lançarmos o disco queríamos encontrar uma maneira que nos parecesse só nossa. E esse vai continuar a ser o nosso desafio. Não estamos aqui por comodismo e estamos sempre obrigados a fazer algo de novo.
- Como é que começou esta aventura? Quem é que deu o primeiro passo para formar os Diabo na Cruz?
- Esta era uma ideia que tinha há algum tempo e aquilo que fiz agora foi procurar as pessoas certas, que não tivessem preconceitos e tivessem a mente aberta. Não foi preciso fazer casting (risos).
- E como é que as coisas funcionam?
- Apesar de as letras e as músicas serem minhas, trabalhamos muito em grupo. Todos têm um papel importante, embora isto seja uma espécie de ditadura benevolente ou uma democracia à Sócrates, tipo quem manda sou eu (risos). Não. Agora a sério! Embora as coisas partam de mim, todos têm uma palavra a dizer.
- Há no vosso projecto uma provocação à Igreja, começando no nome da banda e terminando em versos, como ‘Na Igreja de S. Torpes Hoje há Bacanal’ ou ‘Os Padres Comem Putos’. Já tiveram problemas por causa disso?
- O único problema que tivemos até hoje foi em Mondim de Basto. Ligaram-nos a dizer que o espectáculo que tínhamos marcado não podia ser feito porque a malta da paróquia não aprovava.
- Mas porquê esta provocação à Igreja?
- Atenção que nós somos de uma editora religiosa, embora seja de uma religião alternativa à nossa cultura, que é a Evangélica Baptista. Apesar disso, é verdade que não somos baptistas, nem evangélicos, mas somos amigos de pessoas religiosas que têm humor e autocrítica. E é só neste contexto que surgem estas referências à Igreja. Não há aqui um ataque declarado a ninguém, até porque todos nós somos personagens nesta comédia social.
- E porquê o nome de Diabo na Cruz?
- Tem que ver com uma certa linguagem do rock e do hard rock que levou, por exemplo, à formação dos Van Halen do Eddie Van Halen ou dos Bon Jovi do John Bon Jovi. Ora, estes são os Diabo na Cruz do Jorge Cruz (risos). Este nome do Diabo na Cruz vive ali nos limites do bom e do mau gosto, como acontecia com muitas bandas do hard rock. Além do mais, esse nome também serve para chamar a atenção para o facto de muitas vezes não endeusarmos as pessoas certas.
- A ‘Dona Ligeirinha’ é o vosso primeiro grande sucesso. Essa canção é a caricatura de alguém? A Dona Ligeirinha existe?
- Digamos que a Dona Ligeirinha é um piscar de olho à mulher moderna portuguesa. De há uns anos para cá, a mulher alcançou no Mundo uma capacidade de se afirmar e Portugal não é excepção. Esse é o lado moralista da canção. Depois há o lado mais lúdico, que brinca com uma senhora que leva as coisas com ligeireza demais. E às vezes nós homens sofremos um pouco com a modernidade das mulheres.
- O vosso disco abre com um tema cantado pelo Vitorino. Foi fácil desencaminhá-lo?
- O Vitorino simpatizou muito com uma versão que fiz há uns anos de um tema popular alentejano e disse-me que gostava de vir a fazer qualquer coisa no futuro comigo. Depois apareceu o Diabo na Cruz e a sua participação foi inevitável. O facto de ele abrir o disco é quase uma passagem de testemunho. Fazemos música do século XXI, mas que respeita o legado da música portuguesa. E acho que é isso que falta nas novas gerações.
- Que reacção é que têm tido do público nos concertos?
- Há muita gente que diz que há muito tempo não sentiam o orgulho de serem portuguesas. E sentimos que há muita gente que se diverte connosco. Há muitos portugueses que são liberais e aceitam que pessoas como nós trabalhem o imaginário português.
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