O músico está de regresso aos discos (‘Longe’) com uma nova banda, os Comité Caviar, e diz-se a viver em estado de graça
O músico está de regresso aos discos (‘Longe’) com uma nova banda, os Comité Caviar, e diz-se a viver em estado de graça.
- Costuma dizer que fazer um disco é como mudar de pele. Este novo trabalho, no entanto, parece evidenciar mudanças muito mais profundas do que apenas cutâneas!
- Sim. Para usar a metáfora física, mais do que um mudar de pele, há neste disco um mudar de alma. E de voz.
- Porquê?
- Porque senti a necessidade de desinstitucionalizar as coisas.
- Refere-se ao fim dos Bandemónio?
- Sim. Quando um grupo começa a funcionar como uma instituição começa a criar rotinas. Ora, um grupo musical deve ser exactamente o contrário de uma instituição. Tem de ter um lado de rebeldia que não se pode perder.
- Foi por isso que decidiu colocar um ponto final nos Bandemónio e criar uma nova banda, os Comité Caviar?
- Sim. Não é que as coisas tenham corrido mal com os Bandmónio, muito pelo contrário, mas acho que devíamos acabar as coisas no auge, quando ainda está tudo bem. E aquela ideia da morte gloriosa. O nosso caminho foi percorrido e estava na altura de cada um seguir o seu individualmente.
- Foi, portanto, como o fim de um casamento. Os conjugues separaram-se quando ainda se suportavam!
- Sim. Foi a atitude certa.
- E esta nova relação com os Comité Caviar está a correr bem?
- Sim. Este disco revela precisamente este estado de felicidade, de encantamento e de graça em que me encontro, não só com a música mas também com cada um dos músicos dos Comité Caviar. Mas mudou também mais do que a banda. Mudaram também os técnicos e até o agenciamento. No fundo os Bandemónio foram uma empresa que chegou ao fim. Foi uma atitude estética que acabou. Agora há uma abertura totalmente nova.
- E isso não é um risco?
- Claro que sim, mas repetir as fórmulas e fazer as mesmas coisas para obter os mesmos resultados é a pior asneira que se pode fazer, seja em arte, em ciência ou na politica. Há que haver um desprendimento em relação às coisas para podermos seguir em frente. O passado é algo que está feito e ponto final. A mim nunca me interessou discutir o passado. Eu por exemplo, sou uma pessoa que não consigo ter saudades dos meus tempos de adolescente, dos meus vinte anos ou das minhas primeiras bandas. Não tenho.
- Está ‘Longe’ do seu passado, como diz o título do disco?
- Sim. A mais difícil distância é a de nós próprios, mas também é a mais proveitosa.
- Costuma dizer que a sua escrita reflecte períodos da sua vida. Que período foi este que o levou a escrever um novo disco?
- O disco ‘Momento’, por exemplo, reflectia um período negro da minha vida, o disco seguinte, ‘Luz’ reflectia a saída desse buraco e este novo trabalho reflecte um período de ‘joie de vivre’, de ironia, de experiência acumulada, em que me rodeio de gente nova, reflecte um período em que estive nos EUA e em que adquiri também o meu estúdio. Foi lá que eu gravei pela primeira vez sem pensar em horários. Fechei o meu estúdio durante um ano e meio para gravar este disco como se fosse ao vivo, de forma alegre e energética e para contrariar aquele ideia de que eu escrevo músicas lentas e baladas. Estou cansado disso.
- Mas sente que a sua escrita também mudou?
- Sim, completamente. O Paul Simon costumava dizer: “Nós estamos a envelhecer, mas isso não é novidade”. Ora, se este envelhecimento é do ponto de vista físico uma fatalidade, do ponto de vista intelectual proporciona-nos grandes melhorias. O Cohen tem 80 anos e está no período áurea da sua escrita musical. A escrita só melhora com a idade. Eu acho, por exemplo, que os romances só deveriam começar a escrever-se aos 50 anos.
- Este disco está cheio de guitarras, algo que não se notava tanto nos discos anteriores. Que necessidade foi esta das guitarradas?
- Foi uma necessidade de pagar em instrumentos que eu não tinha pegado até agora. Ou melhor, eu tinha guitarras, mas não eram tocadas desta forma. Até agora aos guitarras eram tocadas de forma muito soft e muito funky, mas isso são coisas que deixaram de me interessar. E o rock continua a ser aquela linguagem que atravessa os tempos. E dentro do rock, a guitarra eléctrica é um instrumento fantástico. Eu passei muito tempo no piano e este disco já tem muitas coisas escritas à guitarra.
- Sente-se, então, mais roqueiro do que nunca!
- Esse lado nunca se perdeu, mas este rock agora é muito mais direccionado. É um rock mais americano, influenciado pelos tempos que passei nos EUA.
- O que esteve por lá a fazer?
- Alguns contactos que em breve se ouvirão falar.
- Apesar de sempre ter reconhecido que não é um grande cantor, parece atingir neste disco a sua maturidade vocal. Tem exercitado a voz?
- Não, propriamente. Mas o facto de ter conseguido gravar este disco sem o relógio a contar possibilitou-me experimentar o que quisesse. Eu tenho um bom timbre nos graves. Sou um bom barítono, como era o Cash ou como é o Cohen, mas agora comecei a levar a minha voz a outros limites, até aos agudos, ou neste caso até ao médios. Porque os meus agudos são os meus médios. Comecei a insistir aí e gostei do resultado.
- “Nunca quis ser famoso. O star system foi uma coisa que entrou na minha vida pela porta do lado”. Achas que algum dia te cansarás disto?
- Passar três semanas a fazer fotos e a dar entrevistas 12 horas por dia, confesso que dispensava. Há ainda as abordagens na rua às quais não nos podemos furtar e a praga dos telemóveis com câmara que nos levam a fazer fotografias com toda a gente. Claro que eu tento ser simpático, mas isso às vezes pode ser muito cansativo.
- Mas o Pedro sempre preservou muito a sua vida!
- Sim, eu tento ter uma vida normal. Faço sempre por manter a ingenuidade e a genuídade que me fez ser músico.
- Não se revê no conceito de figura pública?
- Esse é um conceito curioso. Parece que somos pessoas que estamos em exposição para as pessoas poderem olhar para elas. Fico confuso quando vejo pessoas nas revistas a mostrar as suas casas e os seus filhos, banheiras cheias de espuma... Se eu poder fugir desse circo melhor. Eu quero é ser músico.
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