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Osteoporose, a doença silenciosa que afeta 800 mil portugueses

Se tem 40 anos e acha que a osteoporose é uma doença dos idosos, está enganado. É a partir desta idade que o metabolismo dos ossos se altera e que se pode evitar o pior: fraturas nos ossos. Faça o teste e descubra se está em risco. 
Por Susana Lúcio 20 de Outubro de 2019 às 08:00
Osteoporose
Osteoporose FOTO: Direitos Reservados

Se perdeu três centímetros de altura pode ter sofrido fraturas nas vértebras, sem ter sentido dor. Prepare-se: tem osteoporose. A doença, que atinge a densidade dos ósseos e os torna quebradiços, afeta cerca de 800 mil portugueses. E todos os anos é responsável por 50 mil fraturas que reduzem a qualidade de vida. A 20 de outubro celebra-se o Dia Mundial da Osteoporose. 

É a partir dos 40 anos que os ossos começam a perder capacidade de regeneração e quando se deve tomar atenção à alimentação e ao exercício físico para fortalecê-los. A prof. Dra. Helena Canhão, especialista em Reumatologia na Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa, explicou-nos como combater a osteoporose. 

O que provoca a osteoporose?
A osteoporose é uma doença óssea metabólica progressiva que diminui a densidade óssea (massa óssea por unidade de volume), com deterioração da estrutura óssea. À medida que a idade avança, o processo contínuo e obrigatório de remodelação óssea (indispensável e desejável num osso normal) realiza-se de uma forma desequilibrada: isto é, o osso reabsorvido é superior ao osso formado. Isto conduz a uma estrutura óssea composta por trabéculas [estrutura linear do osso esponjoso]muito finas, que se tornam mais frágeis e descontínuas. 

É uma doença associada ao envelhecimento. A partir de que idade se pode manifestar?
Os nossos ossos são matéria viva e em constante remodelação. Ainda assim, a capacidade para se remodelarem e fortalecerem vai diminuindo com a idade. Por essa razão é necessário perceber o processo para melhor impedir a sua fragilidade. Pelos 40/45 anos a densidade óssea começa a diminuir tanto nos homens como nas mulheres. Nesta fase, a renovação da estrutura óssea não se dá com a mesma velocidade com que é perdida. Por sua vez, a partir dos 50 anos, o declínio da massa óssea é maior e mais rápido, sobretudo nas mulheres a partir da menopausa, que são o grupo em maior risco. Mas, a partir dos 65 anos, tanto homens como mulheres podem ser afetados. 

Quais os fatores de risco para o desenvolvimento da doença?
As fraturas estão associadas a vários fatores: idade, género e, até mesmo, origem étnica. Por norma, quanto mais elevada a idade maior é a probabilidade de ter osteoporose. Mas, as mulheres são mais suscetíveis à perda óssea do que os homens. 

É possível preveni-la? Como?
Existem fatores modificáveis e medidas que podem ser adotadas para ter ossos saudáveis e um futuro sem fraturas:

  • Prática de exercício físico regular: exercícios com pesos, para fortalecer os músculos e treinar o equilíbrio são os melhores;
  • Uma alimentação rica e variada é crucial, assim como garantir as doses diárias de vitamina D e cálcio: é um dos minerais de que o corpo humano mais necessita, sendo que a maior parte (95%) encontra-se nos ossos e dentes.
  • Evitar um estilo de vida com hábitos nocivos para a saúde: sabe-se que o efeito do fumo do tabaco e o consumo excessivo de álcool prejudicam a saúde dos ossos, contribuindo para a sua fragilidade. O tabaco, por exemplo, atrasa a remodelação óssea e o álcool em excesso aumenta o risco de fraturas a longo prazo, porque afeta as células e as hormonas responsáveis pela formação óssea. A cafeína em excesso também é prejudicial. 

Que alimentos e que tipo de exercício podem prevenir a doença?
A alimentação deve incluir alimentos ricos em cálcio, tais como leite, iogurte e queijo (que têm grandes quantidades), mas também espinafres, sardinhas enlatadas, frutos secos, tofu e sementes de sésamo. Em termos de atividade física é importante destacar os exercícios com carga, como a marcha, dança e ginástica aeróbica de baixo impacto; e exercícios com resistência, como a utilização de pesos, aparelhos ou fitas elásticas (com aconselhamento). O Tai Chi é recomendado para trabalhar o equilíbrio e postura.

Que sintomas devem as pessoas estar atentas para pedirem ajuda ao médico?
Os doentes com osteoporose não sentem sintomas, a menos que tenham sofrido alguma fratura. As fraturas não vertebrais são tipicamente sintomáticas, mas cerca de dois terços das fraturas por compressão vertebral não provocam sintomas.

