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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Sandra Celas: “O papel mais difícil é ser mãe"

A actriz, de 34 anos, está de regresso ao trabalho, em ‘Morangos com Açúcar’, um ano após ter dado à luz Miranda. Considera-se uma sortuda por ter

26 de setembro de 2009 às 10:30

A actriz, de 34 anos, está de regresso ao trabalho, em ‘Morangos com Açúcar’, um ano após ter dado à luz Miranda. Considera-se uma sortuda por ter conseguido passar todo este tempo com a filha. Só lamenta que por ser actriz não tenha recebido 'nem sequer o subsídio de maternidade'.

- Neste momento encontra-se a participar em algum projecto profissional?

- Estou a gravar ‘Morangos com Açúcar’, para a TVI, onde faço de professora de Teatro. Agora a série, que já vai na sétima temporada, é diferente, é uma escola de artes, uma espécie de ‘Fame’ à portuguesa. Penso que pode ser muito pedagógico, porque as pessoas não têm noção do que um actor tem de trabalhar. Julgam que é só preciso ter um jeitinho e ser extrovertido. E, na verdade, é preciso muito mais do que isso.

- E antes, o que fez?

- Acabei há dias o espectáculo ‘Passagens do Tempo’, um recital de poesia de Nuno Artur Silva que esteve em cena no Museu da Electricidade, em Lisboa, inserido no âmbito do Experimenta Design. Éramos três actores em palco, eu, o Rui Morrison e o Marco d’Almeida. Tinha música do Armando Teixeira e desenhos de António Jorge Gonçalves, o meu marido.

- Dos trabalhos que fez em televisão, qual foi o que mais a marcou?

- Pessoalmente, todos eles foram trabalhos muito longos e, portanto, acabam sempre por nos marcar, são muitos meses de trabalho. Digamos que gostei muito de fazer o último, ‘Deixa-me Amar’, no papel da ‘Susana Alecrim’.

- Então a ‘Susana’ foi a personagem que mais a marcou?

- Penso que para o público – pelo menos é esse o retorno que tenho – o mais marcante foi uma personagem que fiz na série ‘Inspector Max’, onde era a jornalista ‘Júlia’. E como a minha participação durou dois anos e agora a série está a ser repetida, as pessoas lembram-se bem da ‘Júlia’. Às vezes, na rua, ainda me chamam ‘Júlia’. Estas séries para o público mais jovem têm mais impacto, são muito mais vistas. Por isso é que os ‘Morangos com Açúcar’ têm tanto sucesso.

- Tem feito cinema?

- Nunca fiz uma longa-metragem mas já fiz umas quantas curtas. Houve duas de que gostei muito. Uma foi realizada no ano passado e tem ido a vários festivais. Chama-se ‘Conta’ e faço de imigrante brasileira, com sotaque e tudo. Sempre tive jeito para línguas, tenho uma grande facilidade em apanhar sotaques. Depois, penso que beneficiamos todos, e eu em especial, dos muitos anos a ver as novelas da Globo, e o português do outro lado do Atlântico acaba por ser muito familiar.

- E a outra?

- Fiz uma outra, há pouco tempo, que esteve no Festival Mostra-me, no São Jorge, que se chama ‘Quando o Anjo e o Diabo Colaboram’, onde fiz de ‘Anjo’ e trabalhei, mais uma vez, com o Rui Santos, que era agente da Judiciária em ‘Inspector Max’.

- O que gosta mais de fazer: teatro, cinema ou televisão?

- Gosto de fazer tudo. Sempre tive um problema com as rotinas. Por exemplo, se estiver a fazer televisão dois ou três anos seguidos, obviamente, sinto a necessidade de fazer teatro porque gosto muito dos palcos. Quanto ao cinema – já tive um cheirinho de cinema, quando fiz as curtas –, é claro que desejo fazer parte do elenco de uma longa-metragem. Tenho sempre a impressão de que o cinema é a televisão em bom, com mais tempo, mais meios.

- Porque é que diz ‘em bom’?

- Há uma outra atenção aos pormenores que não existe em televisão; mas, por sua vez, esta tem uma coisa fantástica, que é chegar a toda a gente. Às vezes tenho a sensação de que há actores que menosprezam muito a televisão, e acho errado, porque é um veículo que chega a tanta gente que nós, actores, técnicos, tradutores, temos que nos esmerar, melhorar sempre mais, porque como chega às massas temos uma grande responsabilidade.

- Sente essa responsabilidade em relação à televisão?

- Como actriz sinto muito isso. Às vezes é muito cansativo trabalhar em televisão – são muitos meses, muitas cenas por dia, muitas horas de trabalho – mas penso que é muito importante e entrego-me com a mesma intensidade quer seja ao teatro, cinema ou à televisão.

- O nascimento da sua filha, Miranda, agora com um ano, alterou em muito a sua vida profissional?

- Durante a gravidez alterou um bocadinho, porque em Portugal é estranho, não é fácil trabalhar grávida. Não é que não seja possível, porque em todo o Mundo se faz isso, altera-se os guiões, incorpora-se a questão, e as pessoas podem trabalhar, não digo até ao fim da gravidez, mas trabalha-se.

- Mas a Sandra trabalhou grávida...

