Inchaço, dor ou desconforto persistente são sintomas comuns, mas continuam a ser ignorados. Novo estudo revela a dimensão de um problema vivido em silêncio e expõe falhas no diagnóstico, na literacia e na resposta.
26 de março de 2026 às 15:42Quase metade dos portugueses admite ter sintomas intestinais persistentes. Ainda assim, continua a ser um tema pouco falado, muitas vezes desvalorizado e frequentemente sem diagnóstico. O retrato é traçado pelo estudo "A Saúde Intestinal dos Portugueses – um território por explorar", apresentado numa conferência promovida pela Médis, no âmbito do Projeto SAÚDES, que reuniu especialistas, decisores e diferentes vozes da sociedade para discutir o que se passa dentro de nós.
Os dados são claros. Cerca de 45% da população entre os 18 e os 65 anos refere desconforto intestinal recorrente. Traduzido em números, são perto de três milhões de pessoas a viver com sintomas que afetam o dia a dia, o bem-estar e a qualidade de vida. "Estamos a falar de cerca de três milhões de portugueses e, ainda assim, é um tema pouco discutido. É quase uma violência silenciosa", resumiu Eduardo Consiglieri Pedroso, Chief Healthcare Ecosystem Officer do Grupo Ageas Portugal.
1 / 3
Apesar da dimensão, muitos destes casos continuam sem diagnóstico. A explicação está, em parte, na forma como estes sintomas são encarados. "Muitas destas situações são desvalorizadas e consideradas normais, quando na verdade não são e precisam de resposta", alertou a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo.
A normalização começa cedo e prolonga-se no tempo. Cólicas, obstipação ou inchaço passam a fazer parte da rotina e deixam de ser questionados. "Estamos a normalizar aquilo que não é normal", sublinhou Conceição Calhau, professora catedrática da NOVA Medical School e orientadora científica do estudo levado a cabo pela Return on Ideas, uma consultora especializada em estudos de mercado e comportamento do consumidor, que procurou mapear a perceção e a experiência dos portugueses nesta área.
O problema não é apenas clínico. É também social, psicológico e económico. "Nem sempre as doenças mais prevalentes são as mais visíveis", lembrou Sónia Dias, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública. "Estamos perante um problema sério de saúde pública, com impacto também no sistema e na economia."
Do lado psicológico, as consequências são igualmente relevantes. A imprevisibilidade dos sintomas leva muitas pessoas a limitar a vida social e profissional. "Esta sensação de falta de controlo sobre o corpo gera ansiedade, frustração e limita a vida das pessoas", explicou Alexandra Antunes, vice-presidente da direção da Ordem dos Psicólogos.
Por outro lado, como sublinhou Mónica Velosa, da sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, "muitos doentes aprendem desde cedo a normalizar sintomas e isso atrasa o diagnóstico". A dificuldade em encontrar respostas agrava o problema. Muitos doentes circulam entre especialidades, sem um acompanhamento integrado. "Temos muitos doentes sem dono", admitiu Conceição Calhau.
A complexidade do intestino ajuda a explicar esta dificuldade. Como referiu Pedro Bogueira, da Sociedade Portuguesa para a Inovação em Microbioma e Probióticos, trata-se de um órgão central na saúde global, com impacto não apenas no sistema digestivo, mas também noutras doenças e no equilíbrio geral do organismo.
Num contexto em que a informação está mais acessível do que nunca, a literacia em saúde continua a ser baixa. E isso tem consequências diretas. "No vazio de literacia surgem os mitos, as simplificações e as soluções fáceis", alertou a gastroenterologista Maria João Magalhães.
Essa dificuldade em interpretar informação acaba por se traduzir em comportamentos de tentativa e erro. Cerca de um quarto dos portugueses tenta resolver os sintomas sozinho, recorrendo a dietas, suplementos ou conselhos encontrados online.
Este fenómeno, identificado no estudo como "experimentalismo", foi também destacado no painel dedicado ao tema, no qual a criadora de conteúdos Catarina Gouveia sublinhou o papel da comunicação nas redes sociais. "Há uma enorme responsabilidade em comunicar para tantas pessoas e encaminhar para informação credível."
Aqui, o risco não está apenas na informação errada, mas na ausência de acompanhamento. "Não tentem resolver sozinhos. Quando se tenta resolver o sintoma, não se resolve o problema na origem", avisou Joana Barbosa, consultora e partner da Return on Ideas.
