A viver entre Londres e Lisboa, a atriz prepara-se para se lançar em novos projetos de teatro e aproveitou para falar do dramático papel do seu mais recente filme '18 Buracos para o Paraíso'.
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Todos nós somos psicológicos. Somos fruto dos amores e das dores que vivemos mas também das que os nossos próprios filhos, irmãos, parentes e amigos vivem. Porque somos seres empáticos, não é? Nesse sentido, é um bom exercício para nos estudarmos a nós e aos outros. Aceitei este papel pela relação que se desdobrava entre a minha personagem e as outras - as relações de poder, de dominação, de subserviência, os traumas debaixo da aparente harmonia e do calor familiar.
Estou numa altura da minha vida em que quero ser o mais sincera e honesta com aquilo que me predisponho a explorar e que, no fundo, são toda todas as grandes questões da humanidade. Todas as questões existenciais são boas para os atores. Quero muito explorar esse lado da sombra. Não quero só ficar no lado luz e fazer papéis que são fáceis e inconfortáveis. Foi isso que o realizador, o João Nuno Pinto e a Fernanda Polacow (argumentista) nos propuseram. O João Nuno teve um ato de fé em relação aos seus atores e às suas atrizes. Eles armaram a plateia, ou seja, a proposta narrativa já continha em si todos os elementos que nos fizeram agarrar isto com a alma.
Tudo é pessoal, não é? Não sei qual é a percentagem de coisas que ficam comigo mas há algumas que nos tocam de uma forma muito próxima, seja porque já as vivemos ou estamos a viver, seja porque alguém que nos é próximo já passou por isso. E nós estamos a enfrentar um período pouco fácil, que tem a ver com o envelhecimento geral da população mundial. No caso português, o abandono social dos idosos é ainda mais gritante, mas o João Nuno e a Fernanda quiseram falar desse tema sem julgamento. Por outro lado, quiseram falar do abandono do território rural. Temos um determinado tipo de novos proprietários, que vieram de alguma forma criar uma gentrificação da população nacional e que cria uma dicotomia estrangeiro/português que abre uma discussão. É importante isso acontecer, ou seja, dar a liberdade ao espetador de fazer a sua leitura.
A Beatriz e a Rita são duas atrizes e duas pessoas maravilhosas. Há uma espécie de sintonia, de inteligência emocional na nossa profissão que facilita muito o ‘jogo’. Ou seja, há muita coisa que é do domínio do invisível e que não precisamos de estar a explorar, a descrever ou a elaborar. Mas também é importante frisar que todos estavam extremamente empenhados e queriam dar o seu melhor ao João Nuno Pinto (realizador) e à Fernanda Polacow (autora), duas pessoas que arriscaram perder o controlo. Porque uma coisa é aquilo que nós preparamos antes da rodagem com toda a equipa. Outra coisa é aquilo que acontece depois do ‘ação’ e houve uma liberdade nas três que nos permite jogar esse jogo.
É o que é. Faço parte do grupo de pessoas que assume a idade. As marcas da vida contam também uma história. E uma lente em cima de nós mostra tudo, o rosto, tudo, mas é o que é. Tem de haver pessoas mais velhas a representar. As personagens têm mães, avós, ou então estamos a criar uma grande ilusão. Também depende dos realizadores quererem assumir a idade dos atores. Não porem filtros, como às vezes acontece em relação às atrizes. E é tão bom quando se tem essa naturalidade, porque se calhar há pessoas que não aceitam esse tipo de papéis…. o risco é maior. E é o mundo é muito cruel com a imagem no caso das mulheres, mas são escolhas. Cada uma tem que gerir a sua própria relação com o Mundo e com o olhar que o este lhe devolve.
Porque a minha filha está neste momento a fazer provas na universidade lá.
É maravilhoso! Mas de qualquer maneira, nós estamos sempre no ‘vai-e-vem’. Estou aqui sempre que estou a trabalhar e passamos sempre muitos meses cá no Verão.
Neste momento estou a preparar projetos de teatro porque a minha filha vai fazer 18 anos no final do ano e, portanto, já posso! Digamos, que já posso sair à noite (risos).
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