- Sim. Por acaso, trabalhei até aos seis meses de gravidez. Estava a fazer a novela ‘Deixa-me Amar’. Na altura não disse a ninguém, até por uma questão de privacidade. Quando estamos a fazer uma novela é raro sairmos, faz-se o trabalho até ao fim, tendo o cuidado de ou integrar a gravidez na personagem, ou de fazer as cenas só com planos de rosto.

- Depois disso propuseram-lhe algum trabalho?

- Recusei algumas propostas que entretanto tive, porque não se coadunavam com as necessidades de um bebé. Confesso que não tinha a ideia de que ser mãe era tão exigente e é uma pena que a nossa lei seja tão errada e desajustada, porque quatro ou cinco meses não chegam. Uma mãe que tem que largar um filho com cinco meses num berçário deve sentir-se vítima de uma enorme violência.

- Mas é o que acontece com praticamente todas as mulheres que são mães.

- Sim. Eu fui uma sortuda, só não fui completamente porque, como sou actriz, não tive direito a receber nada, nem sequer subsídio de maternidade; nós, artistas, temos esse problema. Mas tive a possibilidade de ter estado este tempo todo com a minha filha e fiz alguns trabalhos muito pontuais. O tempo passa num instante, mesmo muito rápido.

- Sentiu falta do trabalho nessa altura?

- Sou uma mulher que gosta muito do seu trabalho e pensava que ia sentir mais a falta dele, mas não. Além disso, existe em Portugal uma grande falta de infra-estruturas a nível de creches. A lei dos países nórdicos é mais correcta, porque a mãe ou o pai podem ficar um ano em casa, e não é difícil. A minha filha fez agora um ano e eu comecei a trabalhar intensamente, mas ao mesmo tempo estou a tentar ficar com ela nos primeiros dois anos. Não a quero pôr já na creche. A lei da Segurança Social tem que ser revista urgentemente, porque temos de ser cidadãos como os outros.

- Mas mesmo assim conseguiu estar com a sua filha um ano.

- Eu pude estar em casa porque tenho um marido que, apesar de ser artista plástico, esteve sempre a trabalhar muito.

- Então conseguiu, juntamente com o seu marido, arranjar uma solução para que a Miranda ficasse em casa?

- Temos conseguido coordenar as nossas vidas com os avós, porém não é fácil. Além da questão dos artistas que não recebem quando não trabalham, há também a questão de o índice de natalidade estar tão baixo; e, curiosamente, os políticos queixam-se disso. Mas, se querem fazer alguma coisa por Portugal, não é aumentando 20 euros no abono de família que vão conseguir inverter a situação. É perfeitamente anedótico.

- Então qual é que seria a solução, na sua opinião?

- Deviam criar uma lei que permitisse aos pais, um ou o outro, ficarem em casa – a receber, obviamente –, para tomarem conta das suas crianças, pelo menos até à idade de um ano; senão não há amamentação que se consiga fazer, não há nada, e as mães e os pais sofrem.

- O seu marido ajuda-a a mudar as fraldas e a dar o banho?

- Sim. A Miranda foi uma filha muito desejada pelos dois e ele ajuda bastante. Está a ser partilhada tanto nas coisas boas como nas menos boas, nas mais duras e nas mais chatas.

- Já apanhou, entretanto, algum susto com a sua filha?

- Não, e ainda bem. Mas agora tenho que ter mais cuidado, porque ela começou a gatinhar e eu já percebi que é um compromisso entre estar atenta e não interferir muito, porque ela tem de fazer as suas descobertas. Isto de ser mãe e pai é um papel difícil.

REFLEXO

- O que vê quando se olha no seu espelho?

- Vejo-me a mim e, às vezes, olheiras de cansaço. Agora vejo muito a minha filha. Ela gosta muito de se ver ao espelho. Foi assim que deixou de chorar no banho.

- Gosta do que vê?

- Sim. Há dias em que uma pessoa acorda mais inspirada do que noutros, mas regra geral gosto do que vejo. O espelho pode ser enganador, acontece quando distorcemos a imagem que temos de nós próprios e o espelho devolve-nos o que estamos a sentir.

- Alguma vez lhe apeteceu partir um espelho?

- Não. Já me apeteceu partir outras coisas mas um espelho nunca.

- Quem gostaria de ver reflectido no seu espelho?

- Não sou como a madrasta da Branca de Neve. O espelho, para mim, serve para corrigir o que não está bem. Penso que é importante conhecermo-nos, mas também não vamos passar o dia todo a olhar para ele.

- Uma pessoa de referência?

- O meu marido, António Jorge Gonçalves.

- O momento mais marcante na sua vida?

- O nascimento da minha filha, Miranda, a 21 de Setembro de 2008.

- Qualidades e defeitos?

- Sou muito lutadora, tenho capacidade de trabalho, sou uma pessoa com imensa força de vontade e que gosta de viver as coisas, desfrutar das pessoas e dos acontecimentos. Quanto a defeitos, sou preguiçosa, dorminhoca, às vezes tenho uma certa falta de fé em mim mesma. Tenho uma insegurança crónica e acordo com mau génio, que agora é aplacado um bocadinho pela minha filha.

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