Adiar a mudança pode custar mercado, financiamento e competitividade às PME, sustentam os especialistas.
20 de julho de 2026 às 10:58Em todas as empresas, a sustentabilidade disputa atenção, tempo e recursos com as necessidades do dia a dia: clientes, custos, equipas, produção, tesouraria. Por isso, acaba – muitas vezes – por ser um tema adiado ou a que não é dada prioridade. Uma atitude que vai sair cada vez mais cara às empresas, avisam os especialistas ouvidos no mais recente videocast do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de Sustentabilidade para PME.
Desta vez, o debate juntou Norma Franco, partner da EY, e Nuno Gonçalves, vice-presidente do IAPMEI (Agência para a Competitividade e Inovação), numa conversa sobre os principais desafios que as PME enfrentam na sua jornada para a sustentabilidade. Os dois responsáveis concordaram em que: num mercado cada vez mais exigente, adiar a mudança significa – cada vez mais – perder competitividade, acesso a financiamento, e capacidade de responder às novas exigências dos clientes e das cadeias de valor.
Logo na abertura da conversa, Norma Franco identificou um dos erros mais frequentes das PME neste percurso: “Muitas vezes começamos pelo telhado”, afirmou, referindo-se à tendência de algumas empresas para iniciarem a jornada da sustentabilidade com um relatório, sem antes perceberem como é que a organização se pode tornar mais competitiva através da sustentabilidade, e quais são os temas com maior impacto na resiliência do negócio. Para a partner da EY, “a resposta passa por trazer maior literacia e capacitação” para dentro das PME e por integrar critérios de sustentabilidade na estratégia, na tomada de decisão e na alocação de capital, escolhendo os temas mais relevantes para cada empresa, definindo objetivos concretos e evitando dispersar recursos em todas as frentes. O objetivo desta abordagem à sustentabilidade, sublinhou a responsável "é construir valor dentro daquele que é o negócio”, afirmou.
Muitas vezes começamos pelo telhado
Partner da EY
Nesta jornada, e mesmo quando não estão diretamente abrangidas por novas obrigações de reporte, as PME acabam por sentir a pressão da regulação e do mercado. Segundo Norma Franco: “Muitas das organizações sentiram que no contexto legal atual isto não as iria impactar. Não é verdade.” Conforme explica a responsável, as grandes empresas, que estão sujeitas a metas e regras de sustentabilidade, começam a exigir informação sobre este tema aos seus fornecedores. A este fator soma-se a pressão do lado do financiamento, em que o acesso a capital está cada vez mais ligado a critérios de sustentabilidade.
Do lado do IAPMEI, Nuno Gonçalves colocou o foco na melhoria da capacidade de planeamento e na evolução das lideranças das PME. Num contexto marcado por sucessivas crises, o vice-presidente do instituto considerou que o primeiro desafio das lideranças das PME é encontrar espaço para pensar estrategicamente o futuro. Para Nuno Gonçalves: “A liderança tem um papel absolutamente chave na incorporação desta temática nas empresas”, sublinhou. No entanto, a mudança não depende apenas da gestão de topo. Para Nuno Gonçalves "o desafio está na liderança e na estrutura.” Ou seja, sem equipas capacitadas e sem uma cultura interna que encare a sustentabilidade como parte da missão da empresa, o processo dificilmente avança. É necessária, resumiu o responsável, “uma verdadeira mudança de chip dentro das organizações”, afirmou.
Uma parte importante do debate centrou-se nos apoios disponíveis para as PME. Sobre este tema Nuno Gonçalves foi claro: “Nunca houve tantos incentivos para a temática da sustentabilidade no âmbito da eficiência energética, da descarbonização, como há agora”, apontando o PRR, o Portugal 2030 e os sistemas de incentivos à inovação e à qualificação como instrumentos relevantes para apoiar a transição das empresas. Nesta questão, Norma Franco reconheceu essa evolução, mas alertou para as dificuldades de acesso e adequação: “Muitas vezes a informação que está contida nos avisos é muito difícil de descodificar”, acrescentando que as soluções existentes nem sempre estão desenhadas para responder às necessidades concretas das empresas.
Nunca houve tantos incentivos para a sustentabilidade
Vice-presidente do IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação.
Na reta final do videocast, Nuno Gonçalves deixou um apelo à colaboração, defendendo que as PME terão mais dificuldade em responder a estes desafios se continuarem a trabalhar isoladamente. Para o IAPMEI: “A grande mensagem é serem colaborativas com o seu ecossistema”, afirmou Nuno Gonçalves, apontando parcerias com clientes, fornecedores, universidades, centros tecnológicos, instituições financeiras e entidades públicas, como parte da resposta.
Este videocast deixou clara a ideia de que a sustentabilidade já não pode ser tratada como um tema à margem da gestão. Esta jornada necessita de estratégia, liderança, capacidade de adaptação e uma leitura clara das exigências do mercado, da regulação e do financiamento. E exige também tempo, recursos e cooperação. Para as PME, a mensagem foi clara: adiar esta transição é – cada vez mais – arriscar perder competitividade, resiliência e capacidade de crescimento.