O que é uma fratura por compressão vertebral?
Uma fratura por compressão vertebral que é sintomática começa com dor aguda que normalmente não se irradia. É agravada pelo suporte de peso, pode ser acompanhada de sensibilidade no ponto vertebral e tipicamente começa a diminuir após uma semana. A dor geralmente começa a desaparecer em uma semana. No entanto, uma dor residual pode durar meses ou ser constante. Contudo, em estado grave é possível verificar:

  • Alterações na forma do corpo – a altura diminui, a parte de cima do dorso torna-se arredondada, a cabeça e os ombros inclinam-se para a frente, a cintura fica mais larga e o abdómen mais proeminente;
  • Dor intensa na coluna – aguda, se causada por uma fratura ou traumatismo, ou crónica, se resultar do esforço a que são sujeitos músculos e ligamentos;
  • Fraturas provocadas mesmo por traumatismos ligeiros. 

Pode se perder altura?
A perda de altura pode ser um ponto importante para se ter em atenção. Se um indivíduo perdeu mais de três centímetros de altura, pode ser um indício de que sofreu fraturas nas vértebras (coluna) causadas pela osteoporose. As fraturas da vértebra podem provocar curvaturas na coluna ou uma bossa (corcunda). 

Como é realizado o diagnóstico?
A história clínica e o exame objetivo são fundamentais para detetar risco ou sinais de osteoporose. A densitometria óssea é importante pois permite medir a densidade do osso, que está diretamente relacionada com a massa óssea. Este exame é indolor e rápido, utilizando radiação numa dose muito menor do que a utilizada numa radiografia de tórax, e é muito fiável. No caso de se confirmar a presença de osteoporose, é importante uma avaliação laboratorial para identificar as causas mais frequentes de osteoporose secundária ou outras causas de fratura, e uma radiografia da coluna dorsal e lombar para verificar a existência de deformação vertebral. A Fundação Internacional da Osteoporose desenvolveu um teste rápido que serve para um indivíduo determinar o risco de osteoporose a 10 anos. Este teste chama-se FRAX e está validado para Portugal. Com 19 questões tem como objetivo deixar um indivíduo em alerta no caso de ter risco aumentado para osteoporose. 

É uma doença a que os médicos de família estão atentos?
Os médicos de família devem ter uma particular atenção aos indivíduos a partir dos 50 e aos sinais e sintomas de risco, é importante garantir que são feitas avaliações quanto ao risco de se ter osteoporose antes que exista uma fratura. 

A doença afeta 800 mil doentes em Portugal. É um número preocupante?
A osteoporose é uma doença silenciosa, incapacitante e muitas vezes fatal. Além disso, o número de fraturas de fragilidade relacionadas com a osteoporose vai aumentar 32% até 2050. É necessário estar alerta e encarar este problema de saúde pública.Foi publicado um estudo no The Lancet [revista científica], em que com o balanço feito a propósito dos 40 anos do Serviço Nacional de Saúde, focou-se o excelente progresso nos indicadores de saúde dos portugueses - a descida da mortalidade infantil e o aumento da esperança média de vida para 81,3 anos. Mas a revista alerta que com o aumento da esperança média de vida, a osteoporose enquanto problema de saúde pública é cada vez mais uma constante! 

Registam-se 50 mil fraturas de fragilidade todos os anos em Portugal. O que são fraturas de fragilidade?
As fraturas de fragilidade são causadas por osteoporose e ocorrem após um trauma menor do que o esperado para fraturar um osso normal. Quedas da própria altura ou menos são consideradas como causadoras das fraturas por fragilidade. 

As fraturas de fragilidade atingem que ossos?
Os locais mais comuns das fraturas por fragilidade são o rádio distal [punho], a coluna vertebral (fraturas por compressão vertebral — a fratura mais comum relacionada com a osteoporose), o colo do fémur [perna] e o trocânter maior [na parte superior do fémur].

Como se trata uma fratura deste tipo?
As fraturas necessitam de ser tratadas com imobilização temporária dos locais atingidos e, por vezes, com cirurgia.

Qual o tratamento da osteoporose?
Dependendo dos resultados da avaliação clínica de um doente, poderá ser recomendado suplementos de cálcio e vitamina D, outros suplementos, exercícios e, também, intervenção farmacológica e a realização do devido seguimento. O tipo de tratamento recomendado dependerá do perfil de risco de cada indivíduo, que leva em consideração o risco de fratura específico que poderá existir, outras condições médicas e medicamentos. A nível geral, os medicamentos aprovados são seguros e efetivos e, como qualquer medicamento, é preciso estar consciente de possíveis efeitos colaterais.

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