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Mísia: "Demorei muito tempo a dizer a palavra cancro"

Cantora fala dos últimos dois anos da sua vida em que teve de enfrentar a mais temida das doenças

12 de maio de 2019 às 14:38

Entre 2016 e 2018, Mísia enfrentou a morte por duas vezes. Sofreu em silêncio, entre o palco e a solidão, mas das feridas e das cicatrizes fez, aos 63 anos, um disco que não podia ter outro título: ‘Pura Vida (Banda Sonora)'

No texto de apresentação deste novo disco ‘Pura Vida’, a Mísia fala de dois anos "de céu e inferno, de dureza e paixão". Fala de "feridas", "calvário" e cicatrizes". O que é que aconteceu na vida da Mísia?

Mas hoje está curada?

Mas diz que descobriu o céu no meio disto tudo?

Em que parte do corpo é que teve esse problema oncológico?

Foi operada em Portugal?

Porque é que só revela isto agora?

E hoje está à vontade para falar do assunto?

Estou, se for nestas circunstâncias. Para mim faz todo o sentido falar disto agora porque aquilo que eu passei influenciou muito a pessoa que sou hoje, o meu trabalho e o meu novo disco.

O que é que aprendeu durante esses dois anos?

Aprendi a não ter medo de nada e aprendi que a coisa mais bonita que posso ter numa situação extrema e de limite é ser fiel ao que sou. Nunca cancelei um único concerto, mesmo quando já estava com os infusores da quimioterapia. Nessas alturas percebi a importância que o trabalho tem na minha vida. Estes dois anos ensinaram-me que a partir daqui só posso ser maravilhosa com a vida, com as pessoas e comigo. Tenho de mostrar a esses cancros que a vida conseguiu ser muito mais forte do que eles.

Chegou a sentir revolta?

Nunca me senti revoltada com a doença. Há muitas pessoas que se perguntam: "Porquê eu?" No meu caso, eu simplesmente me perguntava "e porque não eu?" Sei que não sou exemplo para ninguém, mas de cada vez que leio a história de uma pessoa que passou por um momento quase terminal da vida e que hoje está viva, a mim dá-me força e confiança. Por isso, se a minha história poder dar força a outras pessoas, eu acho que é útil falar dela.

Como é que lidou com a agressão física que implica uma doença destas, com cirurgias e quimioterapias?

Pela forma como fala, parece ter encarado a doença com grande leveza!

a beleza mesmo no sofrimento, porque ela existe.

Durante esse tempo em que esteve doente, que espaço ocupou a música?

sai mais forte.

E o disco foi uma forma que encontrou de purgar aquilo por que passou!

Sim. A vida e a obra são inseparáveis. É por isso que neste disco aparece, por um lado, a guitarra elétrica, com uma sonoridade dura, suja e pouco reconfortante, e por outro a beleza da guitarra portuguesa, que é mais espiritual. Elas representam a tal dualidade dos sentimentos, o inferno e o céu. Depois aparece também o clarinete baixo, porque eu queria muito instrumentos de sopro em representação daquela ideia do sopro da vida. As grandes religiões dizem que a vida nasceu do sopro, que Deus soprou nas narinas de Adão e que ele viveu. Aliás, este disco tem uma liberdade vital, a mesma que eu hoje sinto para fazer aquilo que quero e para viver à minha maneira. O resto são apêndices que não interessam para nada. Aquilo que nós achamos que é importante na vida, na hora da verdade não interessa para nada.

Foi mais criteriosa na escolha das palavras para este disco por forma a que elas pudessem servir melhor o momento pelo qual passou?

Passar este disco para o palco não a vai obrigar a reviver tudo aquilo por que passou? Não vai ser doloroso?

Ficou o quê então?

Ficou uma força e uma enorme lucidez. Eu demorei muito tempo, por exemplo, a dizer a palavra cancro, mas já lhe perdi o medo. Ao mesmo tempo ficou também uma grande fragilidade. Hoje sou uma pessoa muito mais sensível àquilo que chamo os pequenos milagres quotidianos.

A ‘Vidas’ agradece a colaboração de Café Buenos Aires

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