Este comportamento, muitas vezes motivado pela frustração e pela falta de respostas, pode agravar a situação. Cortes alimentares sucessivos, uso indiscriminado de probióticos ou soluções "milagrosas" acabam por criar mais desequilíbrios. "Quem promete uma solução igual para todos ou uma solução milagrosa deve levantar suspeitas", reforçou a médica Margarida Santos.
Se há consenso entre os especialistas, ele está na importância da alimentação. Mais do que tratar, importa prevenir. "Nós somos aquilo que os nossos microrganismos fazem com aquilo que comemos", resumiu Conceição Calhau.
A microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que vivem no intestino, desempenha um papel central na digestão, na imunidade e no equilíbrio do organismo, sendo fortemente influenciada pela alimentação e pelo estilo de vida. O problema é que a prática está longe do ideal. Mais de 80% da população portuguesa não segue a dieta mediterrânica, base alimentar associada a uma melhor saúde intestinal. "Em vez de contar calorias, devíamos contar quantos alimentos diferentes de origem vegetal comemos por semana", acrescentou Conceição Calhau.
A solução passa por mudanças simples, mas consistentes: maior diversidade alimentar, consumo regular de legumes e leguminosas, ingestão adequada de fibra e inclusão de alimentos fermentados. Também o tempo dedicado à cozinha faz diferença. "Quanto mais tempo passamos na cozinha, menor é a carga da doença", defendeu João Ribeiro, médico infeciologista e chef de cozinha.
Apesar da sua prevalência, a saúde intestinal continua envolta em desconforto e silêncio. Falar sobre o tema ainda é difícil, seja por embaraço, seja por falta de linguagem acessível. "Falar sobre isto ainda é um tabu. Muitas pessoas não se sentem à vontade nem para fazer perguntas", admitiu Margarida Santos. Esse silêncio tem consequências diretas: atrasa o diagnóstico, prolonga o sofrimento e alimenta a ideia de que estes sintomas são "normais".
Esta realidade está também ligada à forma como corpo e mente comunicam. A ligação entre intestino e cérebro, hoje cada vez mais estudada, ajuda a explicar porque sintomas digestivos estão frequentemente associados a ansiedade, stress ou alterações de humor.
"Precisamos de trazer este tema para o dia a dia, para a mesa de jantar, para as conversas entre amigos", referiu Maria do Carmo Silveira, defendendo a importância de tornar o tema mais acessível e presente no quotidiano.
Este novo estudo integra o Projeto SAÚDES, uma iniciativa da Médis que celebra cinco anos e que tem vindo a promover a literacia em saúde através de estudos, debates e conteúdos acessíveis ao público, criando espaços de reflexão sobre temas muitas vezes ignorados.
Mais do que produzir conhecimento, o objetivo é dar visibilidade a problemas vividos em silêncio e aproximar investigação, prática clínica e sociedade. "Queremos transformar temas que ainda são tabu em conversas do dia a dia", afirmou Luís Menezes, CEO do Grupo Ageas Portugal, reforçando que "este estudo não é apenas um retrato, é também um compromisso para uma discussão mais clara e orientada para a ação".
A tecnologia poderá ter um papel crescente nesta transformação. Na keynote final, Luís João, head of Healthcare da Google Cloud em Portugal, mostrou como a inteligência artificial já permite analisar estudos complexos, gerar conhecimento e desenvolver soluções mais ajustadas a cada pessoa.
A possibilidade de criar planos de nutrição personalizados, com base em dados individuais, abre caminho a uma abordagem mais preventiva e eficaz. Mas deixa também um alerta. "O desafio é usar esta tecnologia de forma responsável, com ética e rigor, sobretudo na área da saúde."
No encerramento, ficou clara a dimensão do desafio. "Estamos perante um tema com escala, com impacto real e ainda com pouca expressão pública", sublinhou Eduardo Consiglieri Pedroso, Chief Healthcare Ecosystem Officer do Grupo Ageas Portugal. "Transformar conhecimento em cuidado é a única forma de avançar. O sucesso deste estudo será simples: menos pessoas a sofrer em silêncio e mais pessoas a procurar ajuda mais cedo."
Para saber mais sobre a saúde intestinal, visite o site saudes.pt, onde pode fazer o download gratuito do estudo, ou explore conteúdos adicionais em https://saudeintestinal.sabado